"Olá Shenzhen", berço da Huawei e montra da China do futuro

Empresa chinesa de <em>smartphones</em> ambiciona liderança mundial, apesar das dificuldades nos Estados Unidos. Terça-feira apresenta em Paris o seu novo<em> flagship</em>
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Há cartazes a dizer "Hello! This Is Shenzhen" e também na versão chinesa a saudar os visitantes com "Nihao Shenzhen". E à medida que o minibus com o grupo de jornalistas portugueses, dito o olá, deixa para trás o posto fronteiriço com Hong Kong (também China, mas RAE - Região Administrativa Especial por ter sido colónia britânica até 1997) percebe-se porque esta antiga aldeia de pescadores se tornou uma espécie de montra da China do futuro. Em quatro décadas passou de uns milhares de habitantes para uma população superior à de Portugal, 12 milhões de pessoas, incluindo bom número de estrangeiros, muitos a trabalhar nas empresas de alta tecnologia que aqui têm a sua sede, casos da Huawei, da Tencent, da ZTE ou da Dajiang. Dois políticos já falecidos estão intimamente ligados a este sucesso: Deng Xiaoping, o modernizador da China, e Xi Zhongxun, governador da província de Guangdong e pai de Xi Jinping, atual secretário-geral do Partido Comunista e presidente da China.

As avenidas de Shenzhen são largas, os espaços verdes bem cuidados (o clima tropical ajuda à exuberância de flores e de cores), os prédios altíssimos e alguns com linhas arrojadas como o KK100, e há centros de congressos, museus, salas de ópera e até uma livraria que reivindica ser a maior do mundo. De repente, à esquerda, vislumbro uma réplica da Torre Eiffel, também as Pirâmides com a Esfinge, ainda o Coliseu de Roma, templos gregos e pagodes budistas. "É o Window of the World", parque de diversões com pretensão de "janela para o mundo", explicar-me-á, pouco depois, uma funcionária italiana do hotel, ela própria prova de que o mundo também está de olho em Shenzhen, uma cidade de oportunidades.

Tony Verb, empresário húngaro há uma década em Shenzhen, relembra que o sucesso da cidade tem muito que ver com a proximidade com Hong Kong e Macau, outra RAE (a célebre capital do jogo foi governada por Portugal até 1999).

"Shenzhen faz parte da Greater Bay, que integra Hong Kong, Macau e mais nove cidades. São 66 milhões de pessoas, e o PIB é superior ao da Coreia do Sul. O nível de vida é equivalente ao da Europa Ocidental. E ainda por cima, apesar de a China crescer agora a 6% ou 7% ao ano, esta região deverá continuar a crescer a 10%", destaca o húngaro. "Só cá vindo se percebe o que está a acontecer na China. A acelerada transformação no sentido tecnológico. Shenzhen já foi a fábrica do mundo. Por exemplo, saíam daqui 40% das meias fabricadas no planeta. Mas hoje a aposta é toda na alta tecnologia. Com empresas como a Huawei e a Tencent", acrescenta. Esta última é um portal de serviços que conta em especial com os 800 milhões de chineses já com internet (mesmo assim, pouco mais de metade dos 1400 milhões de habitantes).

A Huawei, que organiza a viagem dos jornalistas de vários países, tem um campus em Shenzhen, mas as fábricas são agora noutras partes da China. "Há 20 anos não havia aqui nada. A fábrica chegou a ser aqui, mas a empresa nasceu na cidade, no que agora é a baixa", diz Shao Yang, chief strategy officer, enquanto caminha pelo moderno campus, cuja mais-valia é a investigação tecnológica, com a Huawei a dedicar mais de 10% das receitas anuais à I&D, um setor que abarca quase metade dos 180 mil trabalhadores. O "aqui", diga-se, é um terreno de dois quilómetros quadrados, onde há centros de pesquisa, restaurantes vários, áreas de lazer, lagos com cisnes e até um dormitório com oito mil quartos destinados a funcionários que venham de fora. A trabalhar no campus estão 60 mil pessoas e diz-me um jornalista britânico que já visitou a Google na Califórnia que "o estilo tecno-relax é o mesmo".

A própria história da Huawei, hoje conhecida por ser um dos gigantes dos smartphones (terceira a nível mundial, após a sul-coreana Samsung e a americana Apple), ilustra bem o que a China quis fazer em Shenzhen, quando em 1980 lançou um ousado compromisso com a ideologia comunista, criando às portas de Hong Kong a sua primeira Zona Económica Especial (ZEE). A empresa foi fundada em 1987 por Ren Zhengfei, antigo militar, com um financiamento equivalente a 3500 dólares num modelo próximo das startup americanas e até hoje orgulha-se de ser privada. Os smartphones até são um produto recente. Antes, a empresa dedicava--se só a construir e gerir redes de telecomunicações e foi nesse setor que entrou em Portugal há uns anos, oferecendo os seus serviços às operadoras. Depois, começou a fabricar telemóveis vendidos com a marca das operadoras, até que por fim se lançou à conquista do mercado dos smartphones e com o ambicioso objetivo de chegar a número um mundial, embora sem fixar uma data para tal, como afirmou Clement Wong, responsável pelo marketing global da empresa.

Terceira a nível mundial, mas líder no mercado chinês e também já no espanhol e próxima de assumir a liderança no italiano, "em Portugal a Huawei é a segunda marca com mais presença, com uma quota de mercado acima dos 20% e é a marca que mais cresceu no ano passado em telecomunicações. A ambição é chegar a líder nos próximos dois anos", explica Tiago Flores, diretor de vendas. Com passagem por outras multinacionais asiáticas, como a japonesa Sony e a Samsung, Flores destaca como pontos fortes da marca chinesa para a qual agora trabalha "a inteligência artificial presente nos nossos smartphones", a qual potencia desde a qualidade das fotografias até à performance da bateria. E, sem abrir o jogo, diz que o novo flagship Huawei P20, que será apresentado em Paris, vai ainda além do Huawei Mate 10pro, smartphone que em Portugal se vende a 879 euros (a marca comercializa produtos desde 129 euros).

