Alberto Carvalho, o português que está a mudar a Educação nos EUA

A 28 de fevereiro, o superintendente das escolas do terceiro maior agrupamento americano era chamado a dirigir o sistema educativo de Nova Iorque, o maior do país. Recusaria o cargo para continuar o trabalho em Miami-Dade, a uma vida de distância do Bairro Alto, onde cresceu - mas sempre consciente do que é viver com muito pouco, até sem um teto

O discurso cheio de sentimento de Max Sultz, de 12 anos, que Alberto Carvalho abraça na fotografia de capa desta edição, foi apenas uma amostra do carinho que Miami-Dade tem pelo homem que trocou o Bairro Alto por Miami há mais de três décadas. Não é à toa. O homem que há dez anos se senta na cadeira de superintendente do sistema educativo das escolas públicas daquele estado mudou as vidas de muitas famílias e continua a fazê-lo todos os dias, indiferente a quão impopular isso o faça à luz das atuais políticas norte-americanas. É por isso que não podiam deixá-lo sair, mesmo quando o mayor Bill de Blasio o escolheu para liderar o departamento de Educação de Nova Iorque. O seu gabinete montou-lhe o que se pode chamar uma boa armadilha - um desfile de miúdos, jovens, mães e pais a declarar a importância de Alberto na vida que tinham conseguido - e em menos de 12 horas estava a recusar o convite para subir a Nova Iorque. O que não espanta por aí além quando se conhece este lisboeta nascido num Bairro Alto nos seus piores anos, um entre os seis filhos de uma costureira e de um zelador que não foram além do terceiro ano mas a quem reconhece ainda imensa sabedoria.

"Eu não seria filho dos meus pais se escolhesse o caminho mais fácil só pelo título que ganharia", diz-me quando nos encontramos no seu gabinete e lhe pergunto porque tem sempre recusado uma carreira política. "Faço muito mais diferença no lugar que ocupo. Sei que facilmente ganharia se me candidatasse, mas como congressista seria um entre 435. Aqui tenho o poder executivo, à frente do terceiro maior sistema educativo do país (depois de Nova Iorque e Los Angeles)."

Noutros tempos, Alberto Carvalho foi o único dos irmãos a conseguir chegar ao fim do liceu - anos mais tarde, seria ele a ajudar o irmão dez anos mais novo a fazer a faculdade e tornar-se dentista em Lisboa, onde ainda vive a família. E a sonhar ir muito mais longe do que o mundo que via das águas-furtadas onde sempre vivera. Hoje, fala do que nunca poderia ter sonhado. "A nossa economia tem um excedente de seis mil milhões de dólares, temos 1,2 mil milhões para construir escolas - graças a um referendo popular que submeti a votação e 77% das pessoas aceitaram pagar mais impostos para isso, porque acreditaram."

A sua história vai-se confundindo com as das muitas famílias que influenciou pelo caminho. Mesmo porque nunca quis afastar-se das raízes que continuam a defini-lo como Alberto. Só assim. "Foi o que os meus pais me chamaram, é o que sou." E de facto não é só uma coisa que achou que ficava bem dizer - a maior prova disso é que não tem entre os seus conselheiros apenas pessoas do topo da pirâmide, antes pelo contrário. "Rodear-se exclusivamente dos que estão no nosso nível de poder é uma estupidez, porque nos afasta daqueles a quem servimos. E eu sirvo crianças, adultos, toda esta comunidade, por isso todos os dias me reúno com pessoas de diferentes níveis da estrutura que têm cabeças incríveis e podem realmente ajudar-me, acho importante receber conselhos de todos", diz-me antes de me contar que ainda há pouco, a caminho do almoço, se sentou a conversar com um sem-abrigo, um velho veterano de guerra que recusava ir para um abrigo por ter medo dos loucos que por ali proliferavam. "Com ele aprendi mais sobre o que fazer: entrei no carro e liguei ao mayor para lhe dar conhecimento desse problema e da necessidade de dar resposta."

Serve o exemplo para reforçar que é importante poder cumprimentar os reis de Espanha (mostra a fotografia da visita) ou Obama, "mas esse brilho hollywoodesco não nos pode fazer desligar daquilo que fazemos, de como e quem servimos". Essa noção, deve-a aos pais. "O meu pai não tinha estudos mas era inteligentíssimo e disse-me: "Alberto, não importa onde estejas, estás lá." Na altura não entendi, mas agora percebo-o: eu podia ser o que quisesse, educar-me (tenho cinco diplomas, mas não lhes dou verdadeiro valor, porque basta um paper para os conseguir), ter dinheiro, influência, poder, vestir-me de forma diferente, mas no essencial somos todos iguais. A alma e o intelecto não têm etiquetas. É muito importante perceber isso, sobretudo quando se está na escada do poder político, económico, profissional."

Lamenta ter visto demasiados políticos afastar-se do caminho e assume que essa é a sua batalha: não se deixar mudar, não se afastar de quem é. E ele é alguém que luta para melhorar a vida das pessoas à sua volta, mesmo que isso o impeça de ser convidado na Casa Branca. "Acho que tão cedo não vou ser", ri-se. E no entanto, já foi visitado pelos secretários da Educação, da Saúde e do Trabalho de Donald Trump. "Porque todos procuram soluções e nós provámos que conseguimos muito."

