"Aron entendia que as pátrias não se criam nem se dissolvem por decreto"

Entrevista a Carlos Gaspar, do Instituto Português de Relações Internacionais, autor de Raymond Aron e a Guerra Fria, editado pela Alêtheia. O tema é um dos grandes intelectuais franceses do século XX e a sua visão das relações internacionais.

Se houvesse uma única razão para um académico português do século XXI escrever um livro sobre um intelectual francês do século XX, como Raymond Aron, qual seria?

Há imensas razões. No meu caso, a razão mais importante é a minha filiação intelectual. Pierre Hassner, o mestre que me ensinou a pensar sobre a política internacional, era um dos próximos de Raymond Aron. Ele leu e criticou uma primeira versão do meu ensaio sobre o seu mestre antes de morrer e eu entendi que devia publicar este livro.

Em qualquer caso, Raymond Aron é um intelectual exemplar, que fez frente aos demagogos do seu tempo, sem temer ser isolado e marginalizado. Durante a Guerra Fria, os intelectuais bem-pensantes, em França, na Itália ou em Portugal, eram marxistas e revolucionários, defendiam o sistema totalitário soviético e desprezavam os regimes liberais ocidentais. No nosso tempo, os intelectuais bem-pensantes defendem Vladimir Putin como o salvador da Europa e Xi Jinping como o garante da globalização. O exemplo de Raymond Aron é importante sempre que os demagogos nos querem impor as suas simplificações ideológicas.

Ser judeu e estudar na Alemanha nos anos que são os da ascensão do nazismo foi decisivo para moldar o pensamento de Aron?

No princípio dos anos trinta, quando esteve na Alemanha, Raymond Aron era um patriota francês, laico, republicano e socialista, mais do que um judeu: não era, nunca foi religioso e só tomou posição a favor de Israel quando o general De Gaulle, na altura da Guerra dos Seis Dias, insultou os judeus de uma forma grosseira. Mas a tragédia da República de Weimar foi crucial para a formação política de Aron e a ascensão do nazismo decisiva para revelar a sua vocação política. A tomada do poder pelos nazis em 1933 era a prova da vulnerabilidade das democracias liberais, e o regresso da barbárie racista e totalitária, a quem as elites alemãs entregaram o destino de uma grande nação e de uma grande cultura, tornou imperativo o seu combate contra os inimigos da liberdade que vão ser os responsáveis pela guerra, pelo genocídio dos judeus e pela destruição da Europa.


Apesar de ter estado com a França Livre de Charles de Gaulle, Aron fica para a história muito mais como um pensador do que como um homem de ação. Teria o mundo ganho se, além do jornalismo, do ensino e da teoria produzida, tivesse havido intervenção política prática?

Raymond Aron sempre quis aliar o pensamento e a ação e subordinou sempre os seus escritos a uma ética da responsabilidade, que entendia dever ser obrigatória tanto para os responsáveis políticos como para os intelectuais, ou os "filósofos públicos", como gostava de se classificar a si próprio.

A sua intervenção como pensador, como polemista e como jornalista é intensamente política. Desde 1947, Aron escreve todas as semanas na imprensa, intervém em todos os debates políticos e ideológicos, toma posição em todas as questões decisivas na política interna francesa - a Guerra da Argélia, Maio de 1968, o "Programa Comum" das esquerdas - e da politica internacional, desde a crise de Berlim à Guerra da Coreia, à Guerra do Vietname ou à revolução portuguesa. A sua ação política não podia ter sido mais pertinente e eficaz.


A França, durante a Guerra Fria, fosse com De Gaulle ou com Mitterrand, procurou sempre estar com a América q.b., nunca fechando portas ao diálogo com a União Soviética. De que forma Aron entendia, ou partilhava, desta atitude?


Raymond Aron nunca partilhou o antiamericanismo nacionalista do general De Gaulle, que François Mitterrand também não partilhava. De resto, Aron elogia o discurso do presidente Mitterrand no Bundestag, quando o chefe de Estado francês vai explicar aos deputados alemães que os pacifistas estavam no Ocidente, enquanto os mísseis estavam instalados na Europa de Leste - e diz que De Gaulle nunca poderia ter tomado essa posição a favor da NATO. Pela sua parte, Aron sempre defendeu a aliança ocidental e, mesmo, tal como André Malraux, uma civilização atlântica, herdeira dos valores da liberdade.


Aron, pela história de vida e pela personalidade, era um europeu, ou um europeísta, mas não um federalista. As crises atuais da União Europeia dão-lhe alguma razão a posteriori?

Raymond era um patriota francês e um europeu, não e nunca foi era um federalista. Aron entendia que as pátrias não se criam nem se dissolvem por decreto, e disse uma vez que as comunidades europeias e a aliança atlântica eram uma "criação contínua". É uma boa lição para responder às crises da integração europeia e ocidental.

Há quem olhe para o mundo anglo-saxónico hoje como a única referência intelectual, ou pelo menos pense que só o que é publicado em inglês interessa. Há ainda intelectuais franceses, a publicar em francês, capazes de ter o impacto que tinha Aron?

Raymond Aron foi reconhecido na universidade norte-americana como um dos fundadores da teoria clássica das relações internacionais. Quando ele morreu, Henry Kissinger, que era seu amigo, escreveu o seu elogio num texto cujo título era My Teacher. A cultura humanista ocidental não tolera nenhuma hegemonia e nenhum provincianismo.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Saúde

Empresa de anestesista recebeu meio milhão de euros num ano

Há empresas (muitas vezes unipessoais) onde os anestesistas recebem o dobro do oferecido no Serviço Nacional de Saúde para prestarem serviços em hospitais públicos carenciados. Aquilo que a lei prevê como exceção funciona como regra em muitas unidades hospitalares. Ministério diz que médicos tarefeiros são recursos de "última instância" para "garantir a prestação de cuidados de saúde com qualidade a todos os portugueses".