Pela primeira vez de visita a Shenzhen, o português da Huawei confessa-se surpreendido "com uma cidade que está neste momento a captar os maiores talentos a nível mundial das tecnologias de ponta, como a inteligência artificial, a robótica ou o 5G".

Entro no metro de Shenzhen, com as suas oito linhas, e vejo uma série de anúncios ao iPhone, sinal de que o mercado chinês é competitivo e que se a Huawei lidera nele não deixa por isso de ter concorrentes nacionais como a Xiaomi e a ZTE ou a americana Apple. Embarco num comboio da linha verde e quase que posso garantir que toda a gente na minha carruagem está a olhar para um smartphone. Saio na estação Window of the World e converso com um jovem que bebe um batido de fruta num café chamado Hun. Identifica-se com nome inglês, Kevin, influência da proximidade de Hong Kong, e mostra-me um iPhone. Mas diz não ter nada contra as marcas chinesas. "A minha namorada tem um Huawei, a maior parte dos meus amigos também e a rir-se diz que a mãe usa um Samsung, marca que já foi a número um e agora terá uns 2% de quota na China. A explicação para a quebra sul-coreana pode ser a relação imbatível preço/qualidade dos smartphones chineses, mas também um certo regresso do sentimento nacionalista. Noutras áreas, para protestar contra a Coreia do Sul aceitar a instalação de um sistema americano antimísseis, as autoridades chinesas colocaram obstáculos a negócios de grupos como a Lotte.

Apesar de insistir sempre que é uma empresa privada, a própria Huawei não deixa de sofrer o impacto das divergências entre governos. Um exemplo conhecido é as suspeitas que a administração americana insiste em ter ao nível da segurança dos dados dos utilizadores, o que trava a sua expansão no mercado dos Estados Unidos. No campus, praticamente todos os responsáveis da Huawei foram bombardeados com perguntas sobre o futuro da empresa na América e as respostas acabaram por ser evasivas. Kevin Ho, que lidera o setor dos smartphones, preferiu enfatizar que "a notoriedade da marca a nível mundial passou de 0% a 85% em apenas sete anos" e que "o objetivo é mesmo ser o número um mundial". Indiretamente acabou por referir-se às objeções americanas ao garantir que "na Europa a questão da privacidade e da segurança está completamente de acordo com as leis locais".

Um jornalista sino-americano da Associated Press explicou-me que o nome Huawei pode significar várias coisas. O carácter para Hua significa flor, e daí o logótipo, mas também pode significar chinês. E o de Wei é realização. Assim, "Huawei pode ser traduzido como realização chinesa", diz-me o homem da AP. É um nome sugestivo.

Regressemos a 1980, quando a ZEE de Shenzhen foi criada por Deng Xiaoping, o velho líder guerrilheiro que chegou a cair em desgraça nos tempos de Mao Tsé-tung. Na época, quatro anos depois da morte do fundador da República Popular da China, a hierarquia das grandes potências económicas era bem diferente: os Estados Unidos lideravam e a China era mera 11.ª com um PIB 15 vezes inferior. Hoje, os Estados Unidos continuam número um, mas a China está em segundo lugar e deverá ser primeira em meados da próxima década. Ora, isto resulta das reformas económicas de Deng, autor da célebre máxima "não importa se o gato é preto ou branco desde que cace ratos", que com crescimentos de 10% ao ano permitiram a duplicação do PIB em sete anos, a quadruplicação em 14 e por aí fora. E não é por acaso que, caminhando depois de uma visita ao KK100 (o 15.º arranha-céus mais alto do mundo), passo junto a um cartaz com a imagem de um Deng sorridente e a apelar à fidelidade à linha do partido nos próximos 100 anos. O que é menos conhecido é que outro veterano comunista, Xi Zhongxun, também vítima de purgas, foi recuperado por Deng e enviado para a província de Guangdong, onde como governador se tornou o grande impulsionador de Shenzhen. A China do futuro, que o seu filho agora presidente ambiciona, começou pois aqui na foz do rio das Pérolas há quase 40 anos. E não por acaso, em 2012, já depois de eleito secretário-geral, Xi visitou Shenzhen, tal como Deng o fez em 1992, na famosa "viagem ao Sul".

Mas a rivalidade política entre a China e os Estados Unidos, que ameaça ganhar contornos de guerra comercial depois das recentes tarifas impostas por Donald Trump, não contraria que a relação económica seja estreitíssima, inclusive aqui no Silicon Valley chinês. Não só a Apple depende da Foxconn, cujo quartel-geral é vizinho do da Huawei em Shenzhen, como por exemplo a Huawei conta com um centro de design na Califórnia. E apesar de todas as desconfianças mútuas entre Pequim e Washington, quando se trata de fazer parcerias de negócio o facto de a Google não funcionar na China não impede a Huawei de ter a gigante americana como aliada tecnológica, tal como tem as chinesas Baidu ou a iFlytek.

A caminho do aeroporto, para um voo até Pequim, onde estão os laboratórios da Huawei, ultrapassamos um autocarro público, elétrico como toda a frota. Na véspera à noite, num táxi de marca BYD, também chinesa e de Shenzhen mas com 25% do capital controlado pelo americano Warren Buffet, também pude perguntar ao motorista se era um carro elétrico. Como, se não falo chinês e o taxista não sabia sequer inglês? Usando um tradutor de voz instalado num smartphone.

O DN viajou a convite da Huawei

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