Filho de vítima portuguesa dos atentados apela à tolerância e inclusão

"Como não se alimentar de ressentimento e de raiva?", perguntou Michaël Dias no início das cerimónias evocativas do aniversário dos ataques

Michaël Dias, filho do português que morreu no Estádio de França nos atentados de 13 de novembro de 2015, defendeu hoje a tolerância e inclusão na abertura das cerimónias oficiais do aniversário dos ataques de Paris e Saint-Denis.

"Um ano passou desde este 13 de novembro que mudou as nossas vidas, um ano de luto, de reflexão, de procura de explicações. Primeiro, dizemos que é impossível viver e, depois, como toda a gente, habituamo-nos", disse Michaël Dias.

"Como continuar a viver depois de ter sido atacado pelo terrorismo, como não se alimentar de ressentimento e de raiva? Como voltar a ser um país livre face à ameaça de novos ataques? Coloco-me estas questões todos os dias enquanto órfão do terrorismo", disse, acrescentando que procurou na história de vida do pai, Manuel Dias, as "lições para avançar".

O lusodescendente, de 31 anos, afirmou que sempre ouviu o pai dizer que "não se pode viver com medo". Por isso, "perante o medo que paralisa", a resposta é andar de "cabeça levantada, conscientes dos riscos, mas não cedendo nunca aos que querem aterrorizar".

Michaël Dias contou que o pai "chegou a França com 18 anos, fugindo à ditadura" e que "estava convencido de que era pelo conhecimento que se pode evitar cair em qualquer tipo de obscurantismo", defendendo que ele era "a prova de que a integração é possível e necessária" e que é preciso "combater a estigmatização e divisão".

"É pelo conhecimento que se pode evitar que as crianças de amanhã aceitem humilhar-se como carne para canhão, ao serviço de interesses mafiosos e criminosos que as ultrapassam, como é hoje o caso. Incapazes de refletir, de pensar o mundo e de expressar o mal-estar e a exclusão social que sentem", continuou, terminando com um "Viva a tolerância! Viva a inteligência! E viva a França!".

Em declarações à agência Lusa, Michaël disse que "o objetivo era mesmo mostrar que era importante não ter medo" e, também, que "a solução [face ao terrorismo] passa pela inteligência, pela instrução e pela escola, porque muito do que acontece hoje em dia é fruto da ignorância da juventude que, muitas vezes, se sente deixada de parte, e a solução também passa pela tolerância de todas as diferenças".

A cerimónia, que começou com um minuto de silêncio, contou com várias personalidades, como o Presidente francês, François Hollande, e o primeiro-ministro, Manuel Valls, representantes das associações de vítimas dos ataques de 13 de novembro, familiares e amigos de Manuel Dias, o português que estava a caminhar junto à Porta D do Estádio de France quando um dos autores dos ataques dessa noite se fez explodir.

O filho é o único a discursar no dia de aniversário dos ataques, já que nos outros locais visados pelos atentados apenas se vai ler o nome das vítimas e não estão previstos discursos.

A assistir à cerimónia esteve Suzanna de la Fuente, portuguesa vereadora da cidade de Saint-Denis, que ficou emocionada com o discurso de Michaël Dias.

"Quando fui dar os meus sentimentos à família, acabei por agradecer ao filho do senhor Manuel Dias, porque acho que num momento tão duro para a família teve uma palavra de fraternidade. Foi uma coisa que me marcou muito e fiquei emocionada", disse a autarca à Lusa.

Também presente esteve Mohamed Amghar, sobrevivente do ataque no Estádio de França, segurança que estava a verificar os bilhetes na Porta H e que recebeu "cinco impactos da segunda explosão", dizendo "renascer hoje", apesar de ainda não conseguir dormir por causa das "imagens daquela noite que, vão e vêm".

"Nunca tive tanto medo como naquela noite. Senti a morte. Estou aqui pelo pai de Sophie [Manuel Dias] que é minha amiga na associação de vítimas de terrorismo e estou aqui por mim. Sinto-me renascer hoje, tenho a impressão que festejo o meu aniversário, um ano. Sou muçulmano e o nosso Corão não diz para matar as pessoas", disse Mohamed Amghar.

Presente na cerimónia esteve, ainda, Patricia Correia, mãe de Precília Correia, uma das vítimas portuguesas do Bataclan e administradora da associação de vítimas dos atentados de 13 de novembro "13onze15".

"A gente vai lá [a cada local dos ataques] para se recolher, para pensar em toda a gente que morreu e é muita emoção. Não sei o que dizer mais, porque o meu coração está muito pesado. Não posso falar mais, hoje é um dia muito importante", disse Patricia Correia à Lusa.

A representar Portugal esteve Carlos Pires, número dois da Embaixada de Portugal em Paris, o cônsul-geral adjunto de Portugal em Paris, João Alvim, e a responsável do serviço jurídico e social do Consulado, Suzete Simões.

"Desafortunadamente, a única vítima mortal [no Estádio] foi um compatriota nosso, que deixa dois órfãos e uma viúva. Para nós, num país como a França, onde temos uma comunidade tão grande, é muito importante também podermos estar junto das autoridades francesas a prestar este tributo a Manuel Colaço Dias e a todas as vítimas dos atentados do 13 de novembro e ficámos muito sensibilizados com as palavras do filho, o Michaël, que teve as palavras certas numa circunstância destas e face à tragédia que tiveram de enfrentar", disse à Lusa Carlos Pires.

Manuel Dias, de 63 anos, vivia em Reims, no nordeste de França, desde os 18 anos, sendo natural de Mértola, no Alentejo, onde foi enterrado.

As cerimónias em memória das 130 vítimas dos atentados continuam hoje, na presença do presidente francês, nos locais visados pelos jihadistas a 13 de novembro do ano passado: os cafés Carillon, Petit Cambodge, Bonne Bière, Comptoir Voltaire e Belle Équipe e a sala de concertos Bataclan, com o descerrar de placas de homenagem, a leitura do nome das vítimas e um minuto de silêncio.

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