Perguntas e Respostas sobre Jerusalém

Israel aluga, desde 1989, terreno para que os EUA façam a sua embaixada em Jerusalém. Congresso aprovou ideia, em 1995, mas nenhum presidente americano ousou avançar. Até agora.

Que reação suscitou o anúncio de Trump?
Em Israel o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu falou num marco histórico. O líder da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, alertou para consequências perigosas. O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, avisou que Jerusalém é a linha vermelha para os muçulmanos. No mesmo sentido falou o líder do grupo radical palestiniano Hamas Ismael Haniya. Entre os países árabes, a Arábia Saudita, aliado tradicional dos Estados Unidos, considerou a nova política de Donald Trump como uma provocação flagrante aos muçulmanos. O rei Abdullah da Jordânia disse que a decisão vai minar os esforços de recomeçar o processo de paz e o presidente do Egito, Abdul Fatah al-Sisi, pediu ao líder dos EUA que não complique a situação na região. O Papa Francisco, por seu lado, pediu que se respeita o atual statu quo da cidade. O secretário-geral da ONU, António Guterres, sublinhou que não existe Plano B e que o único plano é uma solução de dois Estados.

Porque é que a decisão é tão polémica?
O estatuto final de Jerusalém sempre foi a questão espinhosa nas negociações israelo-palestinianas. O plano da ONU, de 1947, estabelecia Jerusalém como uma cidade internacional à parte. A cidade acolhe lugares sagrados para o judaísmo, o islão, o cristianismo, especialmente a parte Oriental. Com a independência de Israel, após o final da guerra com os árabes, em 1949, Jerusalém foi dividida pela chamada linha verde. A parte Ocidental ficou no domínio israelita, a Oriental no jordano. Em 1967, Israel ocupou a parte Oriental, tendo prosseguido, desde então, uma política de colonatos judaicos. Os palestinianos protestam, pois querem que Jerusalém Oriental seja a capital de um futuro Estado palestiniano independente. Atualmente, vivem em Jerusalém 850 mil pessoas, de acordo com o think tank Jerusalem Institute. 37% da população é árabe (desses 96% são muçulmanos e 4% são cristãos) e 61% judia (200 mil judeus são ultraortodoxos).

Há outros países que têm embaixadas em Jerusalém?
Antes de 1980 vários tinham, incluindo a Holanda e a Costa Rica. Mas quando Israel decidiu estabelecer a cidade como sua capital unificada, a ONU declarou a anexação de Jerusalém Oriental como uma violação do direito internacional. Então os países mudaram as suas embaixadas. Costa Rica e El Salvador foram os únicos a sair. Em 2006. Neste momento estão todas as embaixadas em Telavive. Apesar de tudo, alguns países têm consulados em Jerusalém.

Como será feita a mudança americana?
A mudança é simples, pelo menos a nível logístico. O mesmo não se poderá dizer a nível político, pois há o risco de a decisão de Donald Trump incendiar (ainda mais) a região do Médio Oriente. Apesar de acabar com 70 anos de consenso internacional, o líder americano diz que se mantém comprometido com a solução de dois Estados vivendo lado a lado e em paz. Os EUA podem simplesmente passar a embaixada para o consulado que já têm em Jerusalém, mudando-lhe o nome apenas. Há, porém, um dado curioso: em 1989, Israel começou a alugar, por um dólar ao ano, durante 99 anos, um pedaço de terra aos EUA em Jerusalém, para que os americanos aí fizessem a sua embaixada. Tal nunca aconteceu, apesar de, em 1995, o Congresso dos EUA ter decidido que se devia avançar com a transferência da embaixada de Telavive para Jerusalém. Mas a verdade é que, até agora, invocando motivos de segurança nacional, nenhum presidente dos EUA, Bill Clinton, George W. Bush ou Barack Obama, quis avançar. Até agora.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Rosália Amorim

OE 2019 e "o último orçamento que acabei de apresentar"

"Menos défice, mais poupança, menos dívida", foi assim que Mário Centeno, ministro das Finanças, anunciou o Orçamento do Estado para 2019. Em jeito de slogan, destacou os temas que mais votos poderão dar ao governo nas eleições legislativas, que vão decorrer no próximo ano. Não é todos os anos que uma conferência de imprensa no Ministério das Finanças, por ocasião do orçamento da nação, começa logo pelos temas do emprego ou dos incentivos ao regresso dos emigrantes. São assuntos que mexem com as vidas das famílias e são temas em que o executivo tem cartas para deitar na mesa.

Premium

João Gobern

Há pessoas estranhas. E depois há David Lynch

Ganha-se balanço para o livro - Espaço para Sonhar, coassinado por David Lynch e Kristine McKenna, ed. Elsinore - em nome das melhores recordações, como Blue Velvet (Veludo Azul) ou Mulholland Drive, como essa singular série de TV, com princípio e sempre sem fim, que é Twin Peaks. Ou até em função de "objetos" estranhos e ainda à procura de descodificação definitiva, como Eraserhead ou Inland Empire, manifestos da peculiaridade do cineasta e criador biografado. Um dos primeiros elogios que ganha corpo é de que este longo percurso, dividido entre o relato clássico construído sobretudo a partir de entrevistas a terceiros próximos e envolvidos, por um lado, e as memórias do próprio David Lynch, por outro, nunca se torna pesado, fastidioso ou redundante - algo que merece ser sublinhado se pensarmos que se trata de um volume de 700 páginas, que acompanha o "visado" desde a infância até aos dias de hoje.