Obrador: o homem que oscila entre Jesus Cristo e Che Guevara

À terceira foi de vez. Andres Manuel López Obrador, conhecido como AMLO, foi eleito este domingo presidente do México.

Andres Manuel López Obrador, o homem que a 11 de dezembro tomará posse como novo presidente do México, tem quatro filhos. O mais novo, fruto do seu segundo casamento, com Beatriz Gutiérrez Müller, tem dez anos e chama-se Jesus Ernesto. Isto porque AMLO, como é conhecido, quis homenagear simultaneamente Jesus Cristo e Ernesto Che Guevara. O que, para muitos, diz muito sobre o vencedor das presidenciais de domingo, apelidado de nacionalista, socialista progressista e, também já, de novo líder da esquerda na América Latina.

Nascido a 13 de novembro de 1953, em Tepetitán, no estado mexicano de Tabasco, descreve-se como teimoso, promete luta sem tréguas contra a corrupção, doa a quem doer, prioridade aos pobres e aos indígenas. Mas sem assustar os bancos. Os mercados. O capital privado. Se por um lado defende a aposta no mercado interno, com preços controlados e uma revisão da abertura do setor do petróleo ao capital privado, também procura combater as desigualdades, com o aumento da autossuficiência alimentar do país, a revisão das pensões, a subida do salário mínimo. Evita, porém, comprometer-se com uma abordagem de temas tradicionalmente de esquerda, como sejam os do aborto ou os casamentos gay.

Obrador, que venceu com 53% dos votos, sabe que a corrupção preocupa os mexicanos. Segundo dados de 2017 da Transparency International, 51% dos mexicanos admitiu ter que pagar subornos para conseguir ter acesso aos serviços públicos. No que toca à violência, o México sofre com a guerra entre cartéis da droga e só no ano passado foram assassinadas 250 mil pessoas. Numa altura em que a crise migratória com os EUA de Donald Trump atingiu o seu pico, Obrador, já felicitado pelo presidente norte-americano, prometeu uma nova abordagem nas relações bilaterais.

Ex-membro do Partido Revolucionário Institucional, do presidente cessante Enrique Peña Nieto, Obrador concorreu duas vezes ao cargo de governador de Tabasco. E perdeu. Perdeu mas protestou. Promovendo manifestações que lhe deram notoriedade. Em 2000, foi eleito presidente da câmara da Cidade do México, capital do país, conseguindo que o seu Executivo fosse percecionado como pragmático pelos eleitores.

Seis anos mais tarde, López Obrador candidatou-se a presidente do México, mas falhou a eleição. "Os pobres primeiro", dizia, suscitando receios de que quisesse instaurar no México um regime ao estilo do de Hugo Chávez na Venezuela. Em 2012 voltou a sair derrotado. Três anos depois fundou o Morena - Movimento Nacional de Regeneração - algo que foi encarado como a rampa de lançamento para as eleições seguintes. E foi o que aconteceu. À terceira foi de vez. Corredor de fundo da política mexicana, López Obrador, de 64 anos, foi eleito presidente.

Numa tentativa de acalmar os críticos e os mais desconfiados e reticentes, AMLO, falando aos apoiantes pela noite dentro, garantiu: "Não apostaremos em construir uma ditadura, nem aberta, nem encoberta". Se é admirador de Ernesto Che Guevara, o médico argentino e um dos revolucionários socialistas mais famosos do século XX, morto na Bolívia em 1967, López Obrador assume-se, por outro lado, como cristão.

Juntos Haremos História, aliança encabeçada pelo seu partido, Morena, inclui os evangélicos do Partido Encuentro Social (PES). Andres Manuel López Obrador foi, aliás, filmado no início do ano a receber uma bênção de um grupo de evangélicos. O nome Morena evoca também a Virgem de Guadalupe - a chamada Virgem morena.

"Desta vez ele pôs em marcha um movimento onde cabem todos. Na sua aliança couberam aqueles que quiseram juntar-se, de todas as cores e sabores. Como candidato, isso beneficiou-o para ampliar os seus votos, mais ainda está para se ver como será no governo", declarou, à BBC, o politólogo José Luis Berlanga da Universidad de Monterrey.

Um AMLO mais pragmático, aliado a um voto de protesto por cansaço em relação à corrupção e à violência, bem como à guerra existente entre o Partido Revolucionário Institucional (PRI) e o Partido de Ação Nacional (PAN), contribuíram para a vitória do líder do Morena. Esta pôs um ponto final a nove décadas de alternância no poder entre PRI e PAN.

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