Chamaram-lhe orangotango, ela chamou-lhes racistas. Processaram-na por difamação

A primeira ministra negra que Itália teve vai a tribunal por difamação por ter chamado racista ao partido de Matteo Salvini, depois de um senador a ter comparado a um orangotango e lhe terem mandado bananas num comício. Agora eurodeputada, a acusada prescindiu da imunidade: quer ir a tribunal.

"Quando me atacam, atacam muita gente. É importante para mim ir a tribunal, e certificar-me de que o tribunal não confirma esta acusação. Não apenas por mim mas por todas as pessoas que combatem o racismo em Itália. Querem calar-me. Sou um símbolo em Itália. Um símbolo da imigração, da diversidade."

Quem fala é Cécile Kyenge, 54 anos, ex ministra da Integração de Itália de 2013 a 2014 e atualmente eurodeputada pelo Partido Democrata, em entrevista ao Washington Post, referindo o processo por difamação que a Liga, o partido de extrema direita de Msatteo Salvini, lhe colocou por o ter apelidado de racista.

Kyennge, médica oftalmologista, foi a primeira negra com pasta ministerial em Itália. Mal ocupou o cargo, em abril de 2013, no executivo de Enrico Letta, começou a sofrer ataques racistas, como reconheceu numa entrevista dada à época: "Desde que fui nomeada, recebi ataques racistas todos os dias. Não os considero como ataques pessoais mas ao meu cargo."

"Não é fácil. É a primeira vez que Itália tem uma ministra nascida no estrangeiro. Desde a minha nomeação recebi ataques racistas todos os dias. Não considero que seja ataques a mim mas ao meu cargo."

Entre os ditos, o lançamento de bananas num evento público e a comparação, feita pelo então vice-presidente do Senado, Roberto Calderoli, do partido de extrema direita Liga Norte (hoje Liga, dirigido pelo atual ministro do Interior e vice-primeiro-ministro Matteo Salvini), da governante com um orangotango, tendo na mesma ocasião dito que Kyenge, de origem congolesa e desde 1994 cidadã italiana, faria melhor em ser ministra no seu país (foi acusado por difamação agravada pela discriminação racial). Outro membro do mesmo partido, o eurodeputado Mario Borghezio, disse logo em abril de 2013 que Kyenge queria "impor as suas tradições tribais congolesas" e intitulou a coligação do primeiro-ministro Letta de "governo bongo bongo". "Ela parece ótima para limpar a casa mas não para fazer parte de uma governo", acrescentou. Acabaria por ser condenado a pagar 50 mil euros de indemnização ao seu alvo.

Meses depois, uma político autárquica da Liga, Dolores Valandro, foi expulsa do partido após ter escrito no Facebook, a propósito de uma alegada tentativa de violação em Génova, mencionando Kyenge: "Porque é que ninguém a viola, para que saiba como se sente a vítima de um crime tão atroz?"

Nem Calderoni nem Borghezio saíram do partido, porém. Tão-pouco se demitiram dos cargos. Inquirida sobre se achava que o vice-presidente do Senado se devia demitir, Kyenge disse que não lhe cabia opinar sobre o que ele devia fazer. E quando lhe perguntaram se os italianos são racistas, respondeu: "O que está a acontecer não se deve ao facto de Itália ser racista mas por estar a passar por mudanças e não ter havido políticas para lidar com a situação, ou uma comunicação eficaz que explique o fenómeno da imigração, assim como uma educação sobre a história de Itália. Há racistas em Itália mas os italianos não são todos racistas." Em 2014, num comício em Parma, deu os nomes aos bois, qualificando o partido de Salvini e Calderoni como racista. Em 2016, já eurodeputada, acusou Salvini de "alimentar o ódio contra os imigrantes e o medo nos iltalianos".

"O racismo é central em muito do estamos a ver em Itália hoje. O ressentimento racial é a única agenda política da direita. Eles não sabem falar de mais nada senão de medo. Não têm qualquer sugestão no que respeita a economia ou ao papel do país no mundo."

A Liga, agora no poder num governo de coligação depois de obter 18% nas legislativas, e que faz do assunto imigração o seu principal cavalo de batalha sempre negando ser racista, tentou várias vezes processá-la por difamação. À terceira tentativa, conseguiu: a acusação foi feita na semana passada e o julgamento deverá ocorrer em 2021.

Podendo recorrer à imunidade que lhe é conferida pelo seu estatuto de eurodeputada, Kyenge recusou fazê-lo. E, na citada entrevista, não vacila nas críticas: "Penso que o racismo é central em muito do estamos a ver em Itália hoje. O ressentimento racial é a única agenda política da direita. Eles não sabem falar de mais nada senão de medo. Não têm qualquer sugestão no que respeita a economia ou ao papel do país no mundo."

Kyenge, que emigrou para Itália nos anos 80 para estudar medicina e esteve um ano ilegal no país, considera que existe na Europa um fenómeno que designa de "afrofobia" -- fobia em relação aos africanos . "A Europa tem de desenvolver um plano para combater a afrofobia. É preciso despertar a consciência em relação a este problema. Erradicar este fenómeno, que tem raízes fundas na história, na língua e nas mentalidades, não é fácil. Até porque a afrofobia está a crescer mais e mais por causa da crise migratória, do empobrecimento de uma parte da população europeia, e por causa da especulação mediática e política que alimenta o medo das pessoas", disse em 2016.

O tabu existente em Itália em relação às questões raciais -- como Portugal, o país não permite, nos Censos, a identificação por grupo étnico --, e que se deve em parte à existência, naquele país, no período fascista, de leis discriminatórias em relação a judeus e outros grupos, está longe, considera a ex ministra, de significar que a raça é um não assunto; pelo contrário, torna mais difícil lidar com ele. Por esse motivo, está a ponderar abandonar o parlamento europeu para dedicar ao ativismo legal relacionado com discriminação racial. "Se posso fazer isto por mim, também posso fazer por outros. Racismo é crime. O racismo tem de ser erradicado."

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