Caxemira: foco de tensão entre duas potências nucleares há sete décadas

Um atentado suicida reivindicado por insurgentes do Paquistão que matou 40 militares indianos, a 14 de fevereiro, esteve na origem do intensificar do conflito com confrontos aéreos na região nos últimos dias.

Após anos de escaramuças junto a uma das fronteiras mais militarizadas do mundo, Índia e Paquistão elevaram a tensão militar na dividida Caxemira. Os indianos responderam com um ataque aéreo em território paquistanês ao pior ataque suicida em três décadas, que matou 40 militares, fazendo soar os alarmes na comunidade internacional.

Mas o que é que Caxemira tem para há quase 72 anos estar na origem da tensão de dois países que são atualmente duas potências nucleares, com mais de cem bombas atómicas cada uma?

A culpa é do marajá

As origens do conflito entre Índia e Paquistão, que já por três vezes resultou em guerra aberta, remontam a 1947, quando ambos os países conquistaram a independência do império britânico. Foi criado um país de maioria hindu, a Índia, que se orgulha do seu pluralismo religioso e estabeleceu na Constituição a liberdade de religião como direito fundamental, e um outro país para ser a pátria dos muçulmanos da região.

Alguns reinos semiautónomos tiveram liberdade para escolher de que lado ficar. O marajá de Caxemira, Hari Singh, que era o único hindu à frente de uma área de maioria muçulmana, estava indeciso entre optar pela Índia, pelo Paquistão ou até pela independência e recusou dar a escolha à população. Quando guerrilheiros tribais invadiram a partir do lado paquistanês, o marajá virou-se para a Índia a pedir assistência, assinando um tratado em que se submetia ao controlo indiano em troca de apoio das tropas do país. Foi o início da primeira guerra entre Índia e Paquistão.

Em 1948, o Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovou uma resolução que pedia a realização de um referendo em Caxemira, para determinar a que país a região deveria pertencer, ou se devia tornar-se um estado independente, mas o referendo nunca se realizou.

Após o cessar-fogo em 1949, Caxemira acabaria dividida entre ambos, com uma das mais militarizadas fronteiras do mundo (a Linha de Controlo), desenhada como está hoje com o apoio das Nações Unidas em 1972. A China controla ainda um pedaço da região, que a Índia reclama como sua.

Os dois países voltaram a combater por Caxemira em 1965, voltando a entrar em guerra em 1971 sobre o que acabou por se tornar o Bangladesh. Em 1999 e 2000, depois de tropas paquistanesas terem entrado na Caxemira controlada pelos indianos, os dois países voltaram a entrar em conflito, gerando preocupação internacional.

Em 2003 assinaram um cessar-fogo e houve a promessa do Paquistão de deixar de financiar os separatistas na Caxemira indiana, com a Índia a oferecer-lhes amnistia se deixassem as armas. Os rebeldes, nomeadamente a Frente de Libertação de Jammu e Caxemira, têm estado ativos desde o final da década de 1980, preferindo uma união com o Paquistão ou a independência. A Índia respondeu em força, enviando militares para a região para os travar.

Na Caxemira indiana vivem hoje dez milhões de pessoas, enquanto na Caxemira paquistanesa são mais de três milhões. Cerca de 70% são muçulmanos, sendo os outros hindus, sikhs e budistas. Cerca de 80% da economia é baseada na agricultura, sendo os principais produtos o arroz, o milho, as maçãs e o açafrão. A região dá também nome à lã de Caxemira, sendo esta lã das cabras da região e que é mais forte, leve e suave do que a tradicional lã de ovelha.

Escalar do conflito

É preciso recuar até 14 de fevereiro para perceber o que aconteceu nesta semana. Nesse dia, pelo menos 40 militares morreram num ataque suicida na Caxemira indiana, que foi reivindicado pelo grupo terrorista paquistanês Jaish-e-Mohammad. Os líderes indianos, incluindo o primeiro-ministro Narendra Modi, prometeram vingança.

