Imigrantes desistem de aborto por medo de deportação nos EUA

Mulheres também têm adiado ou cancelado consultas de pré-natal após ofensivas de Trump

Elas estão com medo. Algumas temem ser paradas por patrulhas da fronteira durante o percurso. Outras dizem ter visto agentes de imigração estacionados em frente a hospitais e clínicas de aborto. Então, desistem, relata a Folha de São Paulo.

A política anti-imigração do governo Donald Trump tem feito com que mulheres sem documentos para permanecer nos EUA cancelem ou adiem consultas relativas a aborto por medo de deportação.

Organizações que dão assistência à saúde da mulher confirmam o aumento de desistências de procedimentos agendados em Texas e Novo México, na fronteira com o México, onde o aborto é legal.

Segundo elas, ativistas são testemunhas de que a promessa de deportação em massa feita pelo presidente em julho tem impacto no acesso de imigrantes a cuidados médicos.

"A retórica de Trump teve efeito inibidor sobre nossas comunidades imigrantes, que têm medo de circular livremente. Isso tem impacto na capacidade de procurar todo tipo de cuidados, inclusive serviços de aborto e outros de saúde reprodutiva", afirma Ann Marie Benitez, diretora do Instituto Nacional Latina para Saúde Reprodutiva.

"As nossas ativistas têm recebido telefonemas, ouvido histórias e falado com pessoas na região do Lower Rio Grande Valley [no sul do Texas] com medo de ir a consultas pela presença de agentes da fronteira em suas rotas e porque dizem ter visto agentes do ICE [Agência de Imigração e Alfândega] parados do lado de fora das clínicas."

A organização de Benitez - com unidade no Texas e em mais três estados, além da capital, Washington - auxilia imigrantes latinas de todo o país no acesso a serviços e procedimentos de saúde.

O aborto é legal nos EUA desde 1973, mas leis estaduais podem restringir ou vetar a prática. O Texas tem 18 clínicas de aborto, todas elas em grandes cidades - fazendo com que mulheres em pequenos municípios ou áreas rurais tenham de viajar longas distâncias até uma delas.

De acordo com a lei do estado, quem vai realizar o aborto só pode fazê-lo 24 horas após o aconselhamento de profissionais - com exceção de pacientes que vivem a mais de 160 Km da clínica.

"Com esse prazo, ela é forçada a passar mais tempo fora de casa, conseguir folga no trabalho, um lugar para dormir e alguém para cuidar dos filhos", diz Sarah Lopez, coordenadora da Fund Texas Choice, que auxilia imigrantes que vão fazer aborto no estado.

Lopez diz que notou um pico no número de mulheres que não responderam ou cancelaram consultas nos últimos meses, mas diz que não faz perguntas sobre o motivo que as levaram a mudar de ideia, o que considera invasivo.

"Dito isso, é possível que algumas delas tenham medo de cruzar o estado diante das patrulhas de agentes imigratórios."

A ofensiva anti-imigrantes feita por Trump inclui uma megaoperação em que a ICE deportaria cerca de 2 mil pessoas em pelo menos dez cidades - que acabou sem relatos oficiais sobre esse volume de detenções. E, na semana passada, ele anunciou um novo processo de deportação acelerada que vai contornar os tribunais de imigração.

Mesmo sem o resultado prático desejado por Trump, as ameaças e o aumento dos crimes de ódio causam tensão e ansiedade nas comunidades imigrantes, em especial nas mulheres. Entre as que não desistem de abortar, por exemplo, estão aquelas que resolvem adiar suas consultas, o que pode custar mais dinheiro e risco para saúde.

Ultimamente, as imigrantes têm demorado mais do que a média de 11 semanas apontada pelas organizações para comparecer às clínicas

Ainda segundo as especialistas, a retórica de Trump tem reflexos não só no direito ao aborto nos Estados Unidos. Atinge ainda estrangeiras que querem ter filhos ou precisam fazer seus exames de rotina.

Benitez diz que grávidas preocupadas com deportação têm evitado consultas pré-natal e demais exames. Decidem ir a um organismo de saúde apenas quando estão em trabalho de parto.

O discurso anti-imigrantes de Trump e as restrições ao aborto aprovadas com o apoio do presidente em nove dos 50 estados dos EUA somente em 2019 têm impacto duplo na vida dessas mulheres.

Mais pobres, menos escolarizadas e muitas vezes não familiarizadas com idioma e leis do país, as imigrantes são prejudicadas, segundo as especialistas, na autonomia de seus corpos - a capacidade de decidir se querem ou não ter filhos- ou simplesmente veem limitada a necessidade básica de cuidar de sua saúde.

* Jornalista da Folha de São Paulo

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