Guerra ao 'burkini'. Polícia de Nice multa por demasiada roupa na praia

Mulher de túnica, calças e lenço na cabeça terá sido multada por desrespeitar a proibição do uso do 'burkini', o fato de banho islâmico

As fotografias estão a circular pelas redes sociais e a aquecer o debate sobre a proibição do uso do 'burkini', o fato de banho islâmico, em algumas praias francesas: nas imagens, vê-se uma mulher vestida com uma túnica, calças pretas justas e um lenço na cabeça a ser abordada por agentes da polícia na praia junto à Promenade des Anglais, a principal avenida de Nice - a cidade proibiu na semana passada o uso do 'burkini' (que cobre totalmente o corpo, deixando apenas a cara, as mãos e os pés de fora) juntando-se a outros 14 municípios franceses.

A mulher, que não foi identificada, estava deitada na areia quando os quatro agentes se aproximaram. Não é possível saber o que disseram mas, pelas fotos, percebe-se que é impelida a tirar a túnica azul de mangas compridas que tinha vestida, enquanto um dos polícias toma notas e parece passar-lhe uma multa.

A situação não foi esclarecida por nenhum dos intervenientes, mas tem sido amplamente comentada: enquanto uns acreditam que a mulher, muçulmana, foi obrigada a tirar a roupa pela polícia - o que consideram um ato de desrespeito - outros dizem que o ato foi correto, para cumprir as normas de segurança reforçadas após os atentados terroristas e evitar quaisquer símbolos religiosos na praia, inclusivamente o 'burkini' que, segundo as autoridades, vai contra o Estado laico.

Foi na Promenade des Anglais, em Nice, que um atentado no passado dia 14 de julho, dia nacional de França, fez 84 mortos e mais de 200 feridos.

Em Cannes, sul de França - onde o burkini também foi proibido - uma outra mulher foi multada em 38 euros por não respeitar "a moral e o secularismo" francês, refere a AFP, citando o texto da contraordenação.

A mulher de 34 anos, que se identificou apenas como Siam, contou à AFP que estava na praia com a família e que não tinha um burkini vestido, apenas uma túnica, leggings e um lenço na cabeça, porque não queria entrar na água naquele dia.

Mathilde Cousin, que assistiu à cena, revelou que "a pior coisa foi que as pessoas estavam a gritar 'vai para casa' e a aplaudir a polícia", enquanto a filha de Siam chorava.

"Não vestia um 'burkini', não vestia uma 'burqa', não ia nua. Considero que o meu vestuário era correto", disse Siam, que afirmou que vai recorrer à justiça, segundo a agência Lusa.

As autoridades francesas têm justificado a proibição temporária do uso do 'burkini' com preocupações de segurança, mas a criadora do 'burkini', Aheda Zanetti, acusa os autarcas de estarem a associar o fato de banho ao islamismo e ao terrorismo, quando qualquer pessoa o pode usar para se sentir mais confortável.

O presidente do Conselho Francês do Culto Muçulmano (CFCM), Anouar Kbibech, pediu uma reunião urgente com o Governo, que foi aceite pelo ministro francês do Interior, Bernard Cazeneuve. O encontro decorrerá na tarde desta quarta-feira. O responsável muçulmano afirmou, em comunicado, estar "preocupado com a direção que o debate público está a tomar" e citou um "receio crescente de estigmatização dos muçulmanos em França".

São já 15 os municípios franceses onde as mulheres podem ser multadas nas praias por usarem o 'burkini'; são convidadas a mudarem de fato de banho ou a deixarem o local.

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