Macron para jovem sem emprego: "Atravesso a rua e arranjo-te já um"

Jovem horticultor desempregado queixou-se que não conseguia arranjar emprego ao presidente de França durante uma visita ao palácio do Eliseu, em Paris, por ocasião das Jornadas do Património

Emmanuel Macron é conhecido por gostar de interagir com jovens no âmbito ou à margem de eventos oficiais. Mas também é sabido que, algumas vezes, o resultado dessas interações não foi o melhor e apenas serviu para motivar críticas ao presidente.

É o que está a acontecer este domingo, depois de ter sido divulgado, na internet e nos media franceses, um vídeo em que o chefe do Estado francês diz a um jovem horticultor desempregado que, para arranjar emprego, basta atravessar a rua.

"Tenho 25 anos, farto-me de enviar currículos e cartas de motivação, mas não me serve de nada. Envio para todos os lados, autarquias, mas ninguém liga", disse o jovem ao chefe do Estado, nos jardins do Palácio do Eliseu em Paris. A conversa foi registado no sábado no âmbito das Jornadas do Património.

"Queres trabalhar em que setor?", perguntou ao jovem Emmanuel Macron, ao que este respondeu "sou horticultor". É então que o presidente lhe recomenda então que pense em mudar de setor e em reorientar a sua busca. "Se estás pronto e motivado, na hotelaria, nos cafés, na restauração, na construção, não há lugar onde vá que não me digam que precisam de gente. Um único! Hotéis, restaurantes, atravesso a rua, arranjo-te já um".

Insistindo, o jovem garantiu: "eu não tenho qualquer problema com isso, mas mando o CV, nunca me chamam". Insistindo, o presidente assegurou: "Vais por uma rua, vais a Montparnasse, vais a todos os cafés e restaurantes... Francamente, estou seguro que um em cada dois estão a recrutar agora. Vai lá!"

As críticas, face à atitude do presidente, não se fizeram esperar. "Hotéis, cafés, restaurantes... Eu atravesso a rua e arranjo-te [trabalho]". Nova saída desdenhosa de Emmanuel Macron para um desempregado. A título informativo o homem é horticultor. Então a solução é: mudar de setor? Este desprezo pelas classes trabalhadoras é insuportável", escreveu no Twitter um porta-voz do Partido Comunista francês, Thomas Portes.

"Atravesso a rua e arranjo-te já um emprego", diz Macron. É culpa dos desempregados não conseguirem arranjar um emprego? Absurdo... A impotência do governo face ao desemprego transforma-se em desprezo em relação aos desempregados...", escreveu, igualmente no Twitter, Alexis Corbière, deputado e porta-voz do movimento França Insubmissa, liderado por Jean-Luc Mélenchon.

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