Halloween sangrento. Nova Iorque sofre o primeiro atentado com vítimas mortais após o 11 de Setembro

Grupo radical islâmico tinha apelado horas antes a ataques. Homem matou oito pessoas junto ao One World Trade Center

Ao início algumas pessoas pensaram tratar-se de uma qualquer partida de Halloween, disseram testemunhas ouvidas pelos media norte-americanos. Mas rapidamente se começou a perceber a real dimensão da tragédia: uma carrinha de caixa aberta, conduzida por um homem de 29 anos, atropelou pessoas que seguiam numa ciclovia da baixa de Manhattan e embateu depois num autocarro escolar. Oito pessoas morreram e outras 11 ficaram feridas e foram hospitalizadas. Tudo aconteceu muito perto do One World Trade Center. O ataque, hoje verificado, é o primeiro com vítimas mortais em Nova Iorque desde os atentados terroristas do 11 de setembro de 2001.

O atacante foi imobilizado pela polícia depois de ter sido atingido no abdómen, tendo sido hospitalizado. Ainda tentou iludir os agentes com uma pistola de pressão de ar e outra de paintball. Segundo algumas testemunhas, terá gritado "Allah Akbar" em árabe. Fontes policiais citadas pela ABC News identificaram o suspeito como Sayfullo Saipov, com carta de condução da Florida. A CBS News adiantou, por seu lado, que seria originário de Usbequistão.

A carrinha de caixa aberta branca que o atacante guiava tinha sido alugada. O ataque terrorista aconteceu às 15.05 locais (19.05 em Lisboa), quando muitas pessoas passeavam. Pais, crianças, mascaradas, preparavam-se para festejar o Halloween. Horas antes, alguns media tinham noticiado que o Estado Islâmico apelara a ataques com veículos no dia festivo. "Aterrorizem o 31 de outubro", "tirem partido da festa deles" e "saiam de casa antes que seja tarde" foram algumas das mensagens divulgadas pelo grupo francês Centre Médiatique An-Nûr. Entre outras coisas é responsável por publicar uma revista que terá tido influência nos extremistas que levaram a cabo ataques semelhantes em Londres em março e junho.

Em conferência de imprensa, o comissário da Polícia de Nova Iorque, James P. O"Neill, o presidente da câmara, Bill de Blasio, e o governador do estado de Nova Iorque, Andrew Cuomo, tentaram tranquilizar a população, mas não conseguiram esconder o ambiente de tensão e o ar de preocupação. "É uma tragédia de grandes dimensões para muitas famílias", declarou James P. O"Neill, sublinhando que a informação que estava a ser dada era preliminar. O comissário da NYPD especificou que seis das oito vítimas morreram no local, outras duas a caminho do hospital. Três dos feridos eram duas crianças e um adulto que seguiam no autocarro escolar contra o qual a carrinha do suspeito chocou.

"É um dia muito doloroso na nossa cidade. Isto foi um ato de terrorismo, cobarde, dirigido a pessoas inocentes. Este ato tinha a intenção de atingir o nosso espírito, mas os nova-iorquinos não se deixam abalar. Não cedemos. Já fomos testados por este tipo de ações antes. Peço a todos os nova-iorquinos e americanos que rezem pelas famílias das vítimas. Queremos que estejam vigilantes. Esta é a noite de Halloween", afirmou o mayor de Nova Iorque, Bill de Blasio, sem disfarçar a emoção.

"Estas pessoas saíram hoje e estavam a desfrutar de um dia de sol na baixa de Manhattan e não voltaram mais para casa. Nada sugere uma conspiração em larga escala. As informações apontam para a ação isolada de um indivíduo que queria causar terror. Nova Iorque é um símbolo internacional de liberdade e democracia e isto torna-nos um alvo das pessoas que odeiam estes valores. Mas vamos continuar em frente, mais fortes do que nunca. Não vamos deixá-los ganhar. Não vamos mudar o nosso estilo de vida. Eles não vão ganhar", garantiu governador de Nova Iorque, Andrew Cuomo, anunciando um reforço policial que descreveu como normal para o sucedido.

