"Continua miúda, vale a pena!" A carta da jornalista morta na Irlanda do Norte para o seu 'eu' de 14 anos

Lyra Mckee foi morta a tiro durante um motim e a sua história correu o mundo. Aos 24 anos, terá redigido uma carta à sua versão adolescente, recordando a paixão que tem pelo jornalismo desde sempre. "Quando os maus momentos voltarem, será o jornalismo que te ajudará a continuar", escreveu.

Lyra McKee tinha 29 anos e era jornalista. Foi morta esta quinta-feira à noite em Londonderry, na Irlanda do Norte, durante um motim, atingida a tiro enquanto observava a confusão desencadeada por operações policiais no bairro de Creggan. Era editora no site Mediagazer, escreveu para a Atlantic e a Buzzfeed. Desde cedo que sonhava com a ideia de ser jornalista e há mesmo quem a descreva como uma 'rising star' na profissão. De acordo com o The Guardian, em 2014, já com 24 anos, redigiu uma carta à sua versão adolescente de 14 anos, onde recorda este sonho, mas também fala da dificuldade em assumir-se como homossexual.

Ao longo de várias linhas, dirigindo-se a si mesma no passado, Lyra conta as represálias que enfrentou na escola ao longo de vários anos por parte dos seus colegas. Relata, contudo, o alívio que sentiu no dia em que, pela primeira vez, contou à mãe qual a sua orientação sexual - por diversas vezes referindo-se a esta como o seu "segredo".

Recorda ainda como o jornalismo era a carreira pela qual sempre lutou, embora todos tivessem insistido noutras opções de vida.

A carta que Lyra escreveu:

«Miúda,

Vai correr tudo bem.

Sei que não te estás a sentir assim agora. Estás sentada na escola. Os outros miúdos estão a gozar contigo. Disseste à pessoa errada que tens uma paixoneta e de repente todos eles sabiam o teu segredo. É horrível. Eles transformam a tua vida num inferno. Riem-se de ti, sussurram sobre ti e chamam-te nomes. Não é bom. E nem podes pedir ajuda a um adulto porque, se fizesses isso, terias de dizer a verdade e não o queres fazer. Eles nunca poderão conhecer o teu segredo.

A vida é tão difícil agora. Todos os dias, acordas a imaginar quem mais descobrirá o teu segredo e o odiará.

Não será sempre assim. Vai melhorar.

Daqui a um ano, participarás num projeto que treina pessoas da tua idade para serem jornalistas. Eu sei as várias carreiras que o professor sugeriu como opção e que rejeitaste, porque soava chato e tudo o que querias fazer era escrever. Mas segue em frente. Pela primeira vez na tua vida, vais sentir-te boa a fazer algo que é realmente útil. [Aí] terás encontrado a tua vocação. Vais conhecer pessoas incríveis. E quando os maus momentos voltaram - para tua informação, a tua primeira namorada não será "a tal" e vais fazer asneiras no exame de história - será o jornalismo que te ajudará a continuar.

Daqui a dois anos, sairás da escola e irás para uma faculdade técnica local. Não te preocupes - farás amigos. Serão os teus primeiros amigos de verdade na idade adulta, aqueles que irão atender as tuas chamadas às 4 horas da manhã. Nos próximos anos, só manterás contacto com Gavyn e Jonny, mas irás lembrar-te dos outros com carinho. Quando tens 17 anos, contarás o teu segredo e eles não se irão importar. Será preciso coragem, mas tu farás isso. O Gavyn vai tornar-se cristão e temerás que ele te odeie, mas numa tarde, receberá uma mensagem com o seguinte: "Isto não muda nada. Sempre serás minha amiga". Aceita-o pelo que ele é como ele te aceitou.

Vais para a universidade, como sempre planeaste, mas vai desistir porque te fará lembrar a escola onde as pessoas eram frias e onde tinhas poucos amigos. O campus é enorme e assustador. Mas esta experiência é a criação do que serás. Estarás a percorrer o teu caminho no mundo pela primeira vez. Devido a isto, conhecerás as pessoas que se tornarão as tuas melhores amigas e que te ajudarão a substituir todas as lembranças más pelas boas. Pela primeira vez na tua vida, vai gostar de ti mesma.

