Conservadores austríacos ultrapassam pela direita

É em torno de Sebastian Kurz que se jogam as legislativas de hoje. O programa do jovem líder dos conservadores aproximou-o da extrema-direita, com a qual poderá coligar-se

Se há acusação que não se pode fazer sobre as eleições de domingo na Áustria é a de não terem novidades. A candidatura do ministro dos Negócios Estrangeiros, de 31 anos, trouxe um novo elã ao jogo democrático da Áustria, que assiste a um escândalo na campanha social-democratas e à novidade de uma lista populista à esquerda.

Recordemos que o governo que vai sair de cena é uma coligação entre conservadores (ÖVP) e social--democratas (SPÖ), partidos que estavam a sofrer uma enorme erosão de popularidade. A comprová-lo, as eleições presidenciais do ano passado, que opuseram na segunda volta um candidato da extrema-direita (FPÖ) e outro dos Verdes. A repetição das eleições, na sequência de dúvidas sobre o apuramento dos resultados, acabou por dar a vitória a Alexander van der Bellen, mas instalou nos eleitores a sensação de que nem tudo é claro no sistema eleitoral - o que de forma indireta acabou por desgastar a imagem dos partidos há mais tempo no poder.

A ascensão de Kurz foi fulgurante. Como responsável pelos Negócios Estrangeiros respondeu à crise dos refugiados, em 2015, como um dos mais ativos dirigentes europeus na mobilização para o fecho das fronteiras. A forma enérgica como reagiu caiu bem em largas faixas do eleitorado austríaco, preocupado com a imigração em massa e com a islamização da sociedade. Ao mesmo tempo esvaziou em boa parte a agenda da extrema-direita (também, por exemplo, ao mostrar-se contra o casamento gay).

As sondagens comprovam-no. Com a demissão de Reinhold Mitterlehner da liderança do ÖVP e a chegada de Kurz ao poder o partido não parou de subir e o FPÖ, que estava em primeiro, de descer. Na campanha, a imagem do jovem é (quase) tudo e o nome do partido foi alterado para Liste Sebastian Kurz - Die Neue Volkspartei, tal como a cor, de preto para turquesa. Ao seu lado concorrem independentes e figuras conhecidas da sociedade, entre os quais celebridades e atletas. Na forma, o velho ÖVP transfigurou-se, e apresenta-se como se fosse um partido novo; na substância, inclinou-se para a direita.

O personalismo, que analistas políticos dizem ter sido inspirado em Emmanuel Macron, também se estendeu a outras faixas do eleitorado. Peter Pilz, que saiu dos Verdes por ter perdido um lugar elegível nas listas, criou a Liste Peter Pilz. Em pouco tempo arrebanhou descontentes, não só dos Verdes e dos sociais-democratas, mas também de quem não se sentia representado. O populismo de esquerda não só está a roubar nas intenções de voto aos Verdes, mas também ameaça o SPÖ, que foi o partido mais votado nas últimas legislativas. Uma campanha à margem da oficial, baseada em conteúdos racistas e antissemitas atribuídos à FPÖ e à ÖVP, propaganda no Facebook, causou a demissão do diretor de campanha e manchou o partido do chanceler Christian Kern.

Apesar de Kurz ser o favorito a desempenhar o cargo de chanceler, o número elevado de indecisos leva os analistas políticos a não lhe atribuírem já a vitória. Ainda assim, dadas as sondagens, a grande dúvida é saber quem fica em segundo e terceiro entre SPÖ e FPÖ, e qual destes partidos deverá formar coligação com o ÖVP. Com muito pouco a separar conservadores e extrema-direita, esta é a possibilidade mais forte que se apresenta para os corredores do poder em Viena. Até porque Christian Kern já declarou que, se perder, irá para a oposição.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Daniel Deusdado

Estou a torcer por Rio apesar do teimoso Rui

Meu Deus, eu, de esquerda, e só me faltava esta: sofrer pelo PSD... É um problema que se agrava. Antigamente confrontava-me com a fria ministra das Finanças, Manuela Ferreira Leite, e agora vejo a clarividente e humana comentadora Manuela Ferreira Leite... Pacheco Pereira, um herói na cruzada anti-Sócrates, a voz mais clarividente sobre a tragédia da troika passista... tornou-se uma bússola! Quanto não desejei que Rangel tivesse ganho a Passos naquele congresso trágico para o país?!... Pudesse eu escolher para líder a seguir a Rio, apostava tudo em Moreira da Silva ou José Eduardo Martins... O PSD tomou conta dos meus pesadelos! Precisarei de ajuda...?

Premium

arménios na síria

Escapar à Síria para voltar à Arménia de onde os avós fugiram

Em 1915, no Império Otomano, tiveram início os acontecimentos que ficariam conhecidos como o genocídio arménio. Ainda hoje as duas nações continuam de costas voltadas, em grande parte porque a Turquia não reconhece que tenha havido uma matança sistemática. Muitas famílias procuraram então refúgio na Síria. Agora, devido à guerra civil que começou em 2011, os netos daqueles que fugiram voltam a deixar tudo para trás.