"Venezuelanos sentem que chegou a hora e estão dispostos a tudo. Até a usar a violência"

Entrevista a Nancy Elena Ferreira Gomes, professora de Relações Internacionais da Universidade Autónoma, sobre a situação na fronteira da Venezuela com Colômbia e Brasil.

Na véspera da operação de entrada de ajuda humanitária na Venezuela, decretada pelo presidente interino Juan Guaidó, o DN foi falar com a professora de Relações Internacionais da Universidade Autónoma, Nancy Elena Ferreira Gomes. A luso-venezuelana é filha de madeirenses que emigraram para a Venezuela nos anos 1950, tendo vindo para Portugal em 1991 para prosseguir os estudos -- acabando por cá ficar.

Este sábado, Guaidó vai tentar fazer entrar a ajuda humanitária, desafiando os militares a mostrar que já não estão ao lado do presidente Nicolás Maduro. Como é que acha que esta situação vai acabar?
Neste momento só há duas opções. Uma é que, perante o avanço de milhares de pessoas, os militares na fronteira abram a passagem. Neste cenário, Maduro não teria outra alternativa senão renunciar, porque seria assumir que efetivamente já não tem a capacidade, a autoridade e o controlo sobre o país. Seria um sinal de que o poder de facto já não estaria a ser exercido pelo presidente. O outro cenário é que, diante do avanço da população - porque estamos a falar de uma situação limite, de um lado há pessoas esfomeadas, com grandes carências do ponto de vista de saúde, e do outro temos comida e medicamentos, é muito cruel - os militares e todo o pessoal que está garantir a segurança das fronteiras impede a passagem. Seria natural haver aqui algum descontrolo e confrontos. Então, poderíamos assistir a um número significativo de mortos.

Qual será o mais provável?
Para alguns este último será o mais viável, aquele que vai acontecer, porque há uma perceção desde dentro, de quem mora na Venezuela, de que isto tem que acabar de qualquer forma. O tempo do diálogo infelizmente acabou. Julgo que esta decisão precipitada dos EUA e inclusive de Juan Guaidó, que se justifica tendo em conta a circunstância de urgência, acabou com a última possibilidade de um diálogo e de uma negociação pacífica que permitisse ou facilitasse a transição e o convocar de novas eleições. Chegámos a um ponto limite em que a perceção desde dentro, estou a falar de pessoas que estão lá dentro, a sofrer a cada minuto, é de que isto tem que acabar. Com ou sem apoio das forças militares.

Chegámos a um ponto limite em que a perceção desde dentro, estou a falar de pessoas que estão lá dentro, a sofrer a cada minuto, é de que isto tem que acabar. Com ou sem apoio das forças militares

Mas e se houver este cenário de confrontos e ficar provado que os militares estão dispostos a ir até às últimas consequências no apoio a Maduro. O que acontece depois?
Há a possibilidade de uma intervenção militar dos EUA, mas não sei até que ponto os EUA seriam capazes de expor a vida dos seus soldados a um alto custo associado a uma intervenção militar. Mas é possível. Não seria a primeira vez. Mas é um pouco estranho pensar nessa possibilidade porque a última vez que os EUA intervieram na região estávamos no final da Guerra Fria, num contexto muito diferente. Atualmente não vivemos numa Guerra Fria, pode parecer porque a Rússia está lá, mas não é. Mas é uma possibilidade que os EUA avancem, com a justificação de proteger até nacionais norte-americanos. Na fronteira há um grupo enorme de pessoas, não são só venezuelanos, mas de todas as nacionalidades. Inclusive chefes de estado... podia ser uma desculpa. Mas sinceramente custa-me a acreditar que os EUA avancem com uma intervenção militar.

Sinceramente custa-me a acreditar que os EUA avancem com uma intervenção militar

E se não acontecer nada?
Também pode acontecer que os militares não deixem a ajuda humanitária passar e ela não passe, fique do outro lado na fronteira. E então pode haver uma nova tentativa, na próxima semana ou noutra data. A verdade é que chegámos a um ponto limite. Não é fácil prever porque há muitos dados que nós não possuímos, não percebemos até que ponto Maduro detém o poder, as lealdades ao regime são muito diversas. Não é um estado convencional, é um estado que perdeu poder e esse poder foi ocupado por uma série de intervenientes que não têm rosto, estou a falar de terroristas, da guerrilha colombiana, do narcotráfico. Estou a falar de uma realidade onde há interesses muito claros do ponto de vista económico, do exercício da influência de outros estados externos, que são grandes potências, como a China ou a Rússia, que continuam a apoiar oficialmente e publicamente o governo de Maduro. O que posso dizer é que, falando com os meus amigos, as pessoas que ainda moram na Venezuela, é que os venezuelanos sentem que chegou a hora e estão dispostos a tudo, por causa do que têm sofrido. Até a usar a violência. Chegou-se a este ponto.

