Cineasta ucraniano está há 91 dias em greve de fome numa prisão russa

Oleg Sentsov, condenado na Rússia por estar alegadamente a planear atos terroristas na sua nativa Crimeia, está em greve de fome desde 14 de maio. Família e advogado dizem que "o fim está próximo", mas russos negam.

O cineasta ucraniano Oleg Sentsov, condenado a 20 anos de prisão na Rússia por supostamente estar a planear ataques terroristas na Crimeia, entrou hoje no 91.º dia de greve de fome. Segundo a família a sua situação é "catastroficamente má", mas as autoridades russas alegam que o seu estado é "satisfatório".

Sentsov, de 42 anos, foi condenado em agosto de 2015 por um tribunal militar russo acusado de estar a preparar ataques terroristas (incendiar uma delegação de um partido pró-russo e explodir uma estátua de Lenine) na sua nativa Crimeia, após a anexação do território ucraniano por parte da Rússia.

Está detido na colónia penal n.º 8, também conhecida como "Urso Polar", em Labytnangi, na região de Yamalo-Nenets (Sibéria Ocidental). A 14 de maio, começou uma greve de fome para pressionar Moscovo a libertar 64 ucranianos detidos, que apelidou de presos políticos. Desde então, recusa comida, recebendo apenas glucose e suplementos de vitaminas.

Na sexta-feira, o presidente francês, Emmanuel Macron, discutiu o caso de Sentsov com o presidente russo, Vladimir Putin, durante um telefonema, lembrando a "importância de a Rússia encontrar urgentemente uma solução humanitária para a situação". O presidente russo prometeu dar informações sobre o seu estado de saúde.

A mãe de Sentsov, Lyudmila Sentsova, enviou uma carta a Putin, por ocasião do 42.º aniversário do filho (13 de julho), a pedir-lhe que o perdoasse. "Não vou tentar convencê-lo da inocência do meu filho, embora eu acredite nela. Digo simplesmente que ele não matou ninguém", escreveu Sentsova na carta.

Natalya Kaplan, prima do cineasta, escreveu esta semana no Facebook que a sua condição é "catastroficamente má" e que ele lhe disse numa carta que quase não se consegue levantar e que "o fim está próximo". Segundo o advogado, Dmitry Dinze, que o visitou na semana passada, Sentsov terá perdido 30 quilos desde o início do protesto.

Contudo, segundo o Alto Comissariado para os Direitos Humanos da Rússia, que facultou imagens com a data de 9 de agosto, Sentsov está "ativo, vê televisão, lê livros e escreve de tempos a tempos" e o seu estado é "satisfatório". As imagens foram partilhadas no Facebook pela provedora de justiça ucraniana, Lyudmyla Denisova.

Percurso

Mais conhecido pelo seu filme Gamer, de 2011, Sentsov opôs-se à anexação da Crimeia, participando em manifestações e fornecendo alimentos aos soldados ucranianos que estavam retidos pelas tropas russas nas bases militares.

Duas semanas após a anexação (considerada ilegal pela comunidade internacional e uma das razões para a aprovação de sanções contra Moscovo), foi detido pelos serviços secretos russos. Denunciou então ter sido torturado, sufocado com um saco de plástico e ameaçado de violação.

A Amnistia Internacional denunciou o seu julgamento como "um espetáculo estalinista", que envolvia falsas acusações e confissões fruto de tortura. No julgamento, Sentsov negou as acusações e reiterou que "um tribunal de ocupantes não pode ser justo".

O caso de Sentsov atraiu a atenção internacional, com vários políticos e celebridades a pedir a sua libertação, entre as quais os realizadores Pedro Almodóvar ou Wim Wenders, o escritor Stephen King ou o ator Johnny Depp. Uma petição no site da Casa Branca, criada a 9 de agosto, já reuniu mais de 3700 assinaturas.

Rumores de libertação

Este domingo, através do Facebook, a prima de Sentsov disse que não podia confirmar ou negar os rumores de que ele teria sido libertado e estava a voar para Kiev. Isto depois de uma jornalista russa, Victoria Ivleva, da Novaya Gazeta, ter dito que já estaria num avião a caminho da Ucrânia (informação que mais tarde admitu que pudesse ser falsa).

A prima do cineasta pediu para os jornalistas não ligarem para a mãe dele e para, mesmo se souberem que está a ser libertado, não revelarem nada até ele sair da Rússia. "Informação prematura, mesmo sendo verdadeira, pode prejudicar a situação", escreveu.

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