Essa vingança chegou pelos ares nesta terça-feira, quando alegadamente 12 caças Mirage 2000 da Força Aérea Indiana cruzaram a Linha de Controlo para alegadamente atacar um campo de terroristas perto de Balakot - a cerca de 80 quilómetros da fronteira. Nova Deli alega que matou "um grande número" de militantes, enquanto os paquistaneses negam, dizendo que não havia qualquer campo na região.

Foi a primeira vez desde a guerra de 1971 que um avião indiano cruzou a Linha de Controlo - isso não aconteceu durante a quase guerra de 1999. Segundo a BBC, existe um acordo que proíbe os aviões de se aproximarem até dez quilómetros dessa fronteira e os helicópteros de chegarem mais próximo do que cinco quilómetros. Em 2016, foram lançados ataques aéreos "cirúrgicos" através da fronteira. Os aviões cruzarem a Linha de Controlo é considerado mais grave do que a troca de tiros na fronteira ou até uma "invasão" terrestre.

O Paquistão decidiu responder na mesma moeda e na manhã desta quarta-feira terá lançado um ataque desde o seu espaço aéreo, que terá resultado num combate entre os F-16 paquistaneses e os MiG-21 Bisons indianos, no primeiro combate do género em quase 50 anos, segundo uma análise do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos.

Segundo Islamabad, foram abatidos dois aviões militares indianos, capturando um piloto (não havia pessoal militar capturado desde 1971). Já Nova Deli alega também ter abatido um aparelho F-16, mas os paquistaneses rejeitam ter perdido um avião.

O primeiro-ministro paquistanês, Imran Khan, um antigo jogador de críquete transformado em político que foi eleito há pouco tempo e procura consolidar o seu poder, disse entretanto que os dois lados não podiam lidar com um erro de cálculo face às armas que ambos possuem. Já o chefe da diplomacia paquistanesa, Shah Mahmood Qureshi, acusou Modi de brincar com a estabilidade regional para conquistar votos nas próximas eleições, previstas para abril e maio.

Duas potências nucleares

A Índia e o Paquistão possuem, segundo os especialistas, mais de cem armas nucleares cada (130 a 140 no caso indiano e entre 140 e 150 no caso paquistanês), tendo realizado ambos testes nucleares em 1998. São precisos menos de quatro minutos para que um míssil disparado do Paquistão possa atingir a Índia e Islamabad recusou afastar a hipótese de recorrer ao armamento nuclear, caso considere que está a perder terreno numa eventual guerra convencional.

Os modelos de computados, feitos pelos especialistas, acreditam que o impacto de uma guerra nuclear entre a Índia e o Paquistão, ou até de um único disparo que atingisse uma grande cidade, seria devastador e teria implicações em todo o mundo.

A Índia tem 1,2 mil milhões de habitantes e um exército convencional de 1,4 milhões de soldados. Por seu lado, o Paquistão tem mais de 200 milhões de habitantes e cerca de 650 mil tropas, segundo o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos. Já o Global Fire Power diz que, do lado da Índia, o pessoal militar ascende a 4,2 milhões de pessoas, enquanto no Paquistão não vai além dos 920 mil.

A nível de armamento, a Índia terá à volta de 4400 tanques, frente aos 2200 paquistaneses. Nos ares, os indianos contam com 590 caças, 804 aviões de ataque e 735 helicópteros, enquanto os paquistaneses têm 320 caças, 410 aviões de ataque e 370 helicópteros.

No ano passado, Islamabad gastou cerca de 11 mil milhões de dólares (3,6% do seu PIB) em defesa, frente aos 58 mil milhões (2,1% do PIB) gastos por Nova Deli. A Índia é, segundo o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, o quinto maior país em matéria de gastos de defesa, tendo ultrapassado o Reino Unido.