Geórgia, a ex-república soviética que quer ser europeia, elege hoje pela última vez um presidente

A Geórgia, que no início deste mês foi o país convidado de honra da Feira do Livro de Frankfurt, elege hoje um presidente pela última vez. A partir de 2024 o chefe do Estado passará a ser nomeado. Há 25 candidatos ao cargo nesta ex-república soviética sempre em tensão entre o afastamento da Rússia e a aproximação à UE e à NATO

Estava-se em 2007 quando Simone Bühler recebeu um primeiro contacto da parte da Geórgia para saber como funcionava isso de um país ser convidado de honra da Feira do Livro de Frankfurt. No ano seguinte, explodiu a guerra entre a Geórgia e a Rússia, depois da qual o regime de Moscovo reconheceu oficialmente a autoproclamada independência da Ossétia do Sul e da Abcásia, duas repúblicas separatistas da Geórgia que Tblissi considera, até hoje, como suas.

O processo de candidatura foi correndo, em paralelo com este e outros problemas, até que, 11 anos depois, este ano, a Geórgia foi o país convidado de honra da Feira do Livro de Frankfurt. Bühler, que foi a responsável pelo programa da Geórgia, deslocou-se a Tblissi pelo menos quatro vezes e descreve assim o país: "A minha impressão é a de que é um país em que imediatamente nos sentimos em casa e um país com uma visão europeia".

Sentada no pavilhão da Geórgia na Messe Frankfurt a responsável alemã prossegue: "Vemos elementos, na arquitetura, na comida, meio mediterrânea, meio oriental, que o tornam muito característico e especial. Ao mesmo tempo é um país pós-soviético, fundado após a implosão da URSS, que tem uma história muito longa que vai muito para além desse período. Tem uma sociedade muito forte, uma tradição muito cristã, com um patriarca. Há uma sociedade conservadora, por um lado, mas também uma nova geração a emergir".

Enquanto fala ao DN, meio em português, meio em inglês, toca naquele pavilhão um dos Djs do Bassiani, que é um dos clubes de música eletrónica mais conhecidos do momento, em Tbilissi. "Há jovens georgianos a lutar por valores europeus e democráticos. Todos estes elementos, todas estas tendências, coexistem de uma forma muito especial, na Geórgia. É um país muito vívido. Nada nos é indiferente na Geórgia. Tudo tem o seu valor".

Para mostrar, precisamente, que a sua história vai muito para além do tempo em que foi da URSS, a Geórgia destacou na Feira do Livro de Frankfurt o seu alfabeto muito próprio com 33 letras. Na cerimónia de abertura do certame, o escritor georgiano Aka Morchiladze, disse, no início do mês: "Há culturas antigas que ou permanecem completamente desconhecidas até aos dias de hoje ou conhecidas apenas por alguns indivíduos com as melhores intenções. Não morreram e sobreviveram até ao século XXI graças a milagres supremos. Eu sou abençoado por representar uma dessas culturas. A literatura georgiana é parte da cultura georgiana que foi criada com o alfabeto georgiano, que é o mais antigo salvador da Geórgia, do seu povo e da sua cultura".

"Queremos mostrar os laços que nos unem à Europa. A Geórgia é um país diverso. Muito rico. A sociedade europeia está bem ciente da nossa identidade europeia. A Alemanha foi o primeiro país a reconhecer a independência da Geórgia [em 1992] e o reconhecimento da Alemanha da integridade territorial da Geórgia é muito importante. A Geórgia apoia-vos na luta pelos direitos humanos na Europa", sublinhou, na cerimónia de abertura da Feira do Livro de Frankfurt, o primeiro-ministro da Geórgia, Mamuka Bakhtadze, que é saído do partido Sonho Georgiano - Geórgia Democrática. "A Geórgia precisa de solidariedade. Estou satisfeito por tê-lo aqui. Seja bem-vindo", declarou por seu lado o ministro presidente do estado federado do Hesse, a que pertence Frankfurt, Volker Bouffier, membro da CDU, partido da chanceler alemã Angela Merkel. "Em qualquer sítio onde esteja a Geórgia como convidada esse é o sítio certo para a UE estar presente", afirmou a chefe da diplomacia europeia, a italiana Federica Mogherini, no início do seu discurso, na cerimónia de abertura do certame em que a Geórgia apresentou 600 livros de escritores georgianos que já foram traduzidos para outras línguas em todo o mundo.

