Fotos de político a masturbar-se provocam movimento #MeToo na Tunísia

Imagens de um deputado tunisino recém-eleito, Zouheir Makhlouf, supostamente a masturbar-se num carro junto de uma escola na Tunísia, provocaram uma onda de histórias de mulheres vítimas de abusos sexuais e assédio.

O homem que desencadeou este movimento é o deputado recém-eleito Zouheir Makhlouf, que nega as acusações de estar a masturbar-se junto a um liceu, alegando que estava somente prestes a urinar para uma garrafa porque é diabético. Este caso foi conhecido em outubro, depois de uma aluna ter recolhido fotos e feito queixa de assédio, segundo a BBC. Após a divulgação das imagens, dezenas de mulheres começaram a partilhar na Tunísia as suas histórias de abuso sexual com a hastag #EnaZeda, que significa "MeToo" em árabe (o #MeToo nasceu em 2017, nas redes sociais, após um tweet da atriz Alyssa Milano em incentivava as mulheres a mostrarem solidariedade umas com as outras, especialmente quando se tratava de casos de assédio sexual).

O volume das denúncias tem aumentado e no início deste mês várias mulheres levaram o protesto até ao parlamento tunisino, na altura em que os deputados tomavam posse, a exigir uma investigação. O deputado em causa goza de imunidade parlamentar, mas a justiça ainda está a analisar o caso.

Pedofilia e incesto

A indignação perante o caso levou a Aswaat Nisaa, uma organização não-governamental que significa "Vozes de Mulheres", a lançar um grupo fechado no Facebook chamado #Ena Zeda. Este espaço permitiu partilhar experiências e as revelações chocaram mesmo os moderadores da página. "Pedofilia e incesto são mais desenfreados do que gostaríamos de admitir", disse a moderadora Rania Said à BBC. "Muitas, muitas famílias estão a esconder isso, e muitas nem sabem como lidar com isso". A página tem mais de 25 mil membros, com milhares ainda pendentes de aprovação.

Há um dilúvio de depoimentos detalhados alegando violação, violação conjugal e assédio sexual. As acusações são feitas contra militares, policias, universidades, escolas e parentes. E não são só mulheres que as fazem, há homens também a relatar casos. Este nível de casos graves surpreendeu a Aswaat Nisaa, especialmente sobre o que diz respeito ao abuso infantil que é ignorado pelas famílias. "Há muitas histórias sobre tios, irmãos, vizinhos e o homem da loja da esquina", disse Rania Said.

"A mãe não ajudou"

Um dos casos relatados pelo BBC é o de uma mulher de 36 anos que foi molestada sexualmente pelo marido da sua tia quando tinha 14 anos. Ela tinha ido morar com o casal depois de ter sido espancada pelo pai. "Ele começou a beijar-me a boca e a tocar nos meus seios. Eu não entendi o que ele estava a fazer, porque não sabia o que era essa parte sexual, ninguém tinha conversado comigo sobre isso", recordou. Este assédio continuou várias semanas, relatou a vítima, até que foi encurralada sozinha no seu quarto. "Ele subiu para cima de mim; tentou forçar e eu comecei a gritar. Então ele ficou assustado porque a minha tia estava a dormir no quarto ao lado".

Contou ainda que os seus parentes relativizaram o incidente, sugerindo que era sinal de afeição do tio e não lhe deram apoio. "A minha mãe disse: eu vivi coisas assim e não acho que seja assim tão mau". E disse que não podia denunciar o caso às autoridades. "Se eu o acusasse, mesmo sendo o meu direito, destruiria uma rede familiar e não queria ser culpada por isso".

Em 2017, os deputados tunisinos aprovaram uma lei história para proteger as mulheres contra a violência. Na altura, os observadores chegaram a considerar que se tratava de uma das leis mais progressistas da região e possivelmente do mundo. Isto porque, assim que a denúncia é feita, mesmo que a vítima se arrependa, o procedimento legal prossegue.

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