Mais de 300 editoriais contra Trump. "Jornalismo não é inimigo de ninguém"

A adesão dos órgãos de comunicação social foi superior ao previsto. Os perto de 350 editoriais de esta quinta-feira nos Estados Unidos refletem o perigo para a democracia que os ataques de Trump à imprensa livre representam

"Jornalistas não são o inimigo". É este o título do editorial do Boston Globe, um dos mais 300 que esta quinta-feira estão nas páginas de jornais e órgãos da imprensa norte-americana em protesto contra a guerra que o presidente Donald Trump tem feito à comunicação social, recorrendo sempre à acusação de "fake news" quando é visado em notícias. O Globe foi o promotor desta iniciativa que uniu as duas centenas de órgãos da imprensa e que acabou por ter uma adesão superior ao previsto, com perto de 350 órgãos, entre os nacionais e os regionais, a participar na campanha, sob a hashtag #EnemyofNone (inimigos de ninguém).

No seu editorial, o jornal de Boston aponta que "um pilar central da política do presidente Trump é um assalto contínuo à imprensa livre. Os jornalistas não são classificados como compatriotas americanos, mas sim como 'o inimigo do povo'. Este ataque implacável à imprensa livre tem consequências perigosas. Pedimos a conselhos editoriais de todo o país - liberais e conservadores, grandes e pequenos - que se juntassem a nós hoje para abordar essa ameaça fundamental com as suas próprias palavras".

Definir os jornalistas como inimigos do povo "é uma das muitas mentiras usadas por este presidente, da mesma forma que um charlatão dos velhos tempos jogou pó ou água 'mágica' numa multidão de crentes", escreve o Globe, que recorre a estudos de opinião para descrever o perigo. A percentagem de americanos que defende o direito presidencial a encerrar órgãos de comunicação social está a crescer, sobretudo entre os eleitores republicanos, e tal é uma ameaça à democracia, reforça o diário.

O The New York Times surge com o título "Uma imprensa livre precisa de si". O diário, que é habitualmente um dos principais visados de Trump, começa por recordar as palavras de Thomas Jefferson, um dos fundadores da nação e autor da Declaração de Independência: "Em 1787, ano em que a Constituição foi adotada, Thomas Jefferson escreveu a um amigo: 'Se me fosse deixada a decisão se deveríamos ter um governo sem jornais ou jornais sem governo, não hesitaria um momento em preferir a última." O jornal dá exemplos de frases de Trump e não duvida: "É a democracia que está em risco."

Da mesma cidade, o The New York Post aposta na persistência do trabalho jornalístico e afirma que "pode ser frustrante argumentar que só porque imprimimos verdades inconvenientes tal não significa que fazemos notícias falsas, mas ser jornalista não é um concurso de popularidade. Tudo o que podemos fazer é continuar a relatar o que se passa".

No The Philadelphia Inquirer, o editorial tem o titulo "Parar a guerra a uma imprensa livre". Os editorialistas deste diário da Pensylvannia escrevem que "uma guerra à imprensa é uma guerra contra a democracia. É uma guerra não apenas sobre o povo americano, mas também sobre as pessoas em todo o mundo". "A crítica à imprensa faz parte do debate saudável numa democracia. Organizações de média, incluindo a nossa, às vezes merecem as críticas. Mas a demonização da imprensa é agora uma estratégia calculada da Casa Branca, destinada a impedir um processo cujo objetivo é informar os cidadãos", lê-se no editorial do Inquirer.

Como Hitler e Estaline

Há casos ainda de grupos de comunicação que publicam o mesmo editorial em diversos jornais, como é exemplo a McClatchy Company, que possui 29 diários, Um deles é o Miami Herald e as palavras são fortes: "No nosso negócio, sabemos como as palavras importam. Sabemos, também, que as referências de Trump sobre nós, como o 'inimigo do povo americano', não são menos perigosas porque são estratégicas. É isso que os nazis chamavam aos judeus. Era assim que os críticos de José Estaline foram marcados para execução."

Nem todos alinharam nesta campanha. O The Wall Street Journalrecusou participar e justificou, numa opinião de James Freeman, a sua posição. Argumentou que Trump tem direito à liberdade de expressão e que a iniciativa do Globe contrariava a própria independência que buscava.

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