Merkel garante que vai ficar no poder até 2021

Chanceler alemã Angela Merkel deu uma entrevista à jornalista da CNN Christiane Ammanpour. Nela alerta para a existência de "forças obscuras" na Europa, admite ambiente de ameaça para judeus na Alemanha, diferenças de opinião com Donald Trump e que é preciso encontrar melhores soluções para as alterações climáticas

"A senhora tem sido um saco de pancada para Donald Trump. Considera-o um amigo?" A pergunta foi uma das muitas colocadas pela jornalista Christiane Amanpour da CNN numa entrevista à chanceler alemã Angela Merkel. "No final encontramos sempre pontos em comum. Claro que é sempre um desafio debater, mas eu estou disponível para aceitar esse desafio. O presidente [dos EUA] tem as suas opiniões e eu tenho as minhas. Frequentemente encontramos pontos em comum. Caso contrário, temos que continuar a negociar".

A entrevista, transmitida na segunda-feira à noite, foi realizada no rescaldo dos resultados das eleições europeias, que na Alemanha foram ganhas pela CDU da chanceler e os seus aliados bávaros da CSU mas com os piores resultados de sempre. Nela, Merkel, de 64 anos, admitiu que há "forças obscuras" em ascensão na Europa. "Na Alemanha, é claro que isso sempre foi visto num certo contexto, que é o contexto do nosso passado, o que significa que temos que ser muito mais vigilantes do que os outros. Temos que dizer aos nossos jovens o que a história nos ensinou a nós e aos outros".

A chanceler, atualmente no seu terceiro mandato à frente do governo alemão, admitiu que os judeus voltam a estar sob ameaça na Alemanha, numa altura em que o comissário para o antissemitismo da Alemanha, Felix Klein, aconselhou os judeus a não usarem o quipá em público. "Não há um único dia em que uma sinagoga, um centro judaico para crianças, uma escola de crianças judias não tenha que estar guardada por agentes da polícia alemã", disse a chanceler, a Amanpour.

Questionada sobre os resultados das eleições na Alemanha, em que os Verdes foram o segundo partido mais votado, à frente do SPD, parceiro de governo da CDU/CSU na Grande Coligação em vigor, Merkel admitiu que é preciso fazer mais no que toca ao clima. "É um desafio para nós encontrar respostas melhores e soluções para estas questões. Acima de tudo, temos que levar a bom porto aquilo que definimos como os objetivos para nós próprios".

Merkel, que no tempo de Helmut Kohl foi ministra do Meio Ambiente, Proteção da Natureza e Segurança Nuclear (entre 1994 e 1998), é também a chanceler que ficou com o chamado escândalo do Dieselgate no currículo. E, por isso, nas últimas legislativas alemãs, em 2017, os Verdes recusaram qualquer tentativa de aproximação para integrar o governo.

Além de ver o seu parceiro de coligação cair em desgraça (o SPD também perdeu as eleições regionais no estado de Bremen pela primeira vez em 73 anos, Merkel vê também a sua sucessora na liderança da CDU, Annnegret Kramp-Karrenbauer (AKK) cair em desgraça.

A possível sucessora de Merkel está no centro de uma polémica por ter sugerido restrições à liberdade de expressão depois de youtubers terem apelado ao voto contra os partidos da Grande Coligação alemã nas eleições europeias. AKK qualificou de "manipulação eleitoral" o apelo de 70 youtubers lançado nas vésperas das eleições europeias de domingo em nome da proteção do ambiente.

"Com reagiria o país se 70 jornais apelassem juntos, a dois dias de uma eleição, ao voto contra a CDU e o SPD? Seria manipulação eleitoral", disse Karrenbauer, designada na imprensa como AKK, na segunda-feira, após uma reunião do partido. A dirigente defendeu na altura a criação de regras para aplicar "ao mundo digital".

As declarações suscitaram polémica, nomeadamente no Twitter, onde nas últimas horas lideram palavras-chave como "censura" e "AKKdemissão".

Karrenbauer foi igualmente criticada por adversários políticos, como o líder do Partido Liberal (FDP), Christian Lindner, que afirmou que "custa a acreditar" nas declarações de Karrenbauer e defendeu a "necessidade de mais debates abertos".

Segundo avança a agência Bloomberg, a direção da CDU vai reunir-se nos próximos dias 2 e 3 de junho, para discutir a perda de votos nas europeias. E, no entretanto, Merkel concluiu que AKK, cuja taxa de aprovação era no início deste mês de apenas 36%, não está à altura do desafio que é suceder-lhe na liderança do próximo governo alemão.

Questiona por Amanpour sobre se pensa deixar o poder antes de 2021, Merkel respondeu que não e que pretende levar o seu mandato até ao fim. "Acha que há uma fadiga de Merkel?", perguntou a jornalista da CNN. "Eu disse às pessoas que iria sair no final deste mandato. Mas prometi que iria ficar até ao fim desta legislatura. Não estaria a dar esta entrevista se não tivesse nada para dizer de substancial sobre política. Gosto de conhecer novas pessoas e isso para mim é uma fonte de força para desempenhar este cargo".

Esta terça-feira, em Bruxelas, em declarações aos jornalistas, Merkel voltou a apoiar o processo do Spitzenkandidaten para escolher o próximo presidente da Comissão Europeia e reiterou o apoio ao candidato do PPE, o alemão bávaro Manfred Weber. O PPE venceu as europeias, mas sem maioria, num Parlamento que se adivinha muito fragmentado e no qual eurocéticos, populistas, nacionalistas e extremistas de direita querem ter uma palavra a dizer.

"Estou feliz porque, como chanceler de uma Grande Coligação da Alemanha, posso dizer que todos os parceiros dessa coligação apoiam a escolha entre os 'candidatos principais'", declarou, falando aos jornalistas à entrada para o Conselho Europeu informal, no qual os chefes do Estado e do governo dos 28 vão iniciar as discussões sobre as nomeações para os cargos de topo na União Europeia.

Este é, inclusive, o modelo defendido pela maioria dos grupos políticos representados no Parlamento Europeu, fizeram saber estas bancadas após uma reunião realizada hoje em Bruxelas. "Também estou satisfeita [...] por a maioria dos grupos apoiar este modelo" de Spitzenkandidaten, acrescentou Merkel.

Esse não será, porém, o entendimento do presidente francês, Emmanuel Macron, que não quer Weber na Comissão, preferindo antes nomes como o do francês Michel Barnier (que não é um dos seis candidatos apresentados pelos grupos políticos da eurocâmara para o lugar do luxemburguês Jean-Claude Juncker).

Macron, juntamente com os liberais do ALDE, socialistas como António Costa e Pedro Sánchez e, eventualmente, com os Verdes, quer criar uma grande aliança progressista no Parlamento Europeu para travar os nacionalistas anti-UE e ao mesmo tempo dividir os cargos que vão ficar vagos este ano na UE. Além do de presidente da Comissão, também o de presidente do Conselho Europeu, do Parlamento Europeu, do Banco Central Europeu e o de Alto Representante da UE para a Política Externa.

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