Escândalo com líder da extrema-direita provoca queda do governo austríaco

O vice-chanceler e líder do FPÖ, Heinz-Christian Strache, demitiu-se de todos os cargos na sequência da divulgação de um vídeo comprometedor. Os vienenses saíram à rua a exigir eleições antecipadas e ao fim da tarde a sua vontade foi feita.

A Áustria prepara-se para eleições antecipadas depois de o vice-chanceler Heinz-Christian Strache ter renunciado ao cargo e milhares de pessoas se manifestarem contra a coligação entre conservadores e o partido de extrema-direita até agora liderado por Strache. Segundo a agência APA, o chanceler Sebastian Kurz vai dar por terminada a coligação e levar o país a novas eleições legislativas.

"Apresentei ao chanceler Sebastian Kurz a minha demissão do cargo de vice-chanceler e ele aceitou-a", disse Heinz-Christian Strache, de 49 anos, em conferência de imprensa em Viena. O até agora líder do Partido da Liberdade (FPÖ, extrema-direita) e número dois no governo foi surpreendido com a divulgação de um vídeo no qual discute a adjudicação de contratos públicos em troca de financiamento partidário.

"Eu cometi um erro e não quero que isto seja uma desculpa para enfraquecer a coligação", disse Strache. No entanto, o Partido Socialista (SPÖ) descreveu as alegações como o "maior escândalo" dos últimos 50 anos. O partido liberal NEOS considerou "inevitável" novas eleições. E foi isso que exigiram milhares de pessoas que se concentraraam junto à chancelaria federal para exigir eleições antecipadas.

"Novas eleições" e "renúncia" eram palavras de ordem dos manifestantes, convocados através das redes sociais. "Kurz deve sair" e "Resistência" foram outros dos motes entoados pelos manifestantes enquanto aguardaram pelas declarações do chanceler. Os manifestantes, na maioria jovens, compareceram com bandeiras da União Europeia e cartazes com mensagens como "Este Governo é corrupto", ou "Strache é um neo-nazi".

O "caso Ibiza" surgiu na sexta-feira à noite com a publicação pelos meios de comunicação alemães Süddeutsche Zeitung e Der Spiegel de um vídeo filmado em câmara oculta há dois anos, no qual o chefe do FPÖ e outro dirigente, Johan Gudenus, discutem com uma mulher que diz ser sobrinha de um oligarca russo, a possibilidade de apoio financeiro em troca do acesso aos contratos públicos austríacos, meses antes das eleições legislativas. "Vai ficar com todos os contratos públicos obtidos atualmente pela Strabag", um grupo de construção austríaco, diz o líder do FPÖ.

Álcool e Orbán

A conversa, filmada durante uma noite de bebida numa casa na ilha de Ibiza, centrou-se na hipótese de a investidora russa comprar o tablóide Kronen Zeitung, o mais popular do país, com o objetivo de torná-lo pró-FPÖ.

"Vou construir uma paisagem mediática semelhante à de Orbán", afirmou, referindo-se ao primeiro-ministro húngaro, que tem cerceado as liberdades, como o pluralismo da imprensa. Sobre a hipótese de a redação do Kronen resistir às mudanças, Strachen comentou que "os jornalistas são as maiores prostitutas do planeta".

Ainda assim, Strache diz-se vítima de um "ataque político direcionado" e que, apesar dos comentários "catastróficos" e "irresponsáveis" nega ter cometido algum crime.

Strache descreve também à visitante um mecanismo de financiamento de campanha que lhe permite contornar o Tribunal de Contas através de pagamentos a uma associação e não diretamente ao partido, e que dessa forma receberam doações de 500 mil a dois milhões de euros. Mencionou também os nomes dos grandes patrões austríacos que financiariam o FPÖ.

Antes de chegar ao poder, em dezembro de 2017, coligado com o ÖVP, o FPÖ tinha assinado um acordo de cooperação com o partido de Vladimir Putin, Rússia Unida.

O eurodeputado Harald Vilimsky, cabeça de lista de candidatos europeus do FPÖ, cancelou a viagem a Milão, onde o líder da extrema-direita italiana Matteo Salvini reúne as fações nacionalistas.

Heinz-Christian Strache sucedeu a Jörg Haider como chefe do FPÖ em 2005, e tentou suavizar a imagem do FPÖ, depois de ter frequentado círculos neonazis na sua juventude.

"O escândalo Ibizagate mostra a importância de uma imprensa livre e é a enésima prova de que a extrema-direita europeia está em conluio com os russos para minar as nossas democracias liberais", escreveu no Twitter o líder do grupo liberal no Parlamento Europeu, Guy Verhofstadt.

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