Dívidas dos universitários americanos torna-se tema na corrida à Casa Branca

Democratas propõem medidas para fazer face ao problema dos empréstimos contraídos por estudantes

Eric Swalwell tem 38 anos e uma dívida de quase 100 mil dólares (88,8 mil euros). Sem a dívida, costuma dizer, teria comprado com mais facilidade a casa em que vive hoje com sua família, na Califórnia.

Dez anos mais nova, Tess Evans tenta pagar 66 mil dólares (58 mil euros) e afirma que, sem as prestações e os juros, evitaria ter de manter dois empregos que não lhe rendem por ano nem metade do que precisa pagar ao governo americano.

A bacharel em história da ciência e o pré-candidato democrata à presidência dos Estados Unidos compartilham com outras 44,7 milhões de pessoas um dos principais dramas do país: as dívidas do financiamento estudantil.

"Eu queria ir para a universidade e, como os meus pais não tinham como pagar, entrei de cabeça no financiamento", conta Tess, citada pela Folha de São Paulo. "Após a faculdade, entendi que precisaria de um mestrado para ser competitiva. Eu já estava trabalhando em três empregos diferentes, mas tive que pegar outro empréstimo para a especialização. Quando tudo acabou, a minha dívida era de 66,6 mil dólares."

Encurralados pelo patamar histórico de US$ 1,5 biliões (1,3 mil mihões de euros) em dívidas -cerca de 7,5% do PIB americano-, os estudantes que fizeram empréstimos para frequentar uma universidade não conseguem pagar o que devem, reclamam dos juros altos e levam a discussão para o centro da corrida pela Casa Branca em 2020.

Com foco no eleitorado jovem, decisivo num disputa com pretensões de ser também geracional, pelo menos cinco dos 23 candidatos do Partido Democrata levaram o tema para as suas campanhas.

Três deles considerados bastante competitivos: Joe Biden, Bernie Sanders e Elizabeth Warren, que disputam a preferência da oposição para enfrentar Donald Trump.

Senador por Vermont, Sanders já havia defendido universidade gratuita para todos quando tentou ser o nomeado democrata em 2016, e o ex-vice-presidente Joe Biden - favorito entre os democratas - anunciou na semana passada um plano que reforça o perdão aos débitos de professores e funcionários públicos.

Mas foi Warren, senadora por Massachusetts, quem primeiro detalhou um projeto para cancelar as dívidas dos estudantes. Em abril, afirmou que, se eleita, eliminará os débitos de até 50 mil dólares (44 mil euros), ou seja, de pelo menos 42 milhões de americanos - as dívidas no ano passado eram, em média, de 29,8 mil dólares (26,4 mil euros).

O empresário Andrew Yang e o senador por Nova Jersey Cory Booker também têm falado sobre o tema entre os pré-candidatos democratas. O endividado Swalwell, por sua vez, ainda não fez do assunto uma plataforma de campanha.

Segundo dados do Federal Reserve, o banco central americano, este é o ano em que os estudantes estão mais sobrecarregados com os débitos na história, superando a dívida total do cartão de crédito nos EUA.

Com poucas universidades gratuitas no país, cerca de 70% dos alunos recorrem a empréstimos para pagar os estudos, mas têm ficado inadimplentes, alegando incapacidade de acompanhar os juros entre 5% e 7,5% ao ano.

"Sei que fiz empréstimo e tenho que pagar, mas não consigo investir, garantir minha aposentadoria ou contribuir para a economia do meu estado como gostaria", afirma Tess, que trabalha no departamento de museus de uma pequena cidade do estado da Virgínia por 27 mil dólares (23,9 mil euros) por ano. A dívida é mais do que o dobro desse valor.

Analistas americanos avaliam que o plano de perdoar as dívidas estudantis poderia estimular a economia, pois faria com que essas pessoas voltassem a comprar e a investir, mas ainda há dúvidas sobre como lidar com quem já acertou as suas dívidas, por exemplo.

Nos EUA, existem vários tipos de financiamento universitário, inclusive privados, mas os públicos ainda parecem ter mais vantagens. No caso do empréstimo do governo, criado em 1958, o estudante não precisa pagar nada até pelo menos a metade do curso.

Depois disso, pode dividir as parcelas ao longo dos anos e, em alguns casos, há carência de até seis meses após a formatura para que os pagamentos sejam iniciados.

O custo médio de uma universidade nos EUA é de cerca de 20 mil dólares (17,7 mil euros) por ano - o aluno tem desconto se optar por uma faculdade no seu estado e, nesse caso, não tem que gastar com acomodação, por exemplo.

Consideradas entre as melhores dos EUA, Harvard e Yale não têm altos índices de alunos endividados porque, geralmente, são frequentadas por pessoas com alto poder de compra ou beneficiadas por bolsas de estudo.

Já as universidades de Phoenix, no Arizona, e Capella, em Minnesota, são duas das recordistas em termos de alunos deficitários. Essas instituições são consideradas for-profit, ou seja, que buscam lucro, com maior quantidade de estudantes negros e pobres.

Grupos não-governamentais que atuam em temas ligados à educação, como o Student Debt Crisis, argumentam que as dívidas contribuem justamente para aprofundar a desigualdade social no país.

Para eles, estudantes negros deixam de pagar empréstimos com mais frequência porque têm piores empregos, e as mulheres enfrentam prazos mais longos de pagamento devido à diferença salarial em relação aos homens.

Há pouco mais de duas semanas, alunos da Universidade Morehouse, em Atlanta, ouviram o negro mais rico dos EUA prometer pagar cerca de 40 milhões de dólares (35,5 milhões de euros) em dívidas estudantis.

Com uma fortuna estimada em 5 mil milhões de dólares (4,4 mil milhões de euros), o empresário Robert F. Smith anunciou a medida enquanto discursava numa das turmas da escola que já abrigou o ativista Martin Luther King.

Desde 2008, durante a recessão, o afogamento dos estudantes em débitos milionários é debatido nos EUA. Resta saber se os recordes deste ano serão suficientes para promover mudanças efetivas no sistema educacional ou se vão configurar apenas retórica eleitoral para a disputa à Casa Branca.

* Jornalista da Folha de São Paulo

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É procurador no Tribunal de Cascais há 25 anos. Escolheu sempre a área de família e menores. Hoje ainda se choca com o facto de ser uma das áreas da sociedade em que não se investe muito, quer em meios quer em estratégia. Por isso, defende que ainda há situações em que o Estado deveria intervir, outras que deveriam mudar. Tudo pelo superior interesse da criança.