Pais de Melania tornam-se cidadãos americanos com lei que Trump critica

Os pais da primeira-dama aproveitaram uma lei da imigração que facilita a cidadania a quem tenha familiares nos Estados Unidos - uma lei muito criticada pelo genro, Donald Trump.

Viktor e Amalija Knavs, pais de Melania Trump, tornaram-se nesta quinta-feira cidadãos norte-americanos. "Correu tudo bem e eles estão muito gratos a desfrutar este momento com a família", afirmou Michael Wildes, o advogado do casal, que tratou de todo o processo.

Os Knavs apresentaram-se num departamento federal em Nova Iorque para assinar todos os papéis necessários numa cerimónia conduzida pelo diretor distrital do USCIS (Serviços de Imigração e Cidadania), Thomas Cioppa, e que não demorou mais do que 20 minutos. Nessas cerimónias, os estrangeiros devem pousar as mãos sobre o coração e prometer "lealdade à bandeira norte-americana e à nação que ela representa".

Os sogros de Donald Trump são da Eslovénia mas viviam nos Estados Unidos há alguns anos com um green card (cartão de residência permanente), que obtiveram muito provavelmente (não há a certeza) por serem familiares de Melania, afirma o jornal The New York Times.

O processo dos pais de Melania Trump tem sido bastante comentado uma vez que eles beneficiaram de uma lei que facilita a imigração de alguém que já tem familiares (cônjuge, pais, filhos e irmãos) que sejam cidadãos americanos. Essa é uma lei que o presidente Trump quer restringir, alegando que se trata de uma via aberta para os terroristas entrarem na América.

Trump quer que a lei se aplique apenas aos cônjuges e filhos menores de 18 anos. Os especialistas acreditam que esta alteração iria provocar uma quebra na imigração na ordem dos 40% a 50%.

"A imigração em cadeia [chain migration] tem de acabar agora", escreveu o presidente no Twitter em novembro. "Algumas pessoas vêm e trazem a família toda com eles, e podem ser pessoas verdadeiramente más. Isso não é aceitável."

De acordo com a legislação, os estrangeiros que queiram pedir cidadania precisam de ter residência permanente no país durante pelo menos cinco anos, além de terem de provar que têm conhecimentos sobre a história e os costumes dos EUA. Normalmente, um pedido de cidadania na cidade de Nova Iorque demora entre 11 e 21 meses a ser processada. O advogado do casal não quis dar pormenores sobre o processo, mas garante que eles cumpriam o requisito dos cinco anos.

Viktor e Amalija Knavs, de 73 e 71 anos, respetivamente, viviam em Svenica, uma cidade da Eslovénica com cerca de 4500 pessoas. Ele era vendedor de carros e pertencia ao Partido Comunista. Ela trabalhava numa fábrica têxtil. Melania Trump nasceu em 1970. Na juventude iniciou uma carreira de modelo. Mudou-se para os EUA e em 2001 conseguiu um visto Einstein, como é geralmente chamado por ser atribuído a pessoas com "capacidades extraordinárias". Só depois de se casar com Donald Trump é que, em 2006, se tornou cidadã americana.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Adolfo Mesquita Nunes

As culpas de Sánchez no crescimento do Vox

resultado eleitoral do Vox, um partido por muitos classificado como de extrema-direita, foi amplamente noticiado em Portugal: de repente, na Andaluzia, a mais socialista das comunidades autónomas, apareceu meio milhão de fascistas. É normal o destaque dado aos resultados dessas eleições, até pelo que têm de inédito. Pela primeira vez a esquerda perdeu a maioria e os socialistas não formarão governo. Nem quando surgiu o escândalo ERE, envolvendo socialistas em corrupção, isso sucedera.

Premium

João Taborda da Gama

Nunca é só isso

Estou meses sem ir a Coimbra e numa semana fui duas vezes a Coimbra. Até parece uma anedota que havia, muito ordinária, que acabava numa carruagem de comboio com um senhor a dizer vamos todos para Coimbra, vamos todos para Coimbra, mas também não me lembro bem e não é o melhor sítio para a contar mesmo que me lembrasse. Dizia que fui duas vezes a Coimbra numa semana, e das duas encontrei pessoas conhecidas de que não estava à espera, no comboio, no café, na rua. Duas coisas que acontecem cada vez menos, as pessoas contarem anedotas umas às outras, muito menos ordinárias, que não se pode, e encontrarem-se por acaso, que não acontece. E não se encontram por acaso, porque mais dificilmente se desencontram. Para encontrar é preciso desencontrar, e quando o contacto é constante, quando a aparência de acompanhamento da vida do outro rodeia tudo o que fazemos, é difícil sentir o desencontro.

