Governo Bolsonaro passou a ocultar e confundir números da covid-19

Dados são divulgados mais tarde e com menos informações para não aparecerem nem nos telejornais nem nos jornais do dia seguinte, diz o presidente. Secretários estaduais de saúde criticam. OMS também. Órgãos de comunicação social formam parcerias em nome da transparência.

Na última sexta-feira, o apresentador do Jornal Nacional, da TV Globo, o mais influente e mais assistido telejornal da televisão brasileira, pediu desculpa aos telespetadores por começar a edição daquele dia sem apresentar os números de novos casos e novas mortes pela covid-19, ao contrário do costume. Segundo ele, esses números não haviam sido divulgados ainda pelo governo de Jair Bolsonaro.

Horas antes, o presidente da República anunciara em Brasília em tom de provocação: "Acabaram as matérias [sobre números da pandemia] no Jornal Nacional".

A solução encontrada pela TV Globo para informar os telespetadores acabou, no entanto, por ser ainda mais impactante; interrompeu a programação - no caso o episódio da telenovela - para apresentar um plantão especial de notícias, o que se aconteceu em casos extremos na história da emissora, com os números atualizados apenas às 22 horas.

Esses números começaram por ser divulgados pelo governo às 17 horas, quando o ministro da saúde era Luiz Henrique Mandetta. Demitido Mandetta e empossado Nelson Teich, passaram a ser conhecidos às 19. Com a saída de Teich, tal como Mandetta em oposição à política de Bolsonaro relativamente à pandemia, agora, sob o comando do ministro interino general Eduardo Pazuello, só surgem às 22,

O atraso, que como disse Bolsonaro visa atingir a TV Globo e os principais jornais matutinos, levou entretanto a que órgãos de comunicação social se unissem numa parceria em prol da transparência.

O portal G1 e UOL e os jornais O Globo, Extra, O Estado de S. Paulo, e Folha de S. Paulo passaram a dividir tarefas a partilhar informações obtidas para que se possa saber como está a evolução e o total de óbitos provocados pela covid-19, além dos números consolidados de casos testados e com resultado positivo para o novo coronavírus, até às 20h.

Os veículos terão de suprir a ausência recente de dados como a curva de casos novos por data de notificação e por semana epidemiológica, os casos acumulados por data de notificação e por semana epidemiológica, as mortes por data de notificação e por semana epidemiológica; e os óbitos acumulados por data de notificação e por semana epidemiológica.

E aprender a lidar com dados oficiais divergentes: no domingo, o governo federal começou por falar em 1362 mortes e depois corrigiu para 525.

"Informações são propriedade do povo brasileiro"

O presidente do Conselho Nacional de Secretários de Saúde, que reúne os responsáveis pela pasta das 27 unidades federativas do Brasil, criticou a mudança de método do governo federal. "Essas informações são propriedade do povo brasileiro, não dos estados e do ministério, que tem o direito inalienável de ter conhecimento dessa informação", disse Alberto Beltrame em entrevista à Rádio Gaúcha.

Beltrame considerou ainda que "o que está acontecendo é uma confusão desnecessária". "A fonte de informação é a mesma, são as secretarias de saúde dos estados. Nós enviamos em torno das 16h e basta processar essas informações e apresentá-las".

O secretário, que lidera a saúde do estado do Pará, explicou a importância dos dados no dia a dia: "Nós tivemos 84 óbitos num único dia, ocorridos no dia. No dia seguinte 82, depois tivemos 70, 50, 40, 30, 16, ou seja, se eu tivesse posto isso numa curva cumulativa, eu teria os 3,6 mil óbitos que já há no Pará. Agora, quando eu coloco isso dia a dia e ajusto numa curva logarítmica, que é a forma correta, eu posso perceber que há uma tendência de queda e essa queda é sustentada".

"A partir daí", sublinha, "podem tomar-se decisões de gestão de crise como continuar ou terminar o lockdown".

O diretor de emergências da Organização Mundial de Saúde também alertou para a importância da transparência. "É muito importante, ao mesmo tempo, que as mensagens sobre transparência e divulgação de informações sejam consistentes, e que nós possamos contar com os nossos parceiros no Brasil para fornecer essa informação para nós, mas, mais importante, aos seus cidadãos. Eles precisam saber o que está acontecendo", afirmou Michael Ryan.

"Nós temos dados extremamente detalhados do Brasil sobre a epidemia. Na verdade, alguns dos dados que temos do Brasil estão entre os mais detalhados e atualizados do mundo, e nós sinceramente esperamos que isso continue", prosseguiu.

"O Brasil é um país muito grande; tem uma população muito diversa; tem populações muito vulneráveis, particularmente em áreas ao redor de áreas urbanas, populações indígenas e outras. Portanto, o Brasil merece nosso apoio total, e nós continuaremos a apoiar o Brasil e sua população na luta contra a covid".

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