Numa comunidade cuja taxa de pobreza chega aos 75%, em que uma gorda fatia da população nem sequer fala inglês, as taxas de sucesso escolar e as notas conseguidas nos exames estão entre as melhores do país. Resultados conseguidos com muito trabalho. "Quando eu cheguei aqui, despedi três quartos dos diretores de escolas - nessa altura não era muito popular... - porque eles tinham sido nomeados apenas por cunhas, por conhecerem alguém." E se alguém conhece o poder do mérito e o que a educação pode fazer pelo futuro de uma criança é Alberto Carvalho.

Tinha 17 anos quando desembarcou sozinho nos Estados Unidos, em Manhattan, e quatro horas depois de chegar estava enfiado numa cozinha a lavar pratos e panelas para ter dinheiro para comer. Pouco depois conseguiu um emprego nas obras, a acartar sacas de cimento, tijolos e o que mais lhe fosse pedido. Mas foi quando o seu visto expirou que tudo piorou: menor, sozinho e agora ilegal, somava-se à lista de milhares de sem-abrigo a viver nos Estados Unidos - a forma como recuperou desses tempos fez dele um exemplo a seguir, tendo mesmo sido reconhecido no ano passado pelo Homeless Trust de Miami-Dade County. "Dormi na rua, debaixo da ponte, durante mês e meio, por isso sei exatamente o que é ter o chão como colchão e as estrelas como cobertor. Mas não trocaria a minha infância pobre e as dificuldades que passei por coisa nenhuma." A razão é simples. É essa experiência que lhe dá a certeza de que todos os miúdos são inteligentes, e se alguns falham é pela estupidez dos adultos. "Já vi muitos adultos quebrarem o espírito, os sonhos e as paixões de crianças e o meu trabalho tem sido sempre o de desconstruir os sistemas, torná-los mais humanos, flexíveis e inteligentes."

A liderar o maior distrito educativo do estado e o terceiro maior do país - é o único superintendente de uma área que tem 35 mayors -, Alberto consegue hoje influenciar positivamente a vida de 346 mil alunos, 150 mil seniores e 52 mil trabalhadores. A principal razão do seu sucesso? A permanente insatisfação. "Sempre que recebemos um prémio não ficamos ali a falar de como foi bom, antes discutimos onde não conseguimos exceder-nos e como lá podemos chegar. Temos uma taxa de graduação de 84%, acima da dos distritos mais ricos, mas eu concentro-me sempre naqueles 16% que não conseguiram. É assim que se progride, com o descontentamento permanente, com irreverência. Eu quero que me tratem como o Alberto, quero que sejam honestos comigo, que me digam onde errei e não que me deem palmadinhas nas costas, porque isso não ajuda ninguém. Hoje, a sociedade - aqui como em Portugal - preocupa-se muito com esses incentivos positivos, mas só com algum grau de controvérsia e divergência é que se evolui." É por isso também que Alberto continua a procurar conselho em todos, desde a administração onde se senta aos motoristas dos 1200 autocarros que servem as suas escolas.

De resto, no que lhe diz respeito, vai continuar a remar contra a maré. "Nós alimentamos aqui mais miúdos por dia do que todos os McDonald"s, Burger King e Wendys juntos. Damos almoço e pequeno-almoço de graça, sem fazer perguntas, foi algo que impus porque sei, sobretudo agora, que há imensas crianças que não têm documentos e têm medo que as suas famílias sejam descobertas. É importante que elas comam para serem saudáveis e conseguirem concentrar-se e aprender. Por isso lutei contra todas essas ideias loucas." Em 2014, Alberto Carvalho fez mais: ameaçou sair do lugar se Daniela Pelaez, uma adolescente a caminho de ser deportada, fosse corrida dos Estados Unidos. A jovem foi a melhor aluna do ano. Já nesta administração, quando se falou na possibilidade de entidades federais entrarem nas suas escolas, respondeu alto e bom som: "Over my dead body."

"Não importa quem somos, há alturas em que temos de tomar posições", explica. "E esta, sobretudo, não é altura para se evitar confrontos por medo de ser inconveniente." O superintendente, que já perdeu a conta aos miúdos sem-abrigo que adotou e a quem patrocinou os estudos, sabe do que fala. E recorda quando os EUA enviaram 50 mil haitianos de volta para o seu país. "O meu melhor amigo é um padre católico haitiano e eu estava no Haiti nessa altura - é o único sítio fora dos Estados Unidos em que faço trabalho humanitário -, e o que vi foi horrível. Não há justificação para mandar pessoas de volta para a pobreza e a fome. Ficar calado perante isto não me deixaria olhar-me no espelho de manhã."

Alberto Carvalho: Perfil

Nasceu em setembro de 1964 no Bairro Alto, em Lisboa, numa família de seis irmãos espartilhada numa casa com apenas um quarto e sem água ou luz. Aos 17 anos, com o liceu terminado e vontade de conhecer o mundo, embarcou sozinho para os EUA, onde trabalhou em cozinhas e nas obras antes de o visto expirar e se tornar ilegal. Durante um mês e meio, dormiu na rua, até um professor lhe mudar a vida: ajudou-o a legalizar-se, a estudar. Passou pela Broward College e pela Barry University e em 1990 formava-se em Biologia. Professor de Físico-Química no liceu Jackson Senior, tornou-se vice-diretor e foi ascendendo até superintendente das escolas de Miami-Dade, que ocupa desde 2008

*Na Florida

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