Lourenço toma as rédeas de Angola mas ainda não há lourencismo

Na hora da saída da Sonangol, Isabel dos Santos defende-se de relatório que a acusa de falta de liderança e de estratégia. É um novo ciclo político que se inicia, que uns veem como uma perestroika e outros com normalidade.

Está em curso uma perestroika angolana. O primeiro capítulo, que estará prestes a encerrar, é simbolizado pelo afastamento dos filhos do anterior presidente, José Eduardo dos Santos, dos círculos do poder. O que se segue é a grande interrogação. Ao DN, dois diplomatas, um político e três especialistas em política africana lançam pistas.

João Lourenço não tem tempo a perder. Menos de 24 horas após ter exonerado Isabel dos Santos e quase todo o restante conselho de administração da Sonangol, deu ontem posse à nova equipa chefiada por Carlos Saturnino. "Continua a ser, para a nossa economia, a galinha dos ovos de ouro", reconhece o presidente angolano, razão por que fez um apelo público para que os novos administradores "cuidem bem" da petrolífera. Durante a cerimónia, o antigo general e ministro da Defesa indicou a construção de refinarias como prioridade para o setor. "Não tem lógica que Angola, enquanto produtor de petróleo, e com altos níveis de produção, continue a viver quase exclusivamente da importação de produtos refinados", declarou. Apontou 2018 para o início das obras da primeira refinaria e abriu espaço ao investimento privado. A construção de uma fábrica de processamento de crude prevista para o Lobito foi suspensa pela Sonangol quando Isabel dos Santos presidia a empresa.

No dia em que a mulher mais rica de África se despediu da Sonangol, foi dado a conhecer um relatório que analisou a sua gestão. O documento foi elaborado por um grupo de trabalho - a pedido do presidente angolano - composto por representantes das sete petrolíferas a operar no país, da Casa Civil do Presidente da República, do ministro das Finanças e coordenado pelo ministro dos Recursos Minerais e Petróleos, Diamantino Pedro Azevedo. E arrasou a presidência de Isabel dos Santos: "Sem liderança e sem estratégia para desenvolver o papel de impulsionadora da indústria petrolífera; "mau relacionamento" com as outras companhias e burocracia excessiva que paralisou o setor.

A empresária respondeu pouco depois. Em comunicado à Lusa, lembra que reduziu a dívida da Sonangol de treze mil milhões para sete mil milhões e que a nova administração conta com um financiamento de dois mil milhões de dólares, o que permitirá "chegar ao final do ano sem dívidas" aos parceiros. No Instagram, a filha mais velha de José Eduardo dos Santos disse que operou "mudanças tremendas" nos 17 meses de Sonangol, após uma situação de "pré-falência".

Normalidade no novo ciclo

"A fraqueza de Isabel dos Santos era a pouca experiência na indústria do petróleo e ter subcontratado consultores enquanto ela não se concentrou completamente na Sonangol, nos últimos meses do seu trabalho. Estas mudanças significam que a família Dos Santos precisa de ter mais cuidado e conseguir mostrar mais as suas capacidades tecnocráticas", comenta Alex Vines, diretor do Programa para África do think tank Chatham House.

O ex-ministro dos Negócios Estrangeiros António Monteiro aconselha a "olhar com normalidade para o que está a acontecer" em Angola, à luz de duas perspetivas. Por um lado, "são decisões que dizem respeito ao novo presidente angolano e que estão dentro da sua competência" enquanto chefe do executivo para o qual "foi democraticamente eleito". Por outro, "quando se tocam em interesses instalados, no statu quo, há sempre reações".

O diplomata que mediou o processo de paz angolano nos anos 1990 lembrou que "o anterior presidente da República sabe perfeitamente que o sucessor tomará medidas que correspondam àquilo que todos os angolanos querem: que haja para Angola melhores condições para se desenvolver e se impor a nível regional e internacional" - e, nesse sentido, António Monteiro não antevê que surjam reações negativas de setores próximos de José Eduardo dos Santos.

Outro ex-embaixador que foi chefe da diplomacia, António Martins da Cruz, acompanha o raciocínio do colega. "Estamos numa fase normal, num novo ciclo político, com novas orientações no que diz respeito à economia e às empresas públicas. Acontece a mesma coisa em Portugal quando mudam os governos." Para já, a liderança de Lourenço "não tem desiludido as forças sociais e a elite angolana" e tem "sabido criar fatores de esperança".

Para o ex-líder do CDS-PP José Ribeiro e Castro, "estas mudanças provam que João Lourenço está a romper com uma classe política anquilosada". A "remoção do que estava mal", diz, "mostra claramente quem está ao leme". No entanto, "não quer dizer que haja um lourencismo - vamos ver se isso vai suceder ou não". As próximas provas de fogo, para o ex-deputado que segue as questões africanas e da lusofonia, estarão nas chefias militares e nos serviços de informações". O chefe do Estado-Maior- -General das Forças Armadas, Geraldo Nunda, anunciou que vai reformar-se.

Paulo Gorjão, investigador do Instituto Português de Relações Internacionais e Segurança (IPRIS), vê nas mudanças uma "natureza simbólica mais importante do que o lado prático", com João Lourenço a dar um sinal de que "uma era política está a chegar ao fim" e ao mesmo tempo "começa a gerar as suas clientelas políticas". Para Fernando Jorge Cardoso, especialista em política africana, a "concentração do poder nas mãos do novo presidente, feito tão subitamente e sem que Isabel dos Santos tenha pedido a demissão", é um sinal de que "algo não terá corrido a 100% nas relações" entre Lourenço e o anterior chefe do Estado. Por outro lado, o investigador do Instituto Marquês de Valle Flôr é de opinião que José Eduardo dos Santos "não tem condições para se manter à frente do MPLA", pelo que prevê um congresso extraordinário para entronizar João Lourenço. "O regime de Eduardo dos Santos terminou, mas o regime do MPLA não."

Qual a margem de manobra para João Lourenço? "Vamos ver como corre a perestroika dele. A prova de fogo vai tê-la quando tiver de aplicar políticas de austeridade", diz Cardoso. Opinião similar tem Vines: "A prova crucial será se até às próximas eleições, em 2022, teve sucesso na melhoria da economia angolana e em estancar o declínio do apoio ao MPLA." Já Gorjão acredita que "quanto mais mudanças e reformas fizer, mais interesses políticos e económicos condicionar, mais adversários está a gerar. Não excluo a possibilidade de João Lourenço ser afastado por decisão política, ou por via das armas".

Com Abel Coelho de Morais, Ana Meireles e Manuel Carlos Freire

Ler mais

Exclusivos

Premium

Nuno Artur Silva

Notícias da frente da guerra

Passaram cem anos do fim da Primeira Guerra Mundial. Foi a data do Armistício assinado entre os Aliados e o Império Alemão e do cessar-fogo na Frente Ocidental. As hostilidades continuaram ainda em outras regiões. Duas décadas depois, começava a Segunda Guerra Mundial, "um conflito militar global (...) Marcado por um número significativo de ataques contra civis, incluindo o Holocausto e a única vez em que armas nucleares foram utilizadas em combate, foi o conflito mais letal da história da humanidade, resultando entre 50 e mais de 70 milhões de mortes" (Wikipédia).