Tspiras vence moção de confiança e continua a liderar o governo grego

O parlamento aprovou a moção de confiança com os 151 votos que eram exigidos para sair vencedor. Não haverá eleições antecipadas

Alexis Tsipras vai continuar o seu mandato como primeiro-ministro da Grécia, depois de esta quarta-feira o parlamento ter votado a seu favor uma moção de confiança por ele exigida no domingo, depois da demissão do ministro da defesa Panos Kammenos, líder do partido nacionalista Gregos Independentes, que anunciou o fim da coligação que suportava o governo do Syriza.

Tsipras precisava de obter o apoio de 151 dos 300 deputados do parlamento grego e foi isso que aconteceu esta noite, o que viabiliza o governo e impede que sejam antecipadas as eleições previstas para outubro. Após a dissolução da coligação governamental, o Syriza passou a ter apenas 145 deputados, pelo que precisava do voto de mais seis deputados para se manter em funções, algo que acabou por conseguir.

Ainda antes da votação o líder da oposição Kyriakos Mitsotakis, já à espera da vitória de Tsipras, lançou um ataque aos deputados que viabilizaram a continuidade do governo. "Quem votar sim, aprova na íntegra o naufrágio do país nos últimos quatro anos e o grande engano político que levou Tsipras ao poder", frisou o presidente do partido Nova Democracia.

Alexis Tsipras sai como grande vencedor desta crise política, pois se a moção de confiança não tivesse sido favorável ao Syriza teriam de ser convocadas eleições antecipadas, impedindo assim a revisão constitucional e algumas reformas que estão em marcha na Grécia, como o acordo para as relações entre Igreja e Estado, as novas medidas para a regularização de dividas e o aumento dos salários mínimos.

Macedónia no centro da crise

Esta moção de confiança foi convocada pelo próprio Tsipras no domingo, depois de Panos Kammenos, ministro da defesa e líder do partido nacionalista Gregos Independentes (ANEL), ter apresentado a sua demissão do cargo e anunciado o fim da coligação que nos últimos quatro anos viabilizou o governo do Syriza, que assim fica sem maioria no parlamento grego.

O fim da coligação foi a consequência natural de uma divergência profunda entre os dois partidos da maioria sobre a mudança de nome da Antiga República Jugoslava da Macedónia (ARYM). Uma polémica que dura há 27 anos e na qual Atenas sempre se opôs a que a ARYM utilize Macedónia como nome oficial do país, porque sempre considerou que isso poderia dar azo a que o governo de Skopje pudesse reivindicar uma região do norte da Grécia que tem o mesmo nome, sendo considerado património histórico-cultural da Grécia, uma vezes que ali nasceu Alexandre, o Grande.

Em junho do ano passado, a Grécia chegou a um entendimento com a ARYM - acordo de Prespa - para que o nome do país pudesse finalmente ser mudado para República da Macedónia do Norte, pois só com a aprovação do parlamento grego os macedónios podem entrar na NATO e na União Europeia. "Esta é uma ocasião histórica para terminar um longo contencioso político", justificou Tsipras.

Este acordo originou uma forte contestação na Grécia, sobretudo por parte dos Gregos Independentes e pelo partido de centro-direita da Nova Democracia, estando inclusive marcada uma manifestação em Atenas contra o acordo de Prespa.

O Syriza tem neste momento 145 dos 300 deputados do parlamento e precisa de pelo menos do voto de 151 para ratificar o acordo com a ARYM, que poderá ser entretanto viabilizado com os votos do partido centrista To Potami, que tem precisamente os seis deputados que podem aprovar o acordo, que já se mostrou disponível para viabilizar o entendimento entre os governos grego e macedónio.

Oito anos de austeridade

Aléxis Tsipras foi eleito primeiro-ministro da Grécia em 25 de janeiro de 2015, quando o Syriza venceu as eleições e formou um governo de coligação com os Gregos Independentes (ANEL), prometendo uma luta feroz contra a austeridade. Na altura os gregos enfrentavam uma grave crise económica, pelo que o seu governo foi obrigado a fazer um terceiro resgate internacional para salvar a Grécia da bancarrota. Foram oito anos de austeridade e um resgate que totalizou os 260 mil milhões de euros.

No entanto, aos poucos, Tsipras e o Syriza foram-se tornando mais moderados e ocupando o lugar deixado vago pelos socialistas do PASOK, que praticamente desapareceu do mapa político grego nas eleições de 2015. Pelo meio, o primeiro-ministro foi deixando pelo caminho alguns dos seus mais importantes membros do governo, entre os quais o ministro das finanças Yanis Varoufakis, que acabou por se demitir quase sete meses depois de tomar posse.

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'Motu proprio' anti-abusos

1. Muitas vezes me tenho referido aqui, e não só aqui, à tragédia da pedofilia na Igreja. Foram milhares de menores e adultos vulneráveis que foram abusados. Mesmo sabendo que o número de pedófilos é muito superior na família e noutras instituições, a gravidade da situação na Igreja é mais dramática. Por várias razões: as pessoas confiavam na Igreja quase sem condições, o que significa que houve uma traição a essa confiança, e o clero e os religiosos têm responsabilidades especiais. O mais execrável: abusou-se e, a seguir, ameaçou-se as crianças para que mantivessem silêncio, pois, de outro modo, cometiam pecado e até poderiam ir para o inferno. Isto é monstruoso, o cume da perversão. E houve bispos, superiores maiores, cardeais, que encobriram, pois preferiram salvaguardar a instituição Igreja, quando a sua obrigação é proteger as pessoas, mais ainda quando as vítimas são crianças. O Papa Francisco chamou a esta situação "abusos sexuais, de poder e de consciência". Também diz, com razão, que a base é o "clericalismo", julgar-se numa situação de superioridade sagrada e, por isso, intocável. Neste abismo, onde é que está a superioridade do exemplo, a única que é legítimo reclamar?