"Pensámos que era alguma partida de Halloween", disse Laith Bahlouli, um estudante, de 14 anos. "Havia um acidente de carro, depois houve disparos". Eugene Duffy, outra testemunha, que foi citada pelo site da CNN, começou a ouvir gritos enquanto esperava que a cor do semáforo mudasse para poder atravessar a rua. Tinha acabado de sair do emprego. "Olhei para baixo e vi uma carrinha branca na ciclovia. Automaticamente, soube que havia algo de errado. Depois fui descendo, vi uma rapariga que estava aos gritos, vi dois homens deitados no chão e tinham marcas de pneus nos corpos. Percebia-se que já não estavam cá", relatou, acrescentando: "Pensei logo que era terrorismo".

O ataque é semelhante a outros que ocorreram na Europa, em cidades como Barcelona, Berlim, Londres e Nice. Seguindo diretivas do Estado Islâmico, vários terroristas começaram a recorrer a veículos e a atropelamentos para cometer ações contra o Ocidente. No twitter, Rita Katz, diretora da organização SITE Intelligence Group, revelou que um apoiante do Estado Islâmico fotografara recentemente a zona do atentado. E divulgou mensagens de apoiantes do grupo a aplaudir o ataque. Na mesma rede social, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, escreveu: "Não podemos permitir ao EI regressar, entrar, no nosso país, depois de o derrotarmos no Médio Oriente e noutro lado. Basta. As autoridades estão a seguir isto de perto. NÃO NOS EUA!".

Ler mais

Exclusivos

Premium

Henrique Burnay

O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.

Premium

Ruy Castro

Um Vinicius que você não conheceu

Foi em dezembro de 1967 ou janeiro de 1968. Toquei a campainha da casa na Gávea, bairro delicioso do Rio, onde morava Vinicius de Moraes. Vinicius, você sabe: o poeta, o compositor, o letrista, o showman, o diplomata, o boémio, o apaixonado, o homem do mundo. Ia entrevistá-lo para a Manchete, revista em que eu trabalhava. Um empregado me conduziu à sala e mandou esperar. De repente, passaram por mim, vindas lá de dentro, duas estagiárias de jornal ou, talvez, estudantes de jornalismo - lindas de morrer, usando perturbadoras minissaias (era a moda na época), sobraçando livros ou um caderno de anotações, rindo muito, e foram embora. E só então Vinicius apareceu e me disse olá. Vestia a sua tradicional camisa preta, existencialista, de malha, arregaçada nos cotovelos, a calça cor de gelo, os sapatos sem meias - e cheirava a talco ou sabonete, como se tivesse acabado de sair do banho.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Dispensar o real

A minha mãe levou muito a sério aquele slogan dos anos 1970 que há quem atribua a Alexandre O'Neill - "Há sempre um Portugal desconhecido que espera por si" - e todos os domingos nos metia no carro para conhecermos o país, visitando igrejas, monumentos, jardins e museus e brindando-nos no final com um lanche em que provávamos a doçaria típica da região (cavacas nas Caldas, pastéis em Tentúgal). Conheci Santarém muito antes de ser a "Capital do Gótico" e a Capela dos Ossos foi o meu primeiro filme de terror.

Premium

Adriano Moreira

Entre a arrogância e o risco

Quando foi assinada a paz, pondo fim à guerra de 1914-1918, consta que um general do Estado-Maior Alemão terá dito que não se tratava de um tratado de paz mas sim de um armistício para 20 anos. Dito ou criado pelo comentarismo que rodeia sempre acontecimentos desta natureza, o facto é que 20 anos depois tivemos a guerra de 1939-1945. O infeliz Stefan Zweig, que pareceu antever a crise de que o Brasil parece decidido a ensaiar um remédio mal explicado para aquela em que se encontra, escreveu no seu diário, em 3 de setembro de 1939, que a nova guerra seria "mil vezes pior do que em 1914".

