Harris contra Pence. Duas visões muito diferentes da América num debate de adultos

O vice-presidente Mike Pence saltou por cima de algumas regras, interrompendo Kamala Harris e falando mais do que o devido. Mas desta vez não houve gritos nem insultos.

O momento histórico que se viveu nesta noite na Universidade do Utah, com a primeira mulher de origem indiana e jamaicana a debater com o vice-presidente dos Estados Unidos, não foi perdido entre as barreiras de plexiglas que separaram os candidatos. Kamala Harris assumiu desde o primeiro minuto a intenção de tratar Mike Pence e Donald Trump como os acusados que processou durante 13 anos como procuradora. Foi bem-sucedida nalguns momentos e perdeu oportunidades noutros. Do outro lado estava um vice-presidente calmo, controlado e assertivo, mostrando novamente que a sua capacidade oratória é superior à do presidente que serve.

Mas mesmo o mais bem preparado dos oradores teria dificuldade em explicar os números da pandemia de covid-19 nos Estados Unidos, com que a moderadora Susan Page abriu as hostilidades. Como responsável pela task force" da Casa Branca para combater a pandemia, Mike Pence foi chamado a responder pelos 211 mil mortos e 7,5 milhões de infetados no país. O "maior falhanço" da história presidencial dos Estados Unidos, acusou Kamala Harris. "Esta administração renunciou ao direito a ser reeleita com base nisto", afirmou.

A senadora pela Califórnia, que agora está ao lado de Joe Biden na candidatura democrata às eleições de 3 de novembro, olhou para a câmara e falou diretamente com os cidadãos, lembrando-os de que Trump e Pence "encobriram" a seriedade da covid-19 porque queriam que as pessoas se mantivessem calmas.

"Quão calmos estavam vocês quando entraram em pânico por causa do papel higiénico?", questionou Harris. "Quão calmos estavam vocês quando os vossos filhos foram mandados para casa sem saberem quando iriam voltar?"

Harris disse que "será a primeira na fila" para tomar a vacina contra a covid-19 se os médicos e os cientistas garantirem que é segura, mas que não o fará se a vacina for promovida por Donald Trump e não pela comunidade científica.

Pence, por seu lado, disse que a vacina contra a covid-19 estará pronta antes do final de 2020 e criticou Harris por pôr em causa a segurança da mesma. "Pare de brincar à política com a vida das pessoas", admoestou.

"Senhor vice-presidente, eu estou a falar"

Mike Pence, que por vezes falou num estilo condescendente tanto com Kamala Harris como com a moderadora, a jornalista Susan Page, interrompeu várias vezes a oponente. Na primeira dessas ocasiões, quando Harris martelava na "inépcia" e na incompetência da Casa Branca em relação à pandemia, a candidata democrata não se deixou ficar. "Senhor vice-presidente, eu estou a falar", impôs. Ao longo de hora e meia, houve variações desta dinâmica, com Susan Page a tentar controlar, muitas vezes sem sucesso, um Mike Pence que não só interrompeu a oponente como falou para lá do tempo que lhe estava reservado. Harris pediu, mais do que uma vez, que lhe fosse dado o mesmo tempo para responder ao vice-presidente.

Apesar destes pequenos incidentes, o debate foi substancialmente diferente da discussão a que o mundo assistiu na semana passada, quando o presidente Donald Trump e o candidato Joe Biden trocaram insultos numa noite caótica.

Desta vez, a discussão foi sobretudo focada em políticas, medidas concretas e nas substancialmente diferentes visões do mundo que os dois partidos oferecem.

Nas questões da reforma policial e das tensões raciais, Kamala Harris disse que não houve justiça no caso de Breonna Taylor, uma afro-americana morta a tiro por polícias que entraram à força em sua casa com um mandado de busca referente a terceiros. Harris declarou que se Biden for eleito haverá uma série de reformas no sistema, incluindo um registo nacional de polícias que quebrarem a lei, a eliminação de prisões com fins lucrativos e o fim das fianças pagas em dinheiro.

"Nunca iremos tolerar a violência, mas temos de lutar pelos valores que nos são importantes", disse Harris, sobre as tensões raciais que têm causado distúrbios no país há vários meses.

Pence, por seu lado, pintou um quadro de uma administração que está ao lado dos polícias e afirmou que acredita na justeza da decisão no caso de Breonna Taylor, em que os agentes responsáveis pela sua morte não foram acusados de qualquer crime.

Questionado sobre as alterações climáticas, Pence deu uma das respostas mais desconcertantes da noite, garantindo que o presidente Trump "vai continuar a ouvir a ciência" e que esta administração tem melhorado a qualidade do ar e da água, apesar do desmantelamento das proteções ambientais.

Harris, de sobrolho levantado, disse que "esta administração não acredita na ciência" e afirmou que as alterações climáticas são "uma ameaça existencial" para a humanidade.

"Vamos reentrar no Acordo de Paris com orgulho", garantiu, dizendo que o plano de Joe Biden para a promoção de energias limpas e sustentáveis vai criar "milhões" de empregos a mais do que o plano de Trump, baseado nos combustíveis fósseis.

Factos alternativos

Uma frase que Mike Pence repetiu em réplica a Kamala Harris foi sobre a verdade. "Você tem direito à sua opinião, mas não tem direito aos seus próprios factos", disse o vice-presidente, caracterizando as afirmações de Harris sobre a intenção de Biden quanto ao fracking e combustíveis fósseis como erróneas.

Pence foi, a espaços, eficaz a pressionar a ex-procuradora nalguns temas a que ela se esquivou, por exemplo sobre se os democratas querem ou não alargar o número de juízes no Tribunal Supremo.

Mas ele próprio fugiu com frequência às questões da moderadora, por vezes ignorando completamente o tema e abordando algo diferente. Recusou-se a comprometer a administração com uma transferência pacífica de poder, caso Biden ganhe, e até mencionou, ao de leve, a teoria de que o voto postal abrirá possibilidades de fraude. A sua mensagem foi muito centrada na economia e na rápida recuperação a que o país vai assistir.

"A economia americana, a recuperação americana está em causa no boletim de voto", afirmou. "2021 será o melhor ano económico da história da América", prometeu.

Harris sorriu e evitou hipérboles, mas repetiu várias vezes que Biden não vai subir os impostos a quem ganhe menos de 400 mil dólares por ano, e ainda foi atrás de Trump por causa da guerra tarifária com a China e outros países.

"Trump perdeu a guerra das tarifas", afirmou, recebendo como réplica de Pence que Biden nem sequer entrou numa guerra tarifária porque ele é "um cheerleader da China comunista".

Com as respostas e as contrarrespostas, o debate tornou-se nalgumas instâncias uma espécie de verificação de factos em direto de ambas as partes. Mas Harris não perdeu a oportunidade de lembrar os eleitores que Trump só pagou 750 dólares em impostos nos últimos quatro anos, segundo uma notícia do The New York Times, e que o presidente se referiu aos militares feridos ou mortos como otários. Pence, naturalmente, negou tudo isto.

"Temos uma eleição em que a fasquia nunca esteve tão elevada e a escolha nunca foi tão clara", disse Mike Pence, olhando para a câmara. Harris, que sobre a economia disse que "não podia haver uma diferença mais fundamental" entre as duas campanhas, também endereçou os eleitores diretamente: "Vocês merecem melhor."

Ana Rita Guerra é correspondente do DN e do Dinheiro Vivo nos EUA

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG