Paris vs. Roma. A crise de quem se ama em segredo e odeia em público

Com a chegada dos populistas italianos ao poder as relações com os franceses passaram a ser tumultuosas. Há aproveitamento político, mas motivos para críticas, dizem especialistas ao DN. A Líbia, a crise migratória e a falta de reciprocidade nos investimentos são os pontos de fricção.

"Esta nova provocação não é aceitável entre países vizinhos e parceiros da União Europeia. O senhor Di Maio, que assume responsabilidades governamentais, deve evitar que as suas repetidas ingerências afetem as nossas relações bilaterais, no interesse tanto da França como da Itália." Foi desta forma que o porta-voz do ministro dos Negócios Estrangeiros comentou o encontro do vice-primeiro-ministro italiano, e líder do Movimento 5 Estrelas, com ativistas do movimento coletes amarelos, em Paris.

"O vento da mudança atravessou os Alpes", regozijou-se Di Maio, no Twitter, após a reunião que teve em Paris. O Movimento 5 Estrelas, que se define como antissistema, tem afirmado que o partido italiano e o movimento francês partilham o "mesmo espírito". Uma sondagem realizada no mês passado pela Demos demonstra que 80% dos italianos estão a par do movimento francês e que 63% está de acordo com ele.

A crise entre Paris e Roma agravou-se com a chegada ao poder dos populistas e da extrema-direita em Itália e atingiu o seu mais alto ponto nos últimos dias. A embaixadora italiana na capital francesa foi convocada para dar explicações sobre as acusações do vice-primeiro-ministro Luigi Di Maio quanto à "exploração" de França aos países africanos. Medida igual e por duas vezes tinha sido tomada pelo governo transalpino em relação ao diplomata francês em Roma sobre a política de asilo e de migração de Paris.

E nesta quinta-feira o embaixador de França em Roma foi chamado para consultas. "A campanha para as eleições europeias não pode justificar uma falta de respeito por cada povo ou pela sua democracia. Todos estes atos criam uma situação grave que levanta questões sobre as intenções do governo italiano relativamente à sua relação com a França", declarou o MNE francês sobre esta "situação sem precedentes".

Da Vinci não sai

Ainda mais simbólico do que a tradicional chamada do embaixador ao Ministério dos Negócios Estrangeiros foi a anulação, de forma unilateral, de um convénio que previa o empréstimo de obras de Leonardo da Vinci ao Museu do Louvre e, em troca, de Rafael a um museu de Roma, no próximo ano. No outono, o Louvre vai inaugurar uma grande exposição para celebrar os cinco séculos da morte do génio italiano. "Leonardo é italiano, só morreu em França. O empréstimo destes quadros ao Louvre poria Itália à margem de um enorme evento cultural", disse a secretária de Estado da Cultura, Lucia Borgonzoni. "O interesse nacional não pode ficar para segundo plano, os franceses não podem ter tudo", concluiu a governante, militante da Liga, o partido xenófobo que lidera as sondagens em Itália.

Liderado por Matteo Salvini, a Liga abandonou a palavra Norte no nome e o objetivo de declarar a independência da nação fictícia da Padânia. Transformou-se num partido nacionalista e, a par do Movimento 5 Estrelas, aproveitou-se da onda migratória que desaguou no território italiano.

"Vivemos num tempo em que o número de pessoas que odeiam a Europa cresce como a lepra que pensávamos ser impossível reaparecer. Os amigos vizinhos dizem o pior de nós e habituámo-nos, fazem as piores provocações e ninguém se escandaliza." Estas palavras, proferidas com emoção, fizeram parte de um discurso de Emmanuel Macron poucos dias depois de o novo governo italiano ter tomado posse, em junho do ano passado.

"Salvini escolheu o presidente francês e a França em geral como um inimigo político. Salvini tem dito não à Europa de Emmanuel Macron e usa-o como argumento para a política interna", começa por dizer Jean-Pierre Darnis, professor da Universidade de Nice Sophia Antipolis e investigador no Istituto Affari Internazionali, em Roma.

"Emmanuel Macron fez a mesma coisa ao dizer que representava uma alternativa aos populistas como Marine Le Pen, Viktor Orbán ou Matteo Salvini. Por conseguinte, estamos num período em que os dois lados estão em clara politização interna das referências internacionais. Isto é bastante original", afirma este especialista em relações franco-italianas.

"É o clima pré-eleitoral para as europeias. O governo italiano precisa desesperadamente de um tubo de escape, de um inimigo externo para obter consenso e esconder as pesadas consequências da sua política económica. A comunidade empresarial está preocupada, mas confiante de que esta é uma época política...", comenta por seu turno Massimo Nava, antigo correspondente em Paris e atual editorialista do Corriere della Sera.

Darnis lembra que em Itália se está a meio de um ciclo eleitoral iniciado no ano passado com as legislativas. "A Liga continua em campanha para as eleições europeias. E o Movimento 5 Estrelas também, com um série de afirmações antifrancesas ou anti-Macron."

As mais recentes declarações do líder do partido antissistema e vice-primeiro-ministro, Luigi Di Maio, causaram furor. "A UE deve sancionar a França e todos os países como a França que empobrecem África e afastam estas pessoas [migrantes], porque o lugar dos africanos é em África, não é no fundo do Mediterrâneo". Di Maio acusou ainda Paris de manter uma relação de colonialismo com muitos países africanos à conta do franco CFA.

Moeda colonial

Os políticos italianos levantaram a questão da política africana de França e do franco CFA "sabendo que isso iria criar uma onda de choque no público", comenta a jornalista Fanny Pigeaud. "Não estão errados quando dizem que o franco CFA é uma moeda colonial e que impede o desenvolvimento dos 14 países africanos que o utilizam. O franco CFA foi criado durante a colonização para facilitar o escoamento de matérias-primas das colónias para a França, a metrópole. Desde então, as suas funções e mecanismos permaneceram os mesmos. O franco CFA continua sob o controlo do Tesouro francês. Nenhuma decisão de política monetária nesta "zona franca" pode ser tomada sem a aprovação do governo francês", prossegue esta especialista em questões africanas e coautora do livro L'Arme Invisible de la Françafrique, Une Histoire du Franc CFA.

E como a moeda francesa foi substituída pelo euro "a política monetária que se aplica à Alemanha aplica-se também ao Níger e à República Centro-Africana, dois países da zona franca que se encontram entre os mais pobres do mundo". Em resumo, "se as palavras das autoridades italianas são parcialmente demagógicas, pode dizer-se que chamaram a atenção da opinião pública internacional para o escândalo do franco CFA", diz a colaboradora do site Mediapart.

Já o italiano Massimo Nava vê nas acusações do seu governo um "discurso cheio de notícias falsas e comentários superficiais e imprecisos", dando como exemplo o facto de a maioria dos migrantes subsarianos não ser oriundo desses países. Por outro lado, a Itália "tem toda a razão em oferecer uma cooperação mais clara e mais amigável na Líbia, considerando a pesada responsabilidade da França". "Os italianos foram sujeitos a uma crise migratória e nunca compreenderam o papel dos franceses na Líbia e são muito, muito sensíveis a tudo o que se relacione com a Líbia", aponta Darnis.

Que consequências para esta crise política? "Em Itália há alguns sentimentos francófobos, de há alguns meses a esta parte há sinais um pouco preocupantes", diz o investigador francês. Massimo Nava está mais otimista: "Não creio que a propaganda e as polémicas políticas afetem as relações humanas, pessoais, comerciais e económicas entre os nossos dois países. Com um pouco de humor, eu diria que são como dois amantes que se amam em segredo e se odeiam em público."

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