Os venezuelanos sentem que chegou a hora e estão dispostos a tudo, por causa do que têm sofrido. Até a usar a violência. Chegou-se a este ponto

E se os EUA não avançarem nessa intervenção militar. Acha que Colômbia ou Brasil podem fazê-lo?
Não, não. A última guerra entre estados na região é já do século passado e foi entre o Peru e o Equador. A América Latina transformou-se e é já uma das bandeiras da região, no que diz respeito à política externa de todos os países, é uma zona de paz. Não há guerra entre os estados. Há zonas de potencial conflito entre as fronteiras. Mas a ideia de guerra entre estados não. Os brasileiros não vão entrar, o próprio governo de Jair Bolsonaro disse que não iria usar as Forças Armadas. A Colômbia, apesar de estar preparada, tem o mais poderoso exército da região, é o principal aliado dos EUA, também não me parece que lhe interesse. Os governos latino-americanos deixaram claro, desde o início desta crise, que o uso da força militar não seria o mais adequado para resolver esta situação. O único estado que tem poder, que tem um histórico de intervenção na região, é os EUA. Mas os EUA, para poder avançar, precisam de contar com o apoio da opinião pública norte-americana e não sei até que ponto essa opinião pública estará disposta a aceitá-lo. Não me parece que a Venezuela seja tão importante ou que seja considerada uma ameaça aos EUA. E Donald Trump, apesar de ter dito publicamente que todas as soluções estavam em cima da mesa, inclusive a militar, nunca falou que seria uma opção viável. Ameaça com sanções económicas, políticas e diplomáticas. São essas que têm usado.

Se a ajuda humanitária não entrar e não houver uma intervenção militar dos EUA, sairá Maduro reforçado?
Possivelmente, mas algo vai mudar. Se houver confrontos, serão confrontos entre os próprios venezuelanos. Não digo com a possibilidade de uma guerra civil, mas seriam confrontos, haveria possivelmente massacres, repressão. Eu não diria que sairia reforçado, porque o governo de Nicolás Maduro perdeu poder, influência, credibilidade. Está muito desprestigiado. Maduro não é uma figura muito popular, há quem diga que é já uma figura odiada. Eu não diria que pode sair reforçada, mas eles podem radicalizar-se mais e adiar a transição democrática que é aquilo que é necessário para o país. Ele poderá vir a reforçar o controlo de uma forma autoritária, repressiva, poderá fazê-lo ainda durante algum tempo. Enquanto ele contar com algum apoio internacional, e conta, enquanto puder ainda se sustentar do ponto de vista económico... É verdade que há sanções, mas há outras formas de conseguir dinheiro. Estamos a falar de um país rico, onde vale a pena apostar. Em troca de petróleo, de ouro, de tantos recursos, haverá sempre quem queira ajudar o regime.

[Maduro] poderá vir a reforçar o controlo de uma forma autoritária, repressiva, poderá fazê-lo ainda durante algum tempo

Interna ou externamente?
A situação chegou a um ponto em que temos que separar o contexto interno do externo. Há o poder de facto e é Maduro que tem esse poder, porque tem as Forças Armadas ainda do seu lado, controla as contas do Estado, as fronteiras, tem os meios para exercer esse controlo. Depois temos um governo que foi legitimado desde fora. Desde dentro há grande mobilização, tem havido sondagens em que as pessoas se manifestam a favor da entrada da ajuda humanitária e em que reconhecem este governo de transição, que é transitório. Mas Guaidó é reconhecido principalmente cá fora. E a figura do reconhecimento é uma figura com consequências do ponto de visto das relações internacionais e não tem nada a ver com o interior. Tem a ver com os negócios que se podem fazer, com a representação política, diplomática. Os países que reconhecem Guaidó reconhecem que ele é o representante da Venezuela e é com ele que vão estabelecer um diálogo, trocar representantes diplomáticos... mas muito limitado. Os representantes de Guaidó não têm os meios e vão ter que contar com meios que os estados colocarão à sua disposição.

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