Caracas. Mercaditos de rua são mais baratos, mas o dinheiro é pouco

Com os preços dos bens a subir e a tensão política ao rubro, Caracas vive dias difíceis. Quem pode, abastece-se nas bancas de rua. O dia-a-dia faz-se de manifestações, de repressão e de carências, que tornam o futuro incerto

Os mercaditos de rua aos fins de semana são opção de compra de produtos mais baratos em Caracas, mesmo assim têm pouca gente, e os clientes que aparecem compram pouco, porque o dinheiro não chega.

No mercadito da Plaza la Campiña, na zona centro-leste de Caracas, estão instaladas várias bancas de legumes, frutas, queijos e ovos, peixe, carne, mas são poucos os clientes.

Na banca dos queijos, a vendedora queixa-se da crise que afeta o País e que se reflete nas suas vendas. "Menos, muito menos gente do que era habitual. E as pessoas que aparecem compram pouco. Antigamente compravam um quilo de queijo, agora, no máximo um quarto..."

Os preços, com a hiperinflação, são galopantes, "praticamente todos os dias sobem".

Um cliente especial, mais abastado, compra um 'cartão' de ovos (três dezenas) e dois quilos e meio de queijo branco. São 113 mil bolívares: são cerca de oito salários mínimos.

Na banca do peixe, o vendedor prefere não falar da crise, diz que está tudo na mesma, que continua a ter muitos clientes. É normal. Muitas pessoas preferem não tomar posições em espaços públicos com muita gente à volta que pode estar a ouvir.

Vende quilo e meio de corvina, em filetes, explica que dá para fazer uma refeição para seis pessoas, são 24 mil bolívares.

Na mercearia do senhor José, lusodescendente, filho de um português de Câmara de Lobos, na Madeira, o negócio não parece estar mal, porque há sempre gente a entrar e sair. Vende de tudo. Mas nem tudo existe. Atum, arroz, milho, não se vê. "Sim, há muitas coisas que não tenho à venda porque não existe no mercado, mas o que existe, vende-se aqui".

Quando questionado sobre a crise que se vive na Venezuela, José, olhando em volta para uma loja cheia de gente, diz em voz alta: "Crise? Qual crise? O Negócio está bem e o País também! Quem diz o contrário mente" e larga uma gargalhada...

José ironiza, que sempre viveu na Venezuela e que nunca passou fome, que a vida lhe corre bem. Na prateleira, ao nível da sua cara, estão garrafas de plástico de sangria a 15.900 bolívares, quase um salário mínimo...

Em relação aos preços dos produtos que vende, diz que é a loucura. "Tenho que mudá-los quase todos os dias".

Enquanto falamos entra um militar, José faz uma cara de quem foi surpreendido, oferece o limão solicitado ao jovem de farda, e faz um sorriso cúmplice.

Pacotes de "cassabitos" vão sendo vendidos, espécie de triângulos de 'pizza', mas em massa dura, feita de farinha de mandioca, que com algum recheio faz uma refeição e são baratos.

José despede-se com simpatia e com um comentário final, de preocupação: "Vamos ver como vai ser, vamos ver..."

A falta de produtos, que tem sido uma constante desde há vários anos na Venezuela, hoje pode não ser tão constante, mas as razões são graves: É que agora há muito menos dinheiro, há menos consumo.

Outra situação nova dos dias de hoje é que praticamente não se veem pagamentos em dinheiro. Não há moeda. Se só se podem levantar 2000 bolívares por dia nos bancos, como é que se paga em moeda local um quilo de filetes de corvina?

No mercadito da Plaza Campiña, montou-se um sistema simples. Um só terminal de multibanco permite que se façam os pagamentos de todas as compras de todas as bancas. Cada cliente leva um papelinho com os valores, chega à senhora com o terminal de pagamentos na mão e paga a soma de tudo. Mas há também quem consiga um esquema mais engenhoso. Tem a conta bancária de cada um dos vendedores e faz transferência direta de conta para conta, fugindo assim aos limites impostos pelos bancos de gastos diários. Uns podem permitir 400 mil bolívares por dia, outros menos ainda.

