Francisco na Birmânia em plena crise com os rohingya

Perseguição de minoria muçulmana gera tensão na primeira deslocação de um Papa a este país de maioria budista. Cardeal birmanês acredita que a questão será abordada

O Papa Francisco inicia hoje a primeira deslocação de sempre de um chefe da Igreja Católica à Birmânia, país de larga maioria budista, onde os cristãos constituem uma comunitária minoritária em paralelo com os muçulmanos, sendo parte destes últimos, os rohingya concentrados no estado de Rakhine, alvo de perseguição pelas autoridades do país e por radicais budistas.

Além da Birmânia, onde celebrará duas missas, o Papa visita em seguida o Bangladesh, país maioritariamente muçulmano, onde dirá apenas uma missa. Mas é na Birmânia que está concentrada toda a atenção, não só por ser uma primeira visita mas, principalmente, pela situação dos muçulmanos rohingya, a quem as autoridades do país recusam conceder a nacionalidade e têm perseguido com particular violência desde agosto. Tomando como pretexto, ataques a esquadras da polícia em Rakhine, estado na parte ocidental da Birmânia, entre 600 mil a 800 mil pessoas foram obrigadas pelas forças de segurança a deixarem as suas residências e a refugiarem-se no vizinho Bangladesh. Poucos dias após o início da repressão, Francisco referiu-se à situação, declarando na Praça de São Pedro, em Roma, estar ao corrente "da perseguição aos nossos irmãos rohingya. Rezemos para que sejam salvos e, todos eles, vejam reconhecidos os seus direitos". Frase que irritou os círculos budistas e os militares, acabando por criar alguma tensão em torno da visita. E, desde então, referiu-se várias vezes à crise humanitária dos rohingya.

Para o diretor executivo da secção portuguesa da Amnistia Internacional (AI), Pedro Neto, a "viagem do Papa trará atenção para o problema dos rohingya. E tem a particularidade de o chefe máximo da Igreja Católica dar e chamar a atenção para pessoas de outra religião", neste caso, muçulmanos. A AI, tem difundido nos últimos meses vários relatórios e outros documentos a chamar a atenção para a "destruição de aldeias inteiras, a violação e agressão de mulheres, o assassínio de crianças, a perseguição de pessoas em massa", salienta Pedro Pinto, o "gesto do Papa ao estender a mão aos muçulmanos é um sinal muito importante" sobre a "importância do respeito e tolerância por outras religiões".

O cardeal birmanês Charles Bo reconhecia no final da semana em à revista The Tablet que a visita tem contornos delicados, dizendo que "seria muito criticado o Papa recorrer ao vocábulo "rohingya". É uma palavra que não é aceite pelos militares, governo e budistas". Em alternativa, o cardeal explicou que o Papa, que tem encontros com a governante de facto Aung San Suu Kyi, e com o chefe das forças armadas, general Min Aung Hlaing, "poderá usar uma frase como "os muçulmanos do estado de Rakhine"".

A crise dos rohingya está a representar um importante teste na transição para a democracia na Birmânia, com críticas a serem dirigidas a San Suu Kyi pela sua atuação. O que é subscrito por Pedro Pinto para quem, atendendo a que "o estado de Rakhine se transformou numa prisão a céu aberto" e se "vive uma situação de apartheid", com a "discriminação de pessoas apenas por serem rohingya", Suu Kyi, "devia usar a sua influência e o poder da liderança" para alterar a presente situação. Neste plano, o responsável da AI, reconhecendo "condicionantes sociais e culturais, que demoram tempo a mudar", espera que a visita de Francisco "seja um primeiro, um segundo ou um terceiro passo nessa mudança".

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