Hollande avisa Macron: franceses decapitam os reis

Ex-presidente, que abdicou de ir a um segundo mandato, diz que podia ter derrotado o seu ex-ministro, mas a direita teria vencido

Em apenas três meses, François Hollande passou para o papel as memórias dos cinco anos que esteve no Palácio do Eliseu. São 400 páginas à venda desde ontem, sob o título Les Leçons du Pouvoir (as lições do poder), nas quais não poupa nos ataques a Emmanuel Macron, seu ex-ministro da Economia. "O meu governo reduziu as desigualdades. Este está a agravá-las", escreveu o ex-presidente, que alerta o seu sucessor para o risco de querer forçar as reformas. "As negociações demoram mais tempo, mas produzem resultados mais sólidos."

Numa série de entrevistas para promover o seu livro, Hollande também deixou outro aviso a Macron: "Aqueles que dizem que as pessoas estão à procura de um rei não se devem esquecer de que estamos num país onde se cortam as cabeças aos monarcas." Em 2015, Macron disse que a França vivia nostálgica em relação à monarquia e que a execução do último rei (Luís XVI, morto na guilhotina em 1793) deixou "um vazio à frente do Estado". O Le Monde descreveu no passado o presidente como "um monarca republicano".

Numa entrevista à TF1, Hollande admitiu que também foi "seduzido" por Macron: "Se não tivesse sido seduzido, não o teria escolhido como conselheiro económico e depois como ministro." Já no livro, aborda a traição do atual presidente, lembrando que este lhe disse que o En Marche! (o movimento que criou) não representava uma ameaça, mas serviria para "mobilizar os apoiantes" e ajudar o presidente - o mais impopular da V República. "Sempre aceitei a concorrência política. Mas acho que devia acontecer de maneira aberta e franca", escreveu Hollande. "Vamos admitir que não foi esse o caso."

Hollande foi o primeiro presidente a abdicar da candidatura ao segundo mandato, alegando ter feito um "sacrifício" político para impedir a vitória de François Fillon ou de Marine Le Pen. "Podia ter derrotado Macron", disse o ex-presidente numa entrevista. "Não queria. Ele não teria ganho e eu não teria ganho. Teríamos um presidente da direita ou da extrema-direita", acrescentou. Os socialistas tiveram nas eleições de 2017 a pior derrota de sempre, com Benoît Hamon a não ir além dos 6% na primeira volta.

O livro de Hollande é publicado numa altura em que Macron, eleito há menos de um ano, enfrenta o descontentamento de parte da população por causa das reformas que quer empreender. Os funcionários dos caminhos-de-ferro prometem três meses de greve contra as mudanças na operadora estatal SNCF e as paralisações chegam também aos transportes aéreos. Por seu lado, os estudantes estiveram barricados nas universidades contra as reformas da educação e os ambientalistas envolveram-se em confrontos com a polícia no desmantelamento de um acampamento erguido há uma década para bloquear a construção de um aeroporto em Nantes.

Face a este cenário, o presidente dará nesta semana duas entrevistas televisivas. Hoje é o convidado de Jean-Pierre Pernaut, no noticiário da hora de almoço da TF1, a pensar nos reformados e num público mais rural. A entrevista não será em Paris, mas em Berd"huis, localidade com cerca de mil habitantes no noroeste do país, para reforçar essa ideia de proximidade diante das críticas de que está distante dos franceses. No domingo, enfrentará durante duas horas a estrela da estação BFMTV e da rádio RMC, Jean-Jacques Bourdin, e o presidente do site de informação Mediapart, Edwy Plenel.

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