A crise política na Venezuela agravou-se em 23 de janeiro, quando o líder da Assembleia Nacional, Juan Guaidó, se autoproclamou Presidente da República interino e declarou que assumia os poderes executivos de Nicolás Maduro.

Guaidó, 35 anos, contou de imediato com o apoio dos Estados Unidos e prometeu formar um governo de transição e organizar eleições livres.

Nicolás Maduro, 56 anos, no poder desde 2013, recusou o desafio de Guaidó e denunciou a iniciativa do presidente do parlamento como uma tentativa de golpe de Estado liderada pelos Estados Unidos.

A maioria dos países da União Europeia, entre os quais Portugal, reconheceu Guaidó como Presidente interino encarregado de organizar eleições livres e transparentes.

Apoiantes de Maduro estão na rua

A repressão dos protestos antigovernamentais desde 23 de janeiro provocou já 40 mortos, de acordo com várias organizações não-governamentais. Mas as manifestações - contra e a favor de Maduro - não abrandam.

Na praça Bolívar, no centro de Caracas, por estes dias é um fervilhar de gente, demonstrações de grupos militares, funcionários públicos, todas as organizações apoiantes do regime por ali passam gritando palavras de ordem por Nicolás Maduro.

Desde quarta-feira que começou a campanha "Eu assino pela Paz" que visa atingir o objetivo de chegar aos 10 milhões de assinaturas que serão depois entregues no escritório de Donald Trump, na Casa Branca.

Em todas as praças Bolívar (o Libertador, que no século XIX foi uma peça chave nas guerras da independência da América espanhola perante o império espanhol) de todas as cidades do país estão neste momento montadas bancas de recolha de assinaturas para se cumprir o objetivo traçado pelo regime.

As filas dão a volta à praça e cerca de meia dúzia de cadernos vão sendo assinados, perante a verificação dos números do cartão de identificação.

As motivações de toda aquela multidão é sempre a mesma: impedir a entrada de invasores estrangeiros no país.

Em apenas dois dias de recolha de assinaturas "pela paz", contra a entrada de ajuda humanitária no País, foram cumpridas quase dois milhões de assinaturas, segundo Luis Reyes, o presidente do Partido Ora, Organização Renovadora Autêntica, apoiante de Maduro, que espera sejam atingidos os 10 milhões no domingo.

Na fila, quase a chegar ao momento de assinar, Aléxis Malpica emociona-se quando lhe questionamos a razão de estar ali à espera para assinar: "Para defender a soberania do país, nós decidimos ser soberanos. Autodeterminação dos povos. Não queremos ingerência dos EUA. Queremos paz, amor, nós os venezuelanos somos pessoas muito amorosas, muito sociáveis. Então porque nos querem prejudicar? Pergunto eu ao império".

Já depois de fazer a sua assinatura, Laura Mendonza explica que está ali porque quer que os 'yankees' saibam que "o povo venezuelano é organizado".

"Sabemos que somos soberanos e livres e nada do que nos dizem, nem o grupo de Lima, nem os 'esquálidos' (oposição) nem os apátridas que se foram embora do país, nem os que roubam as nossas riquezas... Olha, Trump, uma mensagem: Tu és o Presidente dos EUA. Pelo mal não vais conseguir, porque nós os venezuelanos despertámos".

A mensagem revolucionária de Laura aponta para a não ingerência de povos estrangeiros, centrando-se no detentor do lugar na Casa Branca: "Trump, deixa-te estar tranquilo, somos um povo soberano, elegemos o nosso Presidente. Eu votei por Nicolás Maduro e não por Guaidó. Que dormiu uma noite, acordou e disse 'eu sou Presidente da Venezuela'. Isso é uma maravilha, porque o interesse é só teu e dos ricos. Mas não conseguirão, porque este povo despertou. Nós vamos lutar".

Esta crise política que se vive no pais soma-se a uma grave crise económica e social que levou já 2,3 milhões de pessoas a fugirem da Venezuela desde 2015, segundo dados da ONU.

Na Venezuela, antiga colónia espanhola, residem cerca de 300.000 portugueses ou lusodescendentes.

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