"Em Itália não sabemos para onde vamos. Em Portugal há um sentimento de futuro"

Nos últimos anos chegaram a Portugal milhares de jovens italianos. Trabalham em call centers e muitas vezes não gostam do que fazem, reconhecem os problemas da economia, queixam-se do nível de vida, mas dizem que em Itália é tudo pior. Acima de tudo, estão apaixonados por Lisboa, o novo país da dolce vita

Às quintas-feiras ao fim da tarde, ao subir a Rua da Rosa, no Bairro Alto, em Lisboa, tem-se a sensação de se estar subitamente em Itália, a tempo do aperitivo, o hábito italiano de pagar pela bebida e comer aquilo que o bar oferece. São tantos os italianos a frequentar a Tasca Mastai, que a rua acaba por encher-se de homens e mulheres que gesticulam com uma mão e seguram com a outra um balão cheio de Spritz.

Não há dados oficiais, mas estima-se que nos últimos anos tenham chegado a Portugal entre 9 a 13 mil italianos, entre reformados atraídos pelas vantagens fiscais e académicos que descobrem melhores situações de trabalho nas universidades portuguesas. Entre esses milhares há também muitos jovens que, mesmo sem os benefícios fiscais e de carreira, se empregam com relativa facilidade nos call centers - a oportunidade que alguns encontram de viver numa cidade pela qual, dizem, se apaixonaram. Para muitos deles, a Tasca Mastai, aberta em 2014 por um casal de Bolonha, transformou-se na embaixada não oficial de Itália em Lisboa.

O que os traz realmente a Lisboa?

Numa quinta-feira do fim de julho, a tasca encheu-se novamente para o lançamento de Tutti Schiavi in Portogallo, o novo livro de Andrea D"Angelo, um jovem italiano de 29 anos, na capital portuguesa desde setembro de 2015. O livro de Andrea tenta responder a uma questão que muitos jovens italianos que aqui chegam se colocam: o que os traz realmente a Lisboa se tantas vezes acabam a fazer um trabalho de que não gostam e que em teoria podiam fazer também em Itália?

Andrea escreveu o livro a pensar numa colega, mas é também um deles. Estudou línguas em Nápoles, fez Erasmus em Berlim, voltou a Itália, mas soube que não queria ficar. Uma amiga disse-lhe que devia experimentar viver em Lisboa e que ela própria estava a considerar mudar-se para Portugal. Andrea enviou currículo para um call center e ao fim de uma hora fez uma entrevista por telefone. Quatro dias depois estava em Lisboa. O que o jovem italiano encontrou em Portugal, que começava a sair da crise, foi muito diferente daquilo que esperava, dada a imagem do país durante os anos da intervenção da Troika. Em Lisboa, Andrea encontrou um salário acima do salário médio dos portugueses e uma cidade "viva", onde se tem a sensação de que "há muito por descobrir".

"O título deste livro - Todos escravos em Portugal - baseia-se na ideia que eu tinha deste país quando cheguei, um país onde não havia trabalho e aquele que havia era mal pago, um país sem possibilidades, onde todos se diziam escravos de uma situação da qual não podiam sair. A minha experiência revelou-se diferente e na verdade tenho a sensação de ter em Portugal mais liberdade do que aquela que tinha em Itália porque Lisboa dá-me a ideia de ter a minha independência, de ter um trabalho, de ser livre. Em Itália estaria a viver em casa dos pais. Se escolhesse um título mais realista para o meu livro teria de ser "Tutti liberi in Portogallo", "Todos livres em Portugal"," diz o escritor e funcionário de call center.

Os portugueses "subestimam-se"

O jornalista freelance Daniele Coltrinari, 41 anos, esteve presente na apresentação do livro de Andrea porque ele próprio realizou, juntamente com os amigos Luca Onesti e Massi Rossi, todos residentes em Lisboa, o documentário Lisbon Storie , sobre os italianos na capital portuguesa desde os anos 90. Ao fazer esse filme, durante os anos mais difíceis da crise económica em Portugal, Daniele apercebeu-se de que mesmo nesses momentos, os italianos entrevistados falavam de "uma certa liberdade" que não encontravam em Itália. Massi Rossi, 40 anos, coautor do filme, diz que essa sensação de liberdade se deve a uma série de fatores.

"Lisboa é uma província cosmopolita onde se pode fazer uma qualidade de vida muito alta como se faz numa cidade média em Itália. Pode-se comer numa tasca por sete euros, ver Depeche Mode e utilizar transportes públicos que funcionam. Os músicos italianos, por exemplo, gostam de estar aqui porque sentem que há menos burocracia e além disso estão expostos a música brasileira e africana. Há uma sensação de verdadeiro cosmopolitismo. E como há menos população, há também a sensação de maior liberdade em termos espaciais. Em Itália somos 60 milhões e enchemos tudo. Além disso, em Portugal há um sentimento de futuro. Em Itália não sabemos para onde vamos," diz.

