Hidroxicloroquina. Trump toma, autoridades alertam para risco e opositores criticam

Depois de meses a promover o medicamento contra a malária, o presidente norte-americano começou a tomá-lo como prevenção para o novo coronavírus depois de terem sido detetados casos na Casa Branca. Isto apesar de não haver provas de que funcione e dos efeitos secundários.

O presidente norte-americano, Donald Trump, diz que está a tomar há mais de uma semana hidroxicloroquina para se proteger contra o novo coronavírus. Isto apesar de não haver qualquer prova de que funcione. Mais: a autoridade responsável pela aprovação de novos medicamentos nos EUA, a Food and Drug Administration (FDA), alerta para o risco de causar problemas de coração. A democrata Nancy Pelosi, líder da Câmara dos Representantes, já lembrou Trump da sua obesidade "mórbida".

A hidroxicloroquina é o mesmo medicamento que Trump tem defendido quase desde o início da pandemia, mas que a determinada altura deixou de mencionar por causa de estudos que apontavam para a não existência de provas de que funcionasse contra a covid-19. Na segunda-feira, surpreendeu todos ao dizer que já o estava a tomar há mais de uma semana.

"Tudo o que posso dizer é que até agora pareço estar bem", disse Trump, que acrescentou: "O que é que têm a perder?" Num comunicado, o médico da Casa Branca, Sean P. Conley, disse que depois de avaliar os benefícios e os riscos com o presidente, decidiram que ele devia tomar o medicamento quando vários funcionários deram positivo para o covid-19.

Críticas

À CNN, Pelosi aproveitou para atacar Trump: "Ele é o nosso presidente e preferia que ele não estivesse a tomar algo que não foi aprovado pelos cientistas, especialmente na sua faixa etária e, digamos, faixa de peso... obeso mórbido, dizem."

Trump, de 73 anos, pesava 110 quilos no seu último check-up, sendo considerado obeso para a sua altura de 1,90 metros -- o índice de massa corporal ronda os 30, sendo que só é obeso mórbido acima dos 40. É conhecido que gosta de comer fast-food e não faz exercício, tendo no passado sido medicado para o controlo do colesterol.

Também o líder da minoria democrata no Senado, Chuck Schumer, considerou "perigosas" as declarações de Trump sobre este medicamento, chegando a dizer que "talvez ele não esteja verdadeiramente a tomar, porque o presidente mente sobre estas coisas". À MSNBC, acrescentou: "Não sei se ele está a tomar ou não, sei que ele diz que toma, quer o faça quer não, é imprudente, imprudente, imprudente."

Até um jornalista da Fox News (cadeia de televisão normalmente aliada de Trump), Neil Cavuto, se mostrou chocado com o presidente, alertando os telespetadores para os riscos que existem caso tenham problemas de saúde. "Vai matar-vos. Não posso repetir mais vezes." Trump partilhou no Twitter uma mensagem contra a Fox News, dizendo sentir a falta do seu fundador e alegando estar à procura de uma nova estação.

Mas o que é?

A hidroxicloroquina é um derivado da cloroquina, sendo ambas usadas no tratamento da malária. É ainda usada contra doenças autoimunes, como a artrite reumatoide e o lúpus.

Um aumento da procura que se registou depois de Trump promover o medicamento, mesmo não havendo provas do funcionamento, poderá levar a falhas de distribuição e afetar os pacientes que verdadeiramente necessitam dele.

Há vários estudos a serem realizados para ver se a hidroxicloroquina ajuda ou não os doentes com covid-19, sendo que aqueles que foram feitos até agora ou têm por base um grupo muito reduzido de doentes ou foram feitos sem ser às cegas e com a administração de outros medicamentos.

Em laboratório, a hidroxicloroquina pareceu mostrar capacidade para travar o ataque do coronavírus às células.

Que efeitos pode causar?

A FDA, num parecer emitido a 24 de abril, desaconselhou o uso da hidroxicloroquina para o covid-19, dizendo que esta devia ser apenas utilizada em âmbito hospitalar. Tudo porque existe possibilidade de criar problemas no ritmo cardíaco.

Além dos problemas cardíacos, os dois medicamentos também podem provocar danos no fígado e nos rins, convulsões, e baixar o nível de açúcar no sangue, segundo a Agência Europeia do Medicamento.

Outros efeitos secundários podem incluir náusea, diarreia, mudança de humor, irritações na pele e até alopecia (a queda de cabelo), segundo a FDA.

Na semana passada, o responsável pelo desenvolvimento de uma vacina que foi despedido, Rick Bright, disse no Congresso dos EUA que foi pressionado a dar o seu aval à hidroxicloroquina sem os estudos adequados.

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