Sorrisos amarelos e um ambiente de cortar à faca na cimeira da NATO

Sorrisos amarelos e um ambiente de cortar à faca, só disfarçado por expressões diplomáticas já muito usadas, marcaram o primeiro dia da Cimeira da NATO

Donald Trump quer ver ainda mais dinheiro europeu investido em Defesa. Numa altura em que os membros da Aliança Atlântica se debatem para alcançar as metas negociadas em 2014, em Gales, o presidente dos EUA exige agora que seja inscrita nos orçamentos nacionais, uma parcela de 4% do PIB, em gastos militares. Mas, a exigência de Trump, feita antes do jantar, provocou alguns amargos de boca.

"Tivemos desacordos", reconheceu o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, frisando, porém, que "o mais importante é que tomámos decisões que empurram esta Aliança para diante e nos tornam mais fortes", entre as quais está por exemplo o objetivo de "melhorar a eficiência de resposta" da NATO em caso de conflito.

Não foi precisa grande discussão para que "todos" concordassem "que não há uma partilha de encargos justa na Aliança (...) e que precisamos mais dinheiro, nos orçamentos nacionais, para a defesa, mais equipamentos modernos e mais contribuições para as missões e operações", de acordo, ainda, com o secretário-geral da NATO.

Mas, os ataques sucessivos dirigidos ao Estado europeu que está em melhores condições para abrir os cordões à bolsa, a Alemanha, foram o elefante no meio da sala. O mais recente foi uma nova farpa, através da conta de Twitter do chefe do Estado norte-americano.

"De que serve a NATO se a Alemanha está a pagar milhões à Rússia em gás e energia?", questionou Donald Trump, para em seguida criticar, por "apenas 5 de 29 países terem alcançado o seu compromisso" de gastar 2% em Defesa.

Esta quarta-feira à tarde, Jens Stoltenberg confirmou que são, na realidade, oito os Estados que já alcançaram a meta de 2%, este ano e os restantes deram garantias de alcançar o objetivo "em 2024". Porém, Trump insiste que "são os EUA que pagam a proteção da Europa e perdem milhares de milhões em comércio".

Por isso, o presidente americano acha que os aliados "devem pagar 2% do PIB IMEDIATAMENTE, não até 2025", escreveu na conta do @POTUS, confundindo-se também na data, assinalada como meta. A data correta é 2024.

"Estamos a progredir. Durante um quarto de século muitos dos nossos países cortaram milhares de milhões nos orçamentos da defesa. Agora estão a acrescentar milhares de milhões", tinha salientado Stoltenberg, lembrando que ele próprio, enquanto antigo ministro norueguês das Finanças, foi um dos responsáveis por esses cortes, pois "na altura era o que fazia mais sentido".

Questionado sobre as mais recentes exigências da Casa Branca, o gabinete do primeiro-ministro português, António Costa, remeteu qualquer comentário para esta quinta-feira.

Azias e sorrisos amarelos

À entrada para a cimeira, sem se referir diretamente a Donald Trump, mas numa altura em que o presidente americano já tinha lançado os primeiros ataques, a chanceler alemã Angela Merkel sintetizou dizendo que as decisões da Alemanha são da responsabilidade de Berlim. Antes, o líder norte-americano criticara o apoio de Merkel ao gasoduto Nord Stream 2, destinado a ligar a Rússia à Alemanha.

"Nós conduzimos as nossas próprias políticas, podemos tomar decisões independentes", disse Merkel, sem esconder o desagrado com o tom dos ataques de Donald Trump. Mais tarde, este havia de descrever a relação entre ambos como algo "formidável", perante o esboço de um sorriso da chanceler.

Plano português

Costa, por seu lado, apresentou um plano em que "pela primeira vez" define uma arquitetura sobre a forma do país se vai aproximar da meta dos 2%, admitindo que possa alcançar 1,98% do PIB com a Defesa, dependendo do acesso a determinados fundos comunitários, como o Fundo Europeu de Defesa e o programa Horizonte Europa, que estão disponíveis no próximo Quadro Financeiro Plurianual da União Europeia, no período de 2021 a 2027.

O programa "designa bem aquilo que é a trajetória que temos definida e que podemos seguir e aquilo que é a trajetória que depende de acesso a fundos concorrenciais, no âmbito da União Europeia, para os quais podemos ter a ambição de obter financiamento", disse Costa, reconhecendo que "não podemos nenhum de nós, neste momento, garantir que vamos obter esse financiamento" e nesse caso, a meta alcançável por Portugal, em 2024, ficar-se-ia por 1,66% do PIB.

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