Marcha das Mulheres contra Trump: "Não nos vamos calar"

Protesto ocorre pelo terceiro ano consecutivo mas, desta vez, esteve envolto em polémica por causa das acusações de antissemitismo contra algumas organizadoras.

Em 2017, um dia depois da tomada de posse de Donald Trump, estima-se que um milhão de pessoas tenha saído às ruas só em Washington para protestar contra os comentários considerados sexistas do presidente na primeira Marcha das Mulheres. Foi o maior protesto na história dos EUA, tendo reunido mais de cinco milhões de pessoas no país, assim como outras tantas em redor do mundo.

No ano passado, 500 mil mulheres voltaram a manifestar-se, incentivadas pelo movimento do #MeToo e Time's Up contra o assédio e a violência sexual. Este ano, após a confirmação do juiz Brett Kavanaugh para o Supremo Tribunal, apesar das denúncias de assédio de que foi alvo, a Marcha das Mulheres volta às ruas, na véspera do aniversário da tomada de posse de Trump e dos "dois anos de resistência à presidência" do milionário republicano.

Este ano, o protesto ficou contudo marcado pela polémica, após acusações de antissemitismo contra várias responsáveis pela organização da marcha de Washington. Tamika Mallory, uma das co-presidentes, participou num comício do líder do movimento "Nação do Islão" Louis Farrakhan, que é conhecido pelos seus comentário antissemitas. Isso levou a uma cisão no movimento, com o aparecimento de um segundo, intitulado March On (continuem a marchar). mas algumas cidades cancelaram as manifestações.

"Desde o ano passado, eu e as minhas irmãs da Marcha das Mulheres enfrentámos acusações que magoaram a minha alma", disse uma das líderes, Carmen Perez-Jorna, na marcha de hoje em Washington. "As acusações de antissemitismo e negeligência da nossa família LGBT. E quero ser inequívoca em afirmar que eu e as minhas irmãs da Marcha das Mulheres condenamos o antissemitismo, a homofobia e a transfobia em todas as formas", acrescentou.

Tamika Mallory acrescentou: "A todas as minhas irmãs, eu vejo-vos. A todas as minha irmãs muçulmanas, eu vejo-vos. A todas as minhas irmãs latinas, eu vejo-vos. A todas as minhas irmãs asiáticas, eu vejo-vos. A todas as minhas irmãs com deficiência, eu vejo-vos. A todas as minhas irmãs judias: não deixem ninguém dizer-vos quem eu sou. Vejo-vos a todas."

As líderes de ambos os grupos disseram que vão usar a marcha deste ano para pressionar para uma política de aumento do salário mínimo, acesso a direitos reprodutivos e à saúde, assim como ao direito de voto, entre outros temas. O objetivo é mobilizar as mulheres a votar antes das presidenciais de 2020, quando Trump deverá procurar a reeleição. Algumas mulheres empunhavam cartazes a pedir o impeachment de Trump

Na marcha de Nova Iorque, uma das intervenientes foi Alexandria Ocasio-Cortez, uma das 131 mulheres eleitas nas intercalares de novembro para o Congresso dos EUA (quase todas democratas). "No ano passado, levámos o poder até às urnas e este ano precisamos de garantir que traduzimos esse poder em políticas", disse.

Ocasio-Cortez discursou na marcha de Nova Iorque, dizendo que traduzir o poder das mulheres em políticas significa "não deixar que ninguém lhes retire os seus direitos e até expandi-los" - falou na igualdade de salários para homens e mulheres e licenças de maternidade e paternidade pagas.

A congressista disse ainda que as mulheres não se vão calar. "Não nos vamos calar pelos direitos das mulheres negras. Não nos vamos calar pelos direitos das transexuais. Não nos vamos calar pelos direitos das mulheres pobres ou trabalhadoras. E de todas as mulheres dos EUA e do mundo", afirmou.

As marchas decorreram não apenas nos EUA mas também espalhadas por 30 cidades do mundo, como Londres ou Berlim, onde as mulheres se reuniram para condenar a violência contra as mulheres, o racismo ou o impacto das políticas de austeridade.

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