Caso Skripal gera nova escalada entre a Rússia e o Ocidente

Crise sucede a poucos meses de Mundial de futebol em que Moscovo aposta para afirmar o país no plano internacional.

A história começa no passado dia 4 quando o ex-espião russo Sergei Skripal e a filha, Iulia, são encontrados inconscientes num parque em Salisbury, no Sul de Inglaterra. As primeiras investigações concluem que se tratava de um envenenamento com um agente químico.

Oito dias depois, a 12 de março, a primeira-ministra britânica, Theresa May, disse na Câmara dos Comuns que a substância usada no ataque era um agentes nervoso desenvolvido pela Rússia, identificado como A-234 e conhecido como Novichok. Era "altamente provável" ("highly likely") que a Federação Russa fosse responsável pelo envenenamento - garantia desde logo a chefe do governo de Londres. Não havia outra conclusão possível.

Das duas, uma - explicou a senhora May. Ou se tratava de um uso ilegal da força do Estado Russo "contra o nosso país", ou Moscovo tinha perdido o controlo da substância, permitindo que fosse para outras mãos. Theresa May e o seu ministro dos Estrangeiros, Boris Johnson, iriam mais longe, responsabilizando diretamente Vladimir Putin. O governo de Londres convocou de imediato o embaixador russo e deu ao Kremlin até ao final do dia seguinte para dar explicações.

O Kremlin negou de imediato qualquer envolvimento no caso. Ainda no mesmo dia 12 a Rússia exigiu que o caso fosse de imediato submetido à OPWC (Organization for the Prohibition of Chemical Weapons, Organização para a Proibição das Armas Químicas) e reclamou ainda o acesso aos dados da investigação e nomeadamente às amostras do agente detetado pelos investigadores britânicos, bem como acesso aos Skripal, como cidadãos russos.

Londres rejeitou as exigências de Moscovo. Na ausência de resposta ao ultimato apresentado por Moscovo, o governo britânico anunciou uma série de sanções, incluindo a expulsão de 23 diplomatas russos da Grã-Bretanha e levou o caso ao Conselho de Segurança das Nações Unidas. O caso Skripal transformava-se numa crise política e diplomática. O Kremlin respondeu quatro dias depois expulsando um número igual de diplomatas britânicos e encerrando o British Council.

No dia 14, dois dias depois das acusações de Theresa May a Moscovo, as autoridades britânicas convidaram finalmente a OPWC a realizar uma investigação ao caso, prevendo-se desde logo que o exame da substância em causa duraria várias semanas.

Moscovo procurava, entretanto, desmontar os argumentos do governo britânico. Uma nota emitida pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros, a 21 de março, observava que a celeridade das conclusões sobre a substância em causa implicava que os britânicos disporiam de uma amostra da substância. A mesma nota garantia ainda que os Estados Unidos dispunham do tal Novichok e que o agente tinha igualmente sido desenvolvido pela Grã-Bretanha, pela Suécia e pela República Checa. Em Moscovo comentava-se ainda que haveria, provavelmente, muita gente apostada em saldar contas com Sergei Skripal, nomeadamente nos meios dos serviços secretos, e entre os comentadores russos alvitrava-se mesmo a hipótese de se tratar de uma ação montada por agentes britânicos ou ucranianos.

Olho por olho

O Departamento de Estado norte-americano emitiu uma declaração apoiando os britânicos, mas sem tirar consequências políticas imediatas. Trump telefonava entretanto a Putin para - contra o parecer do seu staff - felicitar o presidente russo pela sua recente vitória eleitoral, e sem fazer qualquer referência ao incidente de Salisbury. Falava-se mesmo de novo encontro entre os dois. A reação dos governos europeus pautava-se pela prudência e por alguma contenção.

Tratava-se de um momento crítico para Theresa May. A juntar aos embaraços domésticos, as negociações do brexit atravessavam dias difíceis e a Grã-Bretanha arriscava-se a ver-se isolada. Uma semana depois, a crise assumia subitamente outras dimensões. A 25 de março, a Casa Branca anuncia a expulsão de 60 diplomatas russos, 48 da embaixada em Washington e mais 12 das Nações Unidas, em Nova Iorque, e o encerramento do consulado russo em Seattle. Em poucas horas tudo se precipita. Vinte e sete países, na maioria membros da União Europeia ou da NATO, anunciam a expulsão de mais de 130 diplomatas russos. A NATO expulsa sete representantes russos e rejeita os pedidos de acreditação de mais três e anuncia a redução da missão da Rússia junto da Aliança de 30 para 20 elementos

Uma verdadeira tempestade diplomática. Trata-se da maior expulsão de diplomatas russos de sempre e, garante-se, uma limpeza em larga escala de agentes da intelligence deste país nas capitais do Ocidente. Boris Johnson saúda a "extraordinária resposta internacional" e Theresa May liga a Trump para agradecer a solidariedade americana. Trata-se com efeito de uma importante vitória diplomática para o governo de Londres.

