Confissões forçadas na TV como propaganda

Relatório de ONG revela como as confissões de detidos transmitidas pela TV são encenadas. Desde 2013, pelo menos 45 pessoas foram forçadas a fazer depoimentos. Uma prática usada como propaganda

A Organização Não Governamental (ONG) Safeguard Defenders divulgou um relatório no qual expõe como são feitas as confissões forçadas de detidos transmitidas pela televisão chinesa.

A ONG, que atua na Ásia, apela à comunidade internacional para pressionar a China a abandonar esta prática. Recomenda sanções, nomeadamente aos administradores da estação pública chinesa, bem como proibições de viagens e congelamento de contas.

No relatório de 106 páginas, a ONG relata pormenores de como as confissões forçadas foram realizadas, através de entrevistas a membros da família dos detidos e depoimentos na primeira pessoa. A polícia escreve os guiões e dirige as filmagens, usada como propaganda da China, refere o trabalho da Safeguard Defenders, intitulado "Scripted and Staged: Behind the scenes of China"s forced TV confessions"

No documento, foram analisados 45 casos de pessoas que foram obrigadas a testemunhar para uma câmara de televisão.

Nos relatos recolhidos, os detidos contam que são vestidos pelos agentes da autoridade, recebem textos escritos que têm de memorizar e até recebem indicações como dizer certas frases ou mesmo chorar. Por vezes, têm de repetir porque o polícia não ficou satisfeito com a filmagem.

De acordo com o relatório, as confissões forçadas são feitas antes dos julgamentos e muitas vezes antes da detenção formal. Ameaças, tortura e medo estão base destes depoimentos filmados, conta a ONG. "Regularmente a polícia usa ameaças (contra os detidos, mas também a membros da sua família), tortura física e mental para produzir um sentimento de medo e coagir a pessoa a confessar", refere o documento.

"Em muitos casos, os meios de comunicação que transmitem estas confissões, participaram no processo ao usar o guião de perguntas da polícia, ao produzir um sofisticado pacote de notícias com gráficos, entrevistas à polícia, a opinião de comentadores que dão o suspeito como culpado quando nem sequer foi acusado de um crime", relata a ONG.

Ativistas pelos direitos humanos e jornalistas independentes estão entre as pessoas obrigadas a confessar perante uma câmara de televisão.

O sueco Peter Dahlin, ativista dos direitos humanos, é um dos casos descritos no "Scripted and Staged: Behind the scenes of China"s forced TV confessions". Foi forçado a gravar um depoimento em que disse que tinha violado a lei chinesa. "Isto não é simplesmente feito pela polícia com o objetivo de fazer propaganda obscura, mas sim feito diretamente pelo Estado como parte da política externa", disse.

"Disseram que a minha atitude era decisiva para que o meu filho fosse salvo. Não sabia o que sentir. Perguntei o que podia fazer para o salvar. Disseram que devia fazer um vídeo para demonstrar a minha boa atitude", relata a advogada de direitos humanos Wang Yu, que, segundo o relatório, foi coagida pelas autoridades a fazer uma confissão filmada.

"Ameaçaram que se eu não cooperasse com eles iria ser condenada a uma pena de prisão, perdia o meu emprego, a minha família e a minha reputação para o resto da minha vida", recorda uma pessoa citada no relatório como Li. "Tinha apenas 39 anos, o meu cabelo ficou branco com a enorme pressão e a tortura daquilo tudo", acrescentou.

Com estes testemunhos e as provas recolhidas, a ONG Safeguard Defenders pretende denunciar o que está a acontecer na China e pressionar a comunidade internacional a agir.

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