Quando lhe dizemos que os portugueses repetem muitas vezes que não há futuro em Portugal, Massi diz que os portugueses "se subestimam".

"Os jovens portugueses não estão tão desesperados quanto os italianos relativamente ao futuro. Muitos jovens portugueses emigraram durante a crise, é verdade, mas quantos desses foram para Itália?," diz.

Linda di Filippo chegou a Portugal em 2014, em plena crise económica. Veio por três meses para fazer um estágio numa empresa que organizava viagens. A empresa pagou-lhe um quarto e 400 euros pelos três meses de trabalho, mas apesar disso e das dificuldades da economia portuguesa nesse momento, Linda diz que se apaixonou de tal forma por Lisboa que, ao regressar a Itália, ao fim desses três meses, fez tudo para encontrar uma forma de voltar a Lisboa. Encontrou essa oportunidade poucos meses depois, numa oferta para trabalhar num call center.

"Cheguei a Portugal num momento em que os jovens italianos e os jovens portugueses viviam as mesmas dificuldades por causa da crise. Mas Portugal deu-me uma oportunidade devido ao trabalho dos call centers e em Itália nem isso consegui," diz.

Paola não adora Lisboa

Paola Amore, 32 anos, chegou em outubro de 2016, "saturada" da vida em Roma, onde estudou Jornalismo e onde viveu e trabalhou durante 11 anos. Chegou a Lisboa através de uma oportunidade do Serviço de Voluntariado Europeu, para gerir a página de Facebook da Junta de Freguesia de Carnide, e neste momento trabalha no departamento de relações internacionais do ISCTE, gerindo os estudantes estrangeiros que chegam aquele instituto universitário.

Ao contrário dos outros italianos que falaram com o DN, Paola considera Lisboa uma cidade como outra qualquer: "Agora está na moda como já estiveram Barcelona ou Londres." Acha que a "loucura" dos italianos pela capital portuguesa está também relacionada com as semelhanças culturais, que permitem a um italiano sentir-se mais em casa aqui do que no norte da Europa. E vive a experiência portuguesa com sentido crítico: "Portugal tem de melhorar a nível de salários e condições de vida."

Paola não teve de ir trabalhar num call center, tendo encontrado uma sucessão de empregos de que gostou. Sente que está a construir um percurso profissional por si própria, algo que sempre lhe pareceu impossível no país onde nasceu.

"Em Itália tudo funciona pela recomendação de alguém que te conhece. Sei que vocês cá também têm a figura da "cunha", mas em Itália tudo está estruturado em torno disso. Eu não conheço ninguém em Portugal e tudo o que consegui foi devido ao meu currículo. Uma vez em Itália ofereceram-me um bom trabalho, mas pediram-me que pagasse 7000 euros... Não sei explicar, mas o meu currículo vale mais em Portugal," diz.

Apaixonar-se pelo português ao som de Mariza

Roberta Schettino, 30 anos, estudou francês, inglês e espanhol na universidade e teve sempre o sonho de sair de Itália. Fez Erasmus e trabalhou em França, mas ao ver um vídeo da fadista Mariza no Palácio da Pena, em Sintra, apaixonou-se pelo português.

"Aquele vídeo criou o meu imaginário de Portugal, um país com muito sol, muita História e muitas cores, e quando recebi uma oferta de trabalho em Lisboa aceitei de imediato," diz.

Roberta chegou no início de 2016 para trabalhar numa empresa de viagens que funciona através da internet e ao aterrar no aeroporto sentiu-se em casa.

"Reconheci muitas coisas da minha cidade, Nápoles, em Lisboa, mas sinto-me melhor aqui agora. Nápoles é muito caótica, Lisboa é segura. Quando chego, respiro e sinto-me calma," diz.

"Reconheci muitas coisas da minha cidade, Nápoles, em Lisboa, mas sinto-me melhor aqui agora. Nápoles é muito caótica, Lisboa é segura"

Roberta, que preferia partilhar casa com pessoas de outras nacionalidades, vive com três italianos, todos eles apaixonados por Lisboa, como ela. E tal como ela, todos eles com vontade de encontrar outro trabalho que não o do call center, que lhes tem permitido viver confortavelmente na capital portuguesa, apesar da subida do nível de vida.

"Eu gosto do meu trabalho, mas gostaria de encontrar outro para aprender coisas novas. Quero pensar que é possível mudar porque acho que nunca vou encontrar uma cidade como Lisboa," diz.

Linda di Filippo sente o mesmo. Apesar de sonhar com outro trabalho, estar em Lisboa é a prioridade. É também em Lisboa que gostaria de criar família e viver de forma definitiva.

"Todos os pais italianos que conheço perguntam aos filhos que vivem fora de Itália quando regressam. Os meus pais vêm visitar-me a Lisboa e dizem-me para eu ficar aqui. Na verdade dizem que têm inveja porque gostariam de viver também em Portugal," diz.

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