Três meses antes do teu aniversário de 21 anos, contarás à tua mãe o segredo. Vais soluçar e tremer. E ela vai ficar com medo porque não sabe o que se passa. O Natal será daqui a algumas semanas. Precisas de lhe contar, porque conheceste alguém de quem gostas e não podes mais viver com a culpa. Não conseguirás pronunciar as palavras, e então ela diz-te: "És gay?". Ao qual vais responder: "Sim, mãe, peço desculpa." E em vez de ficar chateada, ela vai responder "graças a Deus que não estás grávida".

Vais rastejar no seu colo, ainda a soluçar, enquanto ela te segura e te diz que és a sua filhinha e te perguntar como é que pudeste pensar que alguma coisa faria com que ela te amasse menos? Sentir-te-ás como um prisioneiro que saiu em liberdade. E vais lembrar-te de todas as vezes em que imploraste a Deus para te ajudar porque estavas com medo - e vais sentir-te tão parva porque tinhas nada com que te preocupar.

Dirás aos teus irmãos. Ninguém se vai importar. A Mary abraçar-te na praça de restauração em Castlecourt, enquanto comes KFC, e dir-te-á que está muito orgulhosa de ti. Os outros vão brincar com a situação e dizer que sempre souberam. Todos eles dirão alguma variante de "adoro-te", "estou muito orgulhoso de ti" ou "isto não muda nada".

Vais sentir-te tão sortuda. Viste o James a ser expulso da sua casa depois de ter contado aos pais. Estava na casa de Michael na noite em que a mãe dele disse que iria "tirar o 'gay' dentro dele". Vais sentir-te culpada por seres a sortuda, mas ficará mais fácil no final, mesmo que tenhas passado por um inferno para lá chegares.

Vais apaixonar-te pela primeira vez. E verás o teu coração partido pela primeira vez, sentindo que podes morrer de dor. Mas não vai acontecer. Superarás isto.

Neste momento, estás a perguntar-te a ti mesma se será 'normal'. Tu és normal. Não há nada de errado contigo. Não vais para o inferno. E não fizeste nada para merecer o ódio dos outros.

A vida não só ficará mais fácil, como ficará muito melhor. Vais andar pela rua sem medo. Os adolescentes que nunca conheceste não vão atirar-te para cima ou gritar nomes. Os teus amigos serão os melhores que alguém poderia pedir. Serás convidada para festas. Terá uma vida social. Vais ser amada. As pessoas usarão palavras como "incrível", "fixe" e "espirituosa" para te descrever, e esquecerás as vezes em que aquelas crianças disseram que tu eras "esquisita", "estranha" e um "lesbo" [variante da palavra "lésbica"].

Farás coisas "normais". Passarás tempo com sua mãe, vais trabalhar e pagar as tuas contas contas, vais ao cinema com teu melhor amigo durante toda semana, porque esse é o teu ritual - jantar e depois um filme de ação onde as coisas explodem. Vais apaixonar-te novamente. E vais sorrir todos os dias, sabendo que alguém te ama tanto quanto tu amas.

Continua, miúda. Vale a pena. Eu adoro-te.»

Detidos suspeitos do homicídio

Momentos antes do tiroteio que lhe tirou a vida, a jornalista chegou a publicar no Twitter uma imagem dos motins. "Derry esta noite. Loucura completa", escreveu. Lyra encontrava-se ao lado de um carro da policia, juntamente com outros jornalistas, quando foi baleada.

Este sábado, as autoridades irlandesas detiveram dois jovens, de 18 e 19 anos, suspeitos de estarem envolvidos no homicídio de Lyra McKee. Ambos serão presentes a interrogatório numa esquadra em Belfast. A polícia descreveu o incidente como "terrorista".

Jason Murphy, o polícia que se encontra a liderar a investigação, descreveu a morte da jornalista como "sem sentido" e "aterradora".

Ainda numa vigília que decorreu esta sexta-feira, Sara Canning, companheira da jornalista, recordou-a como uma "defensora incansável e ativista" da comunidade LGBT.

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