Impeachment. Novas mensagens revelam pressão dos EUA à Ucrânia para investigar Biden

Democratas revelaram mensagens de texto, no âmbito do processo para a destituição de Donald Trump, que mostram que diplomatas norte-americanos pressionaram a Ucrânia a investigar o ex-vice-presidente e o filho. Uma visita do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, à Casa Branca estava dependente da colaboração

Uma troca de mensagens de texto revela que diplomatas dos EUA pressionaram a Ucrânia para investigar o ex-vice-presidente norte-americano, Joe Biden, e o seu filho, Hunter. Uma visita do presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, à Casa Branca para se encontrar com Donald Trump estaria dependente desta colaboração. Novas revelações que dão força ao processo de destituição que o presidente dos EUA enfrenta.

As mensagens foram reveladas quinta-feira pelos democratas na Casa dos Representantes, no âmbito da investigação de impeachment (destituição). Um processo que pretende determinar se o presidente dos EUA pressionou a Ucrânia a investigar o seu adversário político, Joe Biden, candidato à nomeação democrata para as eleições presidenciais de 2020, bem como o seu filho e as ligações deste à empresa de gás ucraniana Burisma.

Kurt Volker, diplomata norte-americano que desempenhou o cargo de representante especial de Donald Trump para a Ucrânia, foi incluído na investigação para o impeachment e na quinta-feira foi ouvido à porta fechada pela Comissão dos Serviços Secretos. Volker foi quem transmitiu as mensagens às três comissões da Câmara dos Representantes.

O processo de destituição, desencadeado pelos democratas, tem como base uma chamada telefónica entre Donald Trump e o seu homólogo ucraniano, Volodymyr Zelensky, a 25 de julho, na qual o presidente dos EUA pede que a Ucrânia investigue Joe Biden e o filho e as ligações à empresa Burisma.

Horas antes do telefonema, Volker disse a um consultor do presidente ucraniano que uma reunião entre os dois líderes estaria relacionada ao acordo de Kiev para investigar a eleição de 2016 nos EUA, segundo as comissões da Câmara dos Representantes.

As mensagens reveladas indicam que os diplomatas norte-americanos deixaram bem claro que uma melhoria nas relações entre Washington e Kiev dependeria da colaboração de Zelensky em encontrar material que prejudicasse o filho do seu adversário político.

"Ouvido da Casa Branca - supondo que o presidente Z convença Trump que ele investigará / 'entenderá o que aconteceu' em 2016, definiremos a data da visita a Washington", escreveu o antigo representante do presidente dos EUA para a Ucrânia, antes do telefonema de 25 de julho.

Mensagens entre Andriy Yermak, o assessor do presidente ucraniano, e Volker revelam esforços para marcar uma data para a reunião Trump-Zelenskiy e para emitir uma declaração de Kiev anunciando um reforço das relações, juntamente com as investigações sobre Burisma e as eleições de 2016.

Veja as mensagens divulgadas pelo The Guardian.

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Diplomatas dos EUA chegaram a combinar uma declaração para o presidente ucraniano ler

Numa troca de mensagens, feita em setembro, outro diplomata dos EUA na Ucrânia escreveu que era "louco" reter ajuda militar para o país ao enfrentar a agressão russa, de acordo com cópias das mensagens divulgadas pelos presidentes democratas do painel, que observaram "graves preocupações ".

Também foram reveladas mensagens do advogado pessoal de Trump, Rudy Giuliani, que desempenhou um papel importante nas negociações do governo com Kiev

William Taylor, embaixador interino dos EUA na Ucrânia, e Gordon Sondland, embaixador norte-americano na União Europeia, são os outros diplomatas que também trocaram mensagens com representantes da Ucrânia.

Taylor e Sondland chegaram a abordar a declaração que Zenesky emitiria de apoio à investigação.

Também foram reveladas mensagens do advogado pessoal de Trump, Rudy Giuliani, que desempenhou um papel importante nas negociações do governo com Kiev.

As conversas mostram que o Estado estava empenhado em usar a presidência para pressionar um governo estrangeiro a investigar um adversário político de Trump.

"Quando tivermos uma data, vamos marcar uma conferência de imprensa para anunciar a visita e mostrar a nossa visão para renovar a relação EUA-Ucrânia, entre outras coisas, Burisma e investigações sobre interferência nas eleições", escreveu Yermak. "Parece-me bem", respondeu Volker.

Mas há mais nas conversas agora divulgadas. "Falei com Zelensky e dei-lhe um briefing completo", escreveu Sondland a Volker, indicando que esteve a treinar o presidente ucraniano para a chamada de 25 de julho com o presidente Trump.

