A tática dos eleitores de Bolsonaro no Whatsapp

É uma das armas da campanha do capitão reformado, que lidera as pesquisas. A Folha acompanhou na última semana 123 grupos abertos de apoiadores de Bolsonaro no Whatsapp.

"Entre nessa corrente para chegarmos a todos os cantos do Brasil", diz o texto da mensagem enviada por WhatsApp de apoiadores de Jair Bolsonaro. O convite é para quem já está num grupo à favor do candidato do PSL e sugere que ele entre em outro, também com propaganda do candidato à Presidência da República.

A tática de replicar grupos e, consequentemente, atingir o maior número de usuários do WhatsApp é uma das armas da campanha do capitão reformado, que lidera as pesquisas de intenção de votos --com 59% dos votos válidos, segundo o Datafolha -para a Presidência da República.

Não há irregularidade se a ação for de forma voluntária sem pagamento ou contratação de agências. Na quinta-feira (18), a Folha revelou que empresas estão comprando pacotes de disparos em massa de mensagens contra o PT no WhatsApp. A prática é ilegal, pois se trata de doação de campanha por empresas, vedada pela legislação eleitoral, e não declarada.

A Folha acompanhou na última semana 123 grupos abertos de apoiadores de Bolsonaro no aplicativo de troca de mensagens. A estratégia de replicar conteúdo de apoio ao candidato do PSL e contrário à candidatura de Fernando Haddad (PT) segue um padrão comum.

Dentro de grupos já criados, os usuários são convidados para outros. Um mesmo número de celular, do Rio de Janeiro, aparece como criador de grupos de WhatsApp para eleitores de Bolsonaro em cada estado.

A Folha tentou entrar em contato com o número criador, mas ninguém atendeu às chamadas. Voluntários assumem a administração do grupo. Até 256 pessoas podem estar recebendo as mensagens, limite imposto pela empresa do aplicativo de troca de mensagens.

"Me convidaram e aceitei ser administrador", diz José Raimundo, 43, que cuida de um grupo criado para eleitores paulistas do capitão reformado. "A gente sofreu um ataque de um grupo de esquerda. Um entrou e começou a mandar imagens pornográficas para nos prejudicar".

Eleitor convicto de Bolsonaro, Raimundo diz que sua função é cuidar e expulsar quem entrar para "criar confusão" no grupo. Afirma também que controla a divulgação de fake news. "Nunca vi aqui", diz.

No grupo, o vídeo em que Fernando Haddad (PT) sai de uma Ferrrari foi compartilhado. Uma mensagem enviada diz que o carro seria do ex-prefeito de São Paulo, o que não é verdade. A imagem é de 2016 e foi feita na inauguração do autódromo de Interlagos.

Uma montagem com uma imagem de Dilma Rousseff criança com o ditador cubano Fidel Castro (1926-2016) também foi repassada.

Panfletos favoráveis a Bolsonaro se misturam com fake news e links de reportagens críticas ao PT. Brotam vídeos que prometem a verdade que você sempre quis saber.

Para a divulgação de vídeos, eleitores do candidato do PSL usam também outra estratégia. Criam listas de transmissão, onde somente o administrador pode publicar. Carlos Nacli é quem lidera essa ação. O empresário, que mora em Portugal, é ligado ao grupo Nas Ruas, que ganhou corpo em 2013 e tem como presidente a deputada federal eleita Carla Zambelli (PSL-SP).

"Diretamente abordamos 10.000 pessoas de todas as partes do Brasil. Daí elas replicam e acaba viralizando na rede WhatsApp", afirmou ao El País. Nacli disse que não daria entrevista para Folha.

Segundo pesquisa Datafolha, 6 em cada 10 eleitores do Bolsonaro afirmam ler notícias compartilhadas no aplicativo de troca de mensagens. Esse índice é menor entre os eleitores de Fernando Haddad, vice-líder na pesquisa de intenção de votos --38% dos eleitores do petista afirmam consumir informações replicadas no aplicativo.

O WhatsApp tem 120 milhões de usuários no Brasil. Essa amplitude no alcance criou um fenômeno inédito de influência do aplicativo na eleição, segundo Mariana Valente, diretora do InternetLab e doutora em sociologia jurídica pela USP.

A pesquisadora lembra que a estrutura de apoiadores do candidato começou a se formar em 2013, após a onda de protestos em junho daquele ano. Eles adotam um comportamento que ela classifica como multiplataforma.

"Se articulam em grupos de WhatsApp, mas atuam em outras redes sociais. Nas conversas no aplicativo articulam movimentos coordenados, como comentários em vídeos do YouTube e no Facebook. Há orientações para cada plataforma", explica.

Valente vê uma atuação voluntária dos eleitores do capitão reformado. O que não quer dizer amadora na produção dos conteúdos, segundo ela.

Os grupos replicam material criado com montagens, sem citação de fontes e, muitas vezes, com referências falsas. A origem desses textos, vídeos e imagens é desconhecida. Não há nos grupos a divulgação de quem produz o conteúdo replicado.

Estudos do professor do MIT (Massachusetts Institute of Technology) Deb Roy, publicado em maio na revista Science, comprovam que notícias falsas circulam muito mais depressa e de maneira mais abrangente do que as verdadeiras nas redes sociais.

Os levantamentos também constataram que a mentira possui um estilo de redação distinto da verdade --a mentira usa linguagem simples e direta e apela para sentimentos básicos, como medo e raiva.

Reações às notícias falsas tendem a expressar desgosto, temor e surpresa. Por sua vez, notícias verdadeiras costumam gerar comentários de apreensão, tristeza, alegria ou confiança.

Um levantamento em conjunto da USP, UFMG e da Agência Lupa analisou o grau de veracidade de 50 imagens que mais circularam em grupos de WhatsApp entre os dias 16 de agosto e 7 de outubro de 2018, período de campanha do primeiro turno. Segundo o estudo, apenas quatro imagens eram verdadeiras.

*Artigo originalmente publicado na Folha de São Paulo

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