França renova controlo das suas fronteiras internas

Alemanha, Áustria, Dinamarca, Noruega e Suécia apresentaram igual pedido. Filho de vítima portuguesa apela à tolerância no 1.º aniversário dos ataques do 13 de Novembro.

"Como continuar a viver depois de ter sido atacado pelo terrorismo, como não se alimentar de ressentimento e de raiva? Como voltar a ser um país livre face à ameaça de novos ataques? Coloco-me estas questões todos os dias enquanto órfão do terrorismo", afirmou o lusodescendente Michael Dias, filho da única vítima mortal no Estádio de França nos atentados de 13 de novembro de 2015 em Paris.

Michael Dias falava ontem na cerimónia de homenagem às vítimas naquele local, onde o pai perdeu a vida quando um dos terroristas se fez explodir junto do portão D, depois de ser impedido de entrar no recinto onde decorria um jogo amigável França-Alemanha. O seu pai, Manuel Dias, de 63 anos, vivia e trabalhava em França desde o início dos anos 1970.

O lusodescendente, de 31 anos, recordou palavras do pai em que este lhe dizia "que não se pode viver com medo", interpretando-as, a seguir, como a necessidade de "andar de cabeça levantada, conscientes dos riscos, mas não cedendo nunca aos que nos querem aterrorizar".

A intervenção de Michael Dias - único familiar das vítimas a usar da palavra nas cerimónias de ontem, já que junto dos restaurantes atacados há um ano e no exterior do Bataclan apenas foram descerradas placas evocativas e lidos os nomes das vítimas - foi elogiada pela vereadora portuguesa de Saint-Denis, Suzanna de la Fuente, que a considerou emocionante. Em declarações à Lusa, a vereadora destacou o facto de, apesar de recordar um "momento tão duro para a família", ter posto ênfase "na fraternidade". Manuel Dias terminou a intervenção com um "Viva a tolerância! Viva a inteligência! Viva a França!".

Presente nesta e nas duas restantes cerimónias estiveram o presidente François Hollande e o primeiro-ministro Manuel Valls, que se mostraram bastante discretos, procurando não ser criticados de tentarem "recuperar" o impacto político e emocional do momento numa conjuntura em que a popularidade do presidente e do governo continua em queda, como notavam os media franceses.

A sombra da ameaça terrorista permanece real e preocupa as autoridades francesas. O ministro do Interior, Jean-Marc Ayrault, afirmou numa entrevista à Europe1 que Paris vai pedir à União Europeia (UE) para prolongar o controlo das fronteiras internas do espaço Schengen.

Noutro plano, Ayrault insistiu na necessidade de se continuar a dar batalha ao Estado Islâmico (EI), que reivindicou os ataques que causaram 130 mortos em Paris, reforçando a atuação da coligação internacional na Síria e no Iraque.

A preocupação com a segurança interna não é exclusivo da França, tendo a Alemanha, Áustria, Dinamarca, Noruega e Suécia pedido o prolongamento do controlo interno de fronteiras por mais três meses, o que foi aprovado no final da semana pelo Conselho Europeu. O controlo de fronteiras entrou em vigor no passado mês de maio, com um período de vigência de seis meses, agora prolongado.

"Situação está a melhorar"

Robert Kalinak, o ministro do Interior da Eslováquia, país na presidência rotativa da UE, justificou a decisão com a necessidade de se garantir a segurança do espaço europeu, ainda que admitindo estar "a situação a melhorar".

A Comissão Europeia propusera em outubro, escrevia ontem o EUobserver, a extensão do período de controlo das fronteiras após aqueles países terem manifestado receios de que o grande número de refugiados e migrantes em Itália e na Grécia continue a tentar chegar aos respetivos territórios.

Até agora, entre maio e setembro, a Suécia recusou a entrada a 640 num total de três milhões de pessoas inquiridas; a Dinamarca recusou mil pessoas num total de um milhão; a Alemanha recusou três mil, a Áustria 233 e a Noruega 14.

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