A esperada retaliação russa viria dois dias mais tarde. Moscovo declarou 58 diplomatas americanos em Moscovo e dois em Ecaterimburgo personae non gratae e anunciou o encerramento do consulado americano em Sampetersburgo. No dia seguinte, a Rússia ordenou a expulsão de um total de 59 diplomatas de 23 países em resposta olho por olho à expulsão dias antes de diplomatas russos.

O chefe da diplomacia russa, Sergei Lavrov, não teve dúvidas. A expulsão de diplomatas russos era resultado de uma "colossal pressão e chantagem" de Washington, observando que alguns países "murmuraram desculpas" antes de expulsar um ou dois diplomatas russos. Os media russos consideraram que o incidente de Salisbury estava a ser usado como um "mero pretexto" e acusaram o Ocidente de "cruzada" contra a Rússia.

O significativo endurecimento da Administração Trump face a Moscovo coincide com mudanças de monta na Casa Branca. A nomeação do antigo chefe da CIA Mike Pompeo para a chefia do Departamento de Estado e a de John Bolton, conhecido como advogado de uma política mais dura face a Moscovo, para conselheiro de Segurança Nacional prenunciam - garantem os analistas - reajustamentos consideráveis na política externa de Washington.

Alto risco

Ao acusar Moscovo de responsabilidades no caso Skripal, Theresa May disse que a família real e o governo britânico não deveriam marcar presença no Mundial de futebol na Rússia, em junho e julho. A imprensa de Londres confirmou, citando fontes da família real, que o príncipe William, conhecido adepto do desporto e que já esteve presente noutros campeonatos do Mundo, não iria a Moscovo. Duas semanas depois, a Islândia anunciou que os responsáveis políticos de Reiquiavique não marcariam presença no Mundial.

A questão assume enorme relevância política. A realização da prova máxima do futebol mundial tem particular importância para a Rússia de Putin num momento de tensão e de confronto com o Ocidente. Um Mundial bem sucedido constituirá um momento de afirmação da Rússia no plano internacional

A eventual ausência da família real britânica ou de representações oficiais dos países em competição não afeta diretamente a prova desportiva, mas não deixa de constituir um forte sinal político e de roubar algum brilho ao evento.

De acordo com o Daily Mail, responsáveis britânicos discutiram mesmo com os aliados europeus a hipótese de um boicote coordenado ao Mundial. Teria mesmo sido discutida a hipótese de a equipa britânica faltar ao Campeonato do Mundo. Há dias o ministro dos Estrangeiros australiano Julie Bishop evocou também a hipótese de um boicote.

Esses apelos não tiveram porém grande eco e a ameaça de um boicote capaz de pôr em causa o próprio Mundial parece fora de causa. No atual quadro das relações entre a Rússia e o Ocidente, o Mundial de Moscovo pode ainda assim transformar-se num momento de tensão.

Um atentado terrorista em plena competição ou mesmo desacatos mais graves entre adeptos bastariam para manchar gravemente a grande ocasião e transformar o Mundial da Rússia num fracasso humilhante para Moscovo e numa potencial crise política e diplomática.

Resta saber se a escalada entre Moscovo e Londres, agora com o apoio assumidos dos Estados Unidos e dos ainda parceiros europeus, ficará pelas retaliações diplomáticas ou se assumirá outras dimensões.

Para já registam-se alguns sinais de contenção. Apesar da crise, Emmanuel Macron mantém a programada visita a Moscovo. E a Alemanha deu aprovação final à construção do pipeline Nord Stream 2, um projeto que suscitou grandes resistências, particularmente da Polónia e da Ucrânia, sinalizando aparentemente a vontade de manter a cooperação com a Rússia.

A crise gerada pelo caso Skripal constitui ainda assim uma situação de alto risco. A situação na Ucrânia continua explosiva. A Rússia e a NATO concentraram um impressionante aparato bélico e multiplicam jogos de guerra no coração da Europa. A nova postura nuclear dos Estados Unidos evoca o cenário de um confronto nuclear limitado e a reação de Moscovo prenuncia uma nova corrida aos armamentos.

A crise das últimas semanas tem inspirado comparações com a era da Guerra Fria. Na era do confronto bipolar, americanos e soviéticos muniram-se de "telefones vermelhos" e outras válvulas de segurança para o caso de uma crise grave. Esses mecanismos não estão hoje disponíveis. E o atual clima de hostilidade entre a Rússia e o Ocidente não garante condições para o diálogo político e o concerto diplomático numa situação de risco iminente.

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