Premium

António Araújo

Virgínia, a primeira jornalista portuguesa

Estranha-se o seu esquecimento. É que ela foi, sem tirar nem pôr, a primeira jornalista portuguesa, a primeira mulher que exerceu a profissão de repórter nos moldes que hoje conhecemos. Tem o seu nome nas ruas de algumas localidades (em Lisboa, no bairro de Caselas), mas, segundo sei, não é sequer recordada pela toponímia da sua terra natal, Elvas, onde veio ao mundo às cinco da madrugada do dia 28 de Dezembro de 1882. Seu pai era oficial de Cavalaria, sua mãe doméstica (e também natural de Elvas), seus irmãos militares de fortes convicções republicanas; um deles, Carlos Alberto, chegou a estar na Rotunda em Outubro de 1910 e a combater as tropas de Couceiro por bandas de Trás-os-Montes.

Premium

Marisa Matias

É ouro, senhores

Chegar à União Europeia não é igual para toda a gente, já se sabe. Em vários países da União Europeia - treze mais em concreto - ter dinheiro é condição de porta aberta. Já se o assunto for fugir à morte ou procurar trabalho, a conversa é bem diferente. O caso a que me refiro é o dos vistos gold. Portugal integra a lista de países com práticas mais questionáveis a este respeito. Não sou eu quem o diz, os dados vêm do Consórcio Global Anticorrupção e da Transparency International.

Premium

Germano Almeida

Parlamentares

A notícia segundo a qual dois deputados nacionais ultrapassaram a fase dos insultos verbais e entraram em desforço físico junto ou dentro do edifício do Parlamento correu as ilhas e também pelo menos a parte da diáspora onde chegam as nossas emissões, porque não só a Rádio Nacional proporcionou ao facto abundante cobertura, como também a televisão lhe dedicou largos 22 minutos de tempo de antena, ouvindo não só os contendores como também as eventuais testemunhas da lide, e por fim um jurista, que, de código em punho, esmiuçou a diferença entre uma briga e uma agressão pura e simples, para concluir que no caso em apreço mais parecia ter havido uma agressão de um deputado a outro, na medida em que tudo levava a crer ter havido um único murro. Porém, tão bem aplicado e com tanta ciência, que não houve mais nada a fazer senão conduzir o espancado ao hospital para os devidos curativos. E para comprovar a veracidade do incidente mostrou, junto a uma parede, uma mancha de sangue que por sinal mais fazia lembrar o local onde uma galinha poderia ter sido decapitada.

Premium

Viriato Soromenho Marques

Desta vez Trump tem razão

A construção de uma Europa unida como espaço de paz, liberdade, justiça e prosperidade sustentável foi o maior projeto político da geração a que pertenço. É impossível não confessar a imensa tristeza que me invade ao observar mês após mês, ano após ano, como se caminha para aquele grau de exaustão e fadiga que faz pressentir a dissolução final. O que une, hoje, a Europa é a mais elementar pulsão de vida, o instinto de autossobrevivência. Não dos seus governantes, mas dos seus mais humildes cidadãos. O tumultuoso Brexit mostra bem como é difícil, mesmo para um grande país com soberania monetária, descoser as malhas urdidas ao longo de tantas décadas. Agora imagine-se a tragédia que seria o colapso da união monetária para os 19 países que dela participam. A zona euro sofreria um empobrecimento e uma destruição de riqueza exponenciais, como se uma guerra invisível, sem mortos nem ruínas, nos tivesse atingido. Estamos nisto há dez anos. Os atos políticos levados a cabo desde 2008, nada mudaram na gravidade dos problemas, apenas adiaram o desfecho previsível. Existe uma alternativa minimalista ao colapso. Implicaria uma negociação realista baseada nos interesses materiais concretos dos Estados, como aqueles casais que coabitam, mesmo depois do divórcio, para nenhum deles ter de ir morar na rua. A prioridade seria uma mudança das regras absurdas do tratado orçamental, que transformam, por exemplo, os 2,8% da derrapagem orçamental francesa prevista para 2019 numa coisa esplêndida, e os 2,4% solicitados pelo governo de Roma num pecado mortal! Contudo, os mesmos patéticos dirigentes políticos dos grandes países europeus que economizaram nos atos potencialmente redentores do projeto europeu, não nos poupam à sua retórica. A evocação do primeiro centenário do fim da I Guerra Mundial ultrapassou os limites do aceitável.