Esta Geórgia, que ambiciona aproximar-se cada vez mais da UE e da NATO, mesmo contra os avisos em tom ameaçador feitos por vezes pelo presidente russo Vladimir Putin, vota este domingo pela última vez para eleger um presidente. Após a entrada em vigor da nova Constituição, o chefe do Estado passará, a partir de 2024, a ser ocupado por nomeação. A estas eleições presidenciais concorrem 25 candidatos e, caso nenhum consiga mais de 50% dos votos + 1, há segunda volta. Os favoritos são, segundo as sondagens, Salome Zurabishvili e Grigol Vashadze.

A primeira é apoiada pelo partido Sonho Georgiano - Geórgia Democrática, no poder, foi ministra dos Negócios Estrangeiros entre 2004 e 2005 e é, atualmente, deputada no Parlamento da Geórgia. De origem francesa, nasceu em Paris, há 66 anos e quer a ser a primeira mulher presidente. A candidata defende que a prioridade deve ir para as políticas sociais e de habitação, com especial enfoque nos mais idosos e nas pessoas portadoras de deficiência. E promete ainda trabalhar para acabar com a cada vez mais crescente violência de género no país e defender a integridade territorial do mesmo. Um recado à Rússia. E aos rebeldes da Ossétia do Sul e da Abcásia.

O segundo é candidato da recém-criada A Força está na União, uma coligação de 11 partidos, que é liderada pelo ex-presidente georgiano Mikhail Saakashvili. Vashadze promete que, se for eleito, haverá eleições legislativas antecipadas e uma nova coligação no governo. Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros entre 2008 e 2012, de 60 anos, promete reduzir as despesas burocráticas, mais políticas sociais, aumentar os salários dos professores e revogar a lei do cultivo do canábis. O candidato acusa as autoridades de "quererem agarrar" terrenos agrícolas de "forma corrupta" para transformar "um país de vinho" num "exportador de marijuana".

Grigol Vashadze, por sua vez, é próximo de Mikhail Saakashvili e, no passado fim de semana, num comício, a mulher do ex-presidente, Sandra Roelofs, indicou que o marido pretende regressar à Geórgia no dia 17 de novembro para que o casal celebre o seu aniversário de casamento. O controverso ex-chefe do Estado vive atualmente na Holanda, país de origem da mulher, depois de ter sido expulso da Ucrânia para a Polónia e, daí, para a Holanda. Visto durante muito tempo como um aliado do Ocidente face à Rússia, Saakashvili, de 50 anos, caiu em desgraça.

Depois de sair da presidência, em 2013, foi para a Ucrânia após ter sido nomeado pelo presidente ucraniano, Petro Poroshenko, governador da região de Odessa. A amizade azedou quando o georgiano acusou o ucraniano de ser mole em relação ao Kremlin. E depois de já ter perdido a nacionalidade georgiana, viu-se sem a nacionalidade ucraniana também. Em fevereiro, um tribunal negou-lhe por fim o direito de refúgio na Ucrânia. Enquanto isso, na Geórgia, o seu antigo partido, Movimento Nacional Unido, dividiu-se em várias fações. Várias condenações à revelia foram também, entretanto, decidias contra si pelos tribunais. Em junho foi condenado a seis anos de cadeia por abuso de poder e, em janeiro, fora condenado a mais três anos por ter encoberto provas sobre o assassínio de um banqueiro georgiano. Saakashvili rejeita todas as acusações. Diz que tudo é politicamente motivado e destinado a prejudicá-lo.

*A jornalista viajou a convite do Goethe Institut

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