Teste positivo de Bolsonaro alimenta teorias da conspiração

Nas redes sociais, celebridades duvidam do teste. Jornais optam por escrever "presidente diz que tem covid-19", em vez de afirmarem. Laboratório responde ao DN que só lhe compete fazer os exames pedidos pelo hospital

O exame positivo para Covid-19 divulgado na terça-feira por Jair Bolsonaro a três emissoras de televisão escolhidas pelo próprio presidente está a alimentar teorias da conspiração no Brasil.

As questões levantadas são: porque Bolsonaro desta vez apresentou o exame de livre vontade, quando nos três primeiros só não conseguiu impedir a sua divulgação depois de obrigado pelos tribunais?

E porque naqueles exames usou nomes de código e desta vez é identificado como Jair Messias Bolsonaro, o seu nome verdadeiro?

Qual a relação entre a divulgação do exame ao princípio da tarde de terça-feira e o depoimento ao ministério público do seu filho mais velho, senador Flávio Bolsonaro, por causa do escândalo de corrupção conhecido como "rachadinha", mais ou menos à mesma hora?

E porque o presidente aproveitou para gravar vídeo logo após a divulgação a dizer que estava a tomar o terceiro comprimido de hidroxicloroquina, droga cujo uso ele, ao contrário da comunidade médica internacional, defende?

"Presidente diz que. É o tom jornalístico ideal. Qualquer redator prudente não banca a palavra do Bolsonaro como certeza. Desconfiar sempre é a lei", escreveu nas redes sociais o jornalista Xico Sá, logo na sequência da notícia de que Bolsonaro teria contraído coronavírus.

Os maiores jornais, agências e portais do país, como Folha de S. Paulo, G1, Valor Económico ou Reuters, de facto, optaram por atribuir a informação ao presidente usando o "Bolsonaro diz que".

"O "diz" aqui não é acessório", defendeu em coluna no Yahoo o jornalista Matheus Picchonelli.

"Na segunda quinzena de março, quando voltou de viagem para os EUA, 23 pessoas da sua comitiva voltaram infectadas. Ele não. Depois de idas e vindas, apresentou ao Supremo Tribunal Federal, em maio, laudos que atestavam que seus exames tiveram resultado negativo. Ambos foram feitos com nomes de código. Desta vez o anúncio ocorreu de livre e espontânea vontade. Ele cancelou agendas, disse que não se sentia bem e pediu a apoiantes para manterem distância. No dia seguinte afirmou, em entrevista, que o teste deu positivo, mas que tomou hidroxicloroquina e que se sentia "perfeitamente bem"", prossegue

"Bolsonaro parecia tentar convencer os eleitores de que estava certo quando, lá atrás, alertou para o que chamou de histeria em torno de uma "gripezinha". Pelo próprio exemplo, poderá defender que é possível levar uma vida normal após a infecção, mais ou menos como defende que aconteça num país em quarentena. Mas a credibilidade das declarações do presidente chega minada após meses de desconfianças alimentadas por ele mesmo", conclui.

Nas redes sociais, artistas também questionaram as atitudes de Bolsonaro: "O presidente do Brasil não usou pseudônimo dessa vez pra fazer o exame de covid-19?", perguntou o ator Bruno Gagliasso, com um emoji com sinal pensativo para sublinhar a suspeita.

"Eu não gosto de teoria da conspiração, mas..... só eu estou pensando o que eu estou pensando sobre esse Covid do presidente?", acrescentou o humorista e blogger Felipe Neto.

"Bolsonaro fez o maior estardalhaço para não divulgar o resultado dos exames anteriores e agora faz questão de conferência de imprensa para falar que está com Covid. Quem acredita?", perguntou-se o ator Armando Babaioff.

"Testou positivo foi? Mas aonde está a mulher do Queiroz?", acrescentou Marcelo D2 dando a entender que o anúncio serviu para abafar o tal depoimento de Flávio Bolsonaro ao ministério público sobre o caso das "rachadinhas", em que é acusado de liderar organização criminosa, de corrupção e de lavagem de dinheiro envovendo os amigos da família Fabrício e Márcia Queiroz.

A candidatura de Bolsonaro às eleições de 2018 é alvo de sete acusações no Tribunal Superior Eleitoral, entre as quais a do uso em massa de mensagens falsas contra o rival Fernando Haddad, a mais simbólica delas a que atribuía ao candidato do PT a ideia de comercializar biberons em forma de pénis para combater a homofobia.

Já no poder, Bolsonaro vem proferindo duas afirmações falsas ou imprecisas por dia, de acordo com o site de verificação de dados Aos Fatos.

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