Premium

Ruy Castro

Uma multidão de corruptos injusta e pessoalmente perseguidos

Nenhum agente público no Brasil, nem mesmo o presidente da República, pode ganhar acima de 33 mil reais por mês. Isso equivale a pouco mais de oito mil euros - o que, para as responsabilidades de certas funções, pode ser considerado um salário modesto. Mas você ficaria surpreso ao ver como, no Brasil, esse valor ganha uma extraordinária elasticidade e consegue adquirir coisas que, em outros países, custariam muito mais dinheiro. Com ele, nossos políticos compram, por exemplo, redes inteiras de estações de rádio e televisão, prédios de 20 ou mais andares em regiões de proteção ambiental e edificação proibida e extensões de terra maiores do que a área de certos países europeus. É um fenómeno. Mais surpreendente ainda foi o que descobrimos esta semana. O governador do estado do Rio - cuja capital é a infeliz cidade do Rio de Janeiro -, Luiz Fernando Pezão, fez apenas 11 saques em suas contas bancárias de 2007 a 2014. Alguns desses saques eram no valor de três euros, o que lhe permitiria comprar no máximo um saco de pipocas, e nenhum acima de oitocentos euros. Por mais que Pezão pareça um sujeito humilde e desapegado, como se pode viver com tão pouco? Talvez tivesse dinheiro em espécie acumulado em algum lugar - quem sabe um cofre em sua casa ou mesmo o seu próprio colchão -, do qual fosse retirando apenas o suficiente para seus alfinetes. Não por acaso, a Polícia Federal prendeu-o na semana passada, acusando-o de ter recebido o equivalente a dez milhões de euros de propina, naquele período em que ele era vice-governador do então titular Sérgio Cabral - que, por sua vez, está condenado por enquanto a 197 anos de prisão por corrupção, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. Cabral é acusado também de ter cerca de 85 milhões de euros em depósitos fora do Brasil. Onde estarão os milhões de Pezão? E Michel Temer, dentro de 20 dias a contar de hoje, deixará de ser presidente do Brasil. No dia 1 de janeiro, uma terça-feira, passará a faixa presidencial a seu sucessor e perderá a imunidade que o impede de ser condenado por atividades ilícitas anteriores ao seu mandato. É quase certo que, já no dia seguinte, agentes da Polícia Federal baterão à sua porta em São Paulo, para levá-lo a explicar-se sobre as atividades ilícitas praticadas antes e durante o mandato. Explicações que ele terá dificuldade para dar, já que os investigadores parecem ter provas robustas de suas trampolinagens. E não se pense que tudo nessa turma se refere a milhões - uma inocente obra de reparos na casa de uma filha de Temer em São Paulo, "oferecida" por um empresário, indica um gesto de gratidão desse empresário por certa obra de vulto em que Temer, como presidente, o favoreceu. Nem toda a corrupção tem o dinheiro como fim. Ele pode ser também um meio - para se chegar ao mesmo fim. No caso do Brasil, foi o que prevaleceu nos últimos 15 anos: o desvio de dinheiro público para a manutenção do poder político, eternizando o desvio de dinheiro público. É uma equação diabólica, principalmente se maquiada de uma tintura ideológica - práticas de direita com um discurso de esquerda. E não se pense também que isso envolveu apenas os políticos. A Operação Lava-Jato, que está botando para fora os podres do país, condenou até agora 65 pessoas à prisão, das quais somente 13 políticos, num total de quase duzentas em fase de investigação ou já denunciadas. Entre estas, contam-se doleiros, operadores de câmbio, publicitários, lobistas, pecuaristas, irmãos, cunhados, ex-mulheres e "amigos" de políticos e carregadores de malas de dinheiro, além de funcionários, gerentes de serviço, executivos, tesoureiros, diretores, sócios-proprietários e presidentes de grandes empresas. Entre os presos ou investigados, estão também um ex-presidente da Câmara dos Deputados, um ex-presidente do Senado, vários ex-ministros de Estado (dos quais três ex-ministros da Fazenda), três ex-tesoureiros do Partido dos Trabalhadores, meia dúzia de altos funcionários da Petrobras, o ex-presidente do banco de desenvolvimento nacional, seis ex-governadores estaduais, os presidentes das quatro maiores empresas de construção civil do Brasil e quatro ex-presidentes da República. Um deles, Luiz Inácio Lula da Silva. Portanto, quando lhe falarem que o querido Lula está sofrendo uma perseguição pessoal e injusta, pense nos citados acima, tão injusta e pessoalmente perseguidos quanto ele.

Premium

Marisa Matias

O Christian, a Rosa e a rua

Quero falar-vos do Christian Georgescu, uma daquelas pessoas que a vida nos dá o privilégio de conhecer. Falo-vos com nome e apelido porque a história dele é pública. Nasceu em Bucareste, na Roménia, tem 40 anos e encontrou casa no Porto. Trabalhou desde cedo até que um dia lhe faltou comida na mesa. A crise no início dos anos 2000 e a necessidade de dar de comer à filha fizeram que decidisse entrar num mundo paralelo. A juntar a isso, começou a consumir drogas e foi preso. Quando saiu percebeu que tinha de ir para longe para mudar e veio para o Porto.