O ditador que conseguiu sobreviver a cinco anos de guerra

No poder desde 2000, o líder do regime de Damasco resiste contra tudo e contra todos. Com o apoio da Rússia e do Irão.

Bashar al-Assad está hoje mais forte do que alguma vez esteve desde o início da contestação ao regime de Damasco, a 15 de março de 2011. Há pouco mais de um ano, o colapso parecia uma questão de tempo. A partir de setembro de 2015, a situação inverteu-se com a campanha da aviação russa contra alvos da oposição.

Mas os sucessos no terreno não fazem esquecer que o conflito, apesar da frágil trégua em vigor desde 27 de fevereiro, está a entrar no sexto ano, causou mais de 260 mil mortos (outros números referem 470 mil), 4,5 milhões de refugiados no exterior e cerca de 7,6 milhões de deslocados internos. Numa população de 22 milhões no início de 2011, mais de 50% foram afetados pelo conflito e, segundo algumas estimativas, o regime de Damasco não tem a viver nos territórios sob seu controlo pouco mais de oito milhões de pessoas. E a Síria mudou: de uma economia relativamente desenvolvida, moderna e de bom nível de educação, de uma sociedade laica e pluralista no plano religioso, passou-se para uma economia dependente do apoio iraniano para sobreviver, de escolas fechadas e infraestruturas destruídas, e para uma sociedade dividida por linhas religiosas intolerantes e interesses geoestratégicos regionais antagónicos. A Síria, como poder regional, não existe neste momento.

Assad tinha 34 anos quando chegou ao poder em 2000, forçando uma mudança constitucional para ser candidato, pois a idade mínima para o cargo de presidente era 40 anos. Para trás ficava uma licenciatura em Oftalmologia, projetos de uma vida discreta em Londres, onde chegara a fixar residência nos anos 90, tendo a seu lado a mulher, Asma Akhras, nascida e criada na capital britânica, e antiga analista financeira na J.P. Morgan.

A sucessão

A morte do irmão, Bassel, num acidente de viação em janeiro de 1994, mudou tudo. Bassel era o escolhido por Hafez al-Assad para lhe suceder e Bashar foi a solução de recurso, mas o tempo demonstrou que soube aprender depressa.

Assim como Asma, que trocou as roupas ocidentais por longos vestidos tradicionais, de cor austera, e surge agora com frequência em cerimónias fúnebres, abraçando familiares de "mártires". Mas como um antigo conselheiro de Assad, Ayman Abdel Nour, dizia em 2013 ao Daily Mail, a mulher do presidente continuaria "obcecada em parecer elegante e bela" e insistiria em "viver rodeada do maior dos luxos". Quem tenha acompanhado Asma nas redes sociais percebe a diferença. A mulher de Assad pode viver no maior dos luxos e permanecer a cosmopolita que era, mas nada disso transparece agora.

Dizem antigos colaboradores de Assad, que romperam com o regime quando se iniciou a contestação, que aquele se tornou uma figura hermética, hábil e calculista, como o pai. E no entanto quando chegou ao poder as medidas iniciais de Assad quase antecipavam algumas das reivindicações da Primavera Árabe, movimento que surgiria uma década mais tarde. Realizou algumas reformas na área económica, abrindo setores como a banca à atividade privada, libertou centenas de presos políticos, permitiu alguma liberdade de expressão, autorizando a criação de um jornal não estatal e prometeu criar uma "experiência democrática própria" para a Síria. Na época chegou a falar-se numa "primavera de Damasco". Esta acabou por não se materializar e quando se iniciaram os protestos, Assad não hesitou em rotular os manifestantes como "terroristas".

Com a escalada da violência tornaram-se raras as aparições públicas de Assad, embora continue a ser mostrado nos media oficiais em cerimónias religiosas e com pessoas nas ruas. Uma característica que permanece, apesar de hoje a situação lhe ser propícia: a Turquia ataca os curdos e, desde que abateu um caça russo a 24 de novembro de 2015 e perante as ameaças de Moscovo, deixou de atuar com meios aéreos em território sírio; a coligação internacional ataca alvos do Estado Islâmico e a aviação russa, afirmando o Kremlin visar grupos islamitas, bombardeia toda a oposição. No terreno, as suas forças estão na ofensiva com o apoio dos Guardas da Revolução iranianos e o Hezbollah libanês.

Eleições em abril

No plano político, Assad permitiu--se convocar legislativas para 13 de abril, ainda que estas só venham a realizar-se sob controlo do regime de Damasco, e mantém que só deixará o poder se for essa a "vontade dos sírios". Da última vez que houve eleições presidenciais, em 2014, em que votou menos de um terço do eleitorado e pela primeira vez na história do regime se apresentaram vários candidatos, Assad obteve mais de 80% dos votos.

Perante a determinada intervenção russa, só uma alteração radical dos equilíbrios militares pode mudar a perceção de Damasco, que não deixará de se refletir na posição do regime nas negociações de Genebra, sob mediação da ONU, cujo início está marcado para hoje.

Uma estimativa do Institute for the Study of War, divulgada no final de fevereiro, sustenta que só um mais direto envolvimento dos EUA, Turquia e Arábia Saudita poderá infletir a presente situação. Mas, como se viu pelo frio acolhimento concedido à sugestão de Ancara e Riade para uma intervenção militar terrestre na Síria, também por aqui Assad pode estar tranquilo.

Longe vão os dias em que a oposição realizava atentados contra altas figuras do regime, como o de 18 de julho de 2012 quando morreram o ministro da Defesa, o dirigente dos serviços de informações militares, um general que era cunhado de Assad e outras chefias, numa reunião em Damasco, ou desencadeava ofensivas para controlar importantes cidades, como Aleppo, Homs e Maarat al-Numan.

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