Londres adverte com "sérias consequências" caso China despreze liberdades em Hong Kong

Chefe da diplomacia britânica garante que não vai "engolir e seguir em frente" caso Pequim rompa a Declaração Conjunta Sino-Britânica

O Governo britânico advertiu quinta-feira a China que haverá "sérias consequências" caso Pequim quebre o acordo que garante direitos e liberdades em Hong Kong, ao abrigo do princípio "um país, dois sistemas".

O ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, Jeremy Hunt, afirmou que não vai "engolir e seguir em frente" caso a China rompa a Declaração Conjunta Sino-Britânica assinada em 1984 e relativa à saída de Hong Kong por parte do Reino Unido.

"É muito importante que a abordagem com base no princípio 'um país, dois sistemas' seja honrada", alertou Hunt, em declarações à BBC.

"A China é um país que beneficiou vastamente de um sistema internacional baseado em regras. . . Não honrar este importante acordo entre o Reino Unido e a China certamente terá consequências" para os dois países, enfatizou o chefe da diplomacia britânica e candidato à chefia do governo de Londres.

China e Reino Unido envolveram-se esta semana numa disputa diplomática após Pequim acusar o Governo britânico de "grosseira interferência" nos assuntos de Hong Kong.

Numa conferência de imprensa na embaixada chinesa em Londres, o embaixador chinês no Reino Unido atacou ministros britânicos por defenderem abertamente os direitos dos manifestantes em Hong Kong.

"O Governo do Reino Unido escolheu ficar do lado errado", disse Liu Xiaoming, acrescentando: "Houve observações inadequadas que não só interferem nos assuntos internos de Hong Kong, como também apoiaram infratores violentos."

O acordo de 1984 garante a Hong Kong um alto grau de autonomia e proteção de várias liberdades, incluindo um judiciário independente.

"Hong Kong é parte da China, nós reconhecemos isso", realçou Hunt, mas "quero dizer é que haverá sérias consequências caso o acordo legal entre o Reino Unido e a China seja violado", argumentou o governante.

O ministro lembrou que o Reino Unido condenou toda a violência, acrescentando que muitos manifestantes em Hong Kong terão ficado desanimados por alguns dos incidentes.

No passado dia 01, centenas de manifestantes partiram vidros e destruíram gradeamento para entrar no edifício que acolhe o Conselho Legislativo de Hong Kong.

No hemiciclo da assembleia, onde os deputados se reúnem nas sessões plenárias, vandalizaram o escudo da região com graffitis e penduraram uma bandeira colonial britânica, referente ao período em que Hong Kong esteve sob soberania do Reino Unido.

"Eu não apoiei a violência", realçou Hunt. "Mas a forma de lidar com essa violência não é a repressão, é através da compreensão da raiz dos protestos", acrescentou.

Hunt afirmou que o Reino Unido tem "boas relações" com a China e disse que não há razão para que isso mude, apesar de reconhecer que quarta-feira foi um dia "difícil", referindo-se aos comentários do embaixador chinês.

Liu Xiaoming pediu a Londres que se abstenha de qualquer "interferência" sobre a sua antiga colónia.

"Acho que a relação (entre Londres e Pequim) sofreu com a interferência do Governo britânico em Hong Kong", afirmou o embaixador.

O embaixador lembrou que Hong Kong não estava mais sob o domínio colonial britânico, provocando uma reação da diplomacia britânica, que considerou as declarações "totalmente inaceitáveis".

Hong Kong é desde há quase um mês palco de protestos, contra uma proposta de lei que permitiria extraditar criminosos para a China.

A presidente do executivo de Hong Kong, Carrie Lam, decidiu suspender as discussões sobre a proposta, mas recusou retirar definitivamente, prolongando as manifestações.

A ocupação da assembleia ocorreu no mesmo dia em que se assinalou o 22.º aniversário do retorno de Hong Kong à China.

Hong Kong e Macau foram integrados na República Popular da China em 1997 e em 1999, respetivamente, com o estatuto de regiões administrativas especiais, sob a fórmula 'um país, dois sistemas', que garante que as políticas socialistas em vigor no resto da China não se aplicam nos territórios, que gozam de "um alto grau de autonomia", à exceção da Defesa e das Relações Externas, que são da competência exclusiva do governo central chinês.

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