Fernando Henrique Cardoso: "Torço para que Bolsonaro acerte e não para que erre"

Num excerto da entrevista que irá passar na noite de quarta-feira na RTP3, Fernando Henrique Cardoso assume que o seu coração não balançava nem por Bolsonaro nem por Haddad, não eram o que desejava para o Brasil.

"Sou contrário às tendências de Bolsonaro, mas tenho que torcer pelo Brasil. Tenho que torcer para que ele acerte e não para que erre." A frase é do ex-presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso, durante uma entrevista à jornalista Ana Lourenço, que irá passar na RTP3 quarta-feira à noite.

Em Portugal, Fernando Henrique Cardoso - ou FHC, como é conhecido o 34º presidente do Brasil, em funções entre 1995 e 2003, eleito pelo Partido da Social Democracia Brasileira -, disse mesmo, no excerto que a estação de televisão passou esta noite, não lhe caber a ele "fazer críticas ao presidente eleito" quando está "fora do País", argumentando "se tiver que criticar, critico lá".

O ex-presidente, sociólogo, cientista, professor universitário, que foi muito criticado pela ala esquerda do Brasil, por não ter dado apoio formal a Fernando Haddad, na segunda volta de há uma semana contra Jair Bolsonaro, confessou mesmo: "Entre os dois o meu coração não balança", acrescentando que por razões diferentes um e outro não eram o que desejava para o Brasil.

No entanto, acredita que Bolsonaro não levará o país para um regime fascista, aquilo que mais teme é que, de facto, não consiga fazer algo de concreto para tirar o Brasil da situação em que se encontra. FHC recordou que o crescimento do país estagnou, que as desigualdades sociais são muito grandes, que a população empobreceu muito, e aquilo que quer é sempre o mesmo: emprego, educação, saúde, transportes e segurança. E "é isso que tem de ser provido."

Para o povo brasileiro o importante é conseguir-se restabelecer-se a confiança, se não se conseguir isto, não se consegue fazer mudar nada. "A democracia tem de ter um terreno comum" para atender os que mais precisam e para se criar condições para os que estão a gerir o país se estão a agir mal passem a agir bem. "Nem todos são bons ou maus."

O ex-presidente da república sublinhou que algo não está a funcionar bem no sistema político brasileiro, já que nos últimos 20 anos foram eleitos quatro presidentes, incluindo ele próprio, dois saíram por empeachment, Fernando Collor de Melo e Dilma Roussef, e Lula da Silva está preso. Portanto, todos temos responsabilidades por não se ter criado um sistema que controlasse e prevenisse o abuso dos políticos.

Sobre Lula da Silva, Fernando Henrique Cardoso disse nada ter contra ele pessoalmente, que ao longo dos anos muito falou com ele, esteve presente em várias situações da sua vida, na doença e na morte da mulher Marisa, mas que o homem do PT, sempre tão preocupado com a crise, se terá deixado seduzir por outro tipo de pessoas que não as do centro esquerda.

À pergunta sobre se a independência da justiça brasileira ficava beliscada pelo facto de o Juiz Sérgio Moro - que foi considerado um dos pilares da operação anti-corrupção, levando à prisão o anterior presidente Lula da Silva - ter aceitado o convite de Bolsonaro para ministro da Justiça, FHC não respondeu diretamente, argumentando não ter sido o único juiz neste combate, "nunca a Justiça no Brasil foi tão ativa como agora. E não foi só o juiz Sérgio Moro o responsável pela prisão de toda a gente. Houve mais juízes a fazer isso."

Para exercer funções no governo, "Sérgio Moro teve de renunciar à sua posição de juiz, o que acho de grande coragem pessoal", sublinhou.

Sobre se algo vai mudar nas relações entre Brasil e Portugal, o ex-presidente acredita que não, "mesmo que o governo queira mudar alguma coisa, o sentimento entre os dois povos é o mesmo e vai continuar a existir."

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