Volker respondeu: "O mais [importante] é que Zelensky diga que ele vai ajudar na investigação - e resolverá questões específicas de pessoal - se houver", lê-se na mensagem.

"Estou preocupado com a corrupção. Não estou preocupado com a política", diz Trump

O teor destas mensagens reforça os argumentos dos democratas no processo de destituição, que foi anunciado por Nancy Pelosi, a presidente da Câmara dos Representantes.

Entretanto, Donald Trump já veio dizer que o seu apelo para que os governos da Ucrânia e da China investiguem as atividades do filho de um seu adversário político não tem motivação política.

Nas vésperas de mais uma ronda de negociações EUA/China para tentar resolver a guerra comercial entre os dois países, que se arrasta há mais de um ano, Donald Trump afirmou quinta-feira que as autoridades chinesas deviam investigar as atividades junto do Banco da China de Hunter Biden, filho do ex-vice-Presidente e atual candidato nas primárias Democratas, Joe Biden.

Em declarações aos jornalistas, Trump explicou que o seu apelo não interferirá nas negociações comerciais com dos EUA com a China e repetiu a ideia de que a sua motivação para as investigações não é política.

"Uma coisa não tem nada a ver com a outra", disse o presidente norte-americano, referindo-se ao caso, em que está a ser acusado pela maioria Democrata na Câmara de Representantes, de ter pressionado o presidente da Ucrânia para investigar alegada corrupção na atividade de Hunter Biden com uma empresa ucraniana, que suscitou um inquérito para destituição, a que se seguiu um desafio à China para fazer uma outra investigação sobre as atividades do filho de Joe Biden com o Banco da China.

Trump diz acreditar que o Governo chinês saberá distinguir as questões e aproveitou para dizer que o seu apelo não tem motivações políticas.

"Estou preocupado com a corrupção. Não estou preocupado com a política", disse Trump aos jornalistas, para explicar os apelos ao presidente da Ucrânia, Vladimir Zelenskiy, e o desafio que deixou ao governo chinês.

"Acho que houve tremenda corrupção com Biden", acusou Trump, referindo-se ao envolvimento da família Biden com a empresa ucraniana e com o banco chinês.

Contudo, o presidente e recandidato pelo Partido Republicano diz que esta sua acusação nada tem a ver com questões políticas, acrescentando que nunca acreditou que Joe Biden possa vencer as eleições primárias no Partido Democrata, para ser o seu rival nas eleições presidenciais de 2020.

Trump não colabora no processo de destituição sem uma votação formal no Congresso

O presidente dos EUA já fez saber que a Casa Branca não colaborará com os democratas no inquérito de destituição sem uma votação formal no Congresso (Câmara dos Representantes e Senado).

Donald Trump anunciou que irá enviar uma carta a Nancy Pelosi desfiando-a a não avançar com o processo de 'impeachment' sem a aprovação de uma maioria na Câmara de Representantes.

Trump reconhece, no entanto, que a maioria democrata na Câmara de Representantes poderá fazer seguir o processo para o Senado (onde os artigos de destituição teriam de ser aprovados, havendo aí uma maioria republicana, para que o presidente pudesse ser removido do cargo), mas considera que este processo pode "sair-lhes pela culatra".

"Eu acredito que eles (democratas) vão pagar um preço tremendo pelo inquérito", explicou Donald Trump, repetindo que não fez nada de inapropriado no telefonema ao presidente ucraniano e que todo este caso tem motivações políticas, para prejudicar a campanha para a sua reeleição em 2020.

Na quinta-feira, Pelosi enviou uma carta ao líder da minoria republicana na Câmara de Representantes, Kevin McCarthy, explicando que "não há na Constituição ou nas regras da Câmara exigência" para uma votação formal, antes de avançar com um inquérito de destituição.

Os analistas dizem que Pelosi, na verdade, evitou uma votação na Câmara para impedir ter de obrigar os democratas mais moderados, que não estão totalmente confortáveis com este inquérito, a uma votação arriscada.

A reação de Pelosi

Contudo, a carta que Donald Trump anunciou esta sexta-feira que enviará para Nancy Pelosi deverá deixar claro que sem uma votação formal a Casa Branca dificilmente autorizará a divulgação de elementos necessários para apuração dos factos relacionados com o caso ucraniano.

"O Congresso não deve renunciar ao dever de defender a Constituição, já que Trump ignora as advertências dos fundadores sobre interferência estrangeira a todo momento", reagiu Nancy Pelosi na rede social Twitter.

Com Lusa e Reuters.

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