"Europol tem hoje o nome de nove mil suspeitos de terrorismo"

Responsável pelo departamento de assuntos legais e políticos da Europol, Dietrich Neumann, em entrevista ao DN, definiu como fundamental a cooperação entre as polícias no combate aos islamitas.

No combate aos islamitas, quais são as prioridades para a cooperação das forças de segurança no quadro da Europol?

Uma sondagem de 2016 mostrou que é na área da segurança que os cidadãos europeus desejam uma maior cooperação entre os Estados, e isto é um dado a ter em conta pela Europol. O terrorismo quer instilar terror nas sociedades, desestabilizá-las. Por isso, a resposta das entidades responsáveis pela segurança deve ser no sentido de reforçar os mecanismos de resistência, respeitar e fazer respeitar as leis e, por outro lado, contribuir para que as pessoas, de todas as etnias e religiões, se identifiquem com a sociedade em que vivem e entendam que vale a pena defendê-la. É isto que torna uma sociedade mais forte, coesa e capaz de resistir aos desafios do terrorismo. E o papel das forças de segurança a nível nacional e a nível europeu é determinante nisso como é também determinante a cooperação.

Existiram no passado reticências no plano da cooperação entre as forças de segurança dos diferentes países. Essa é uma questão ultrapassada?

Não quero tecer críticas ao sucedido no passado em que, realmente, se privilegiou mais a cooperação antiterrorista bilateral do que multilateral, o que é aliás tradicional e até por muito boas razões. O que é importante notar é que estamos hoje confrontados com um tipo de terrorismo diferente daquele que existiu na Europa nos anos 70 e 80, que era principalmente um fenómeno a nível nacional em alguns países. Hoje, o terrorismo é um fenómeno que abrange toda a União Europeia e, mais do que isso, deve ser considerado uma ameaça global. A Europol permite responder a esta ameaça através de múltiplos instrumentos e plataformas de cooperação.

Pode dar alguns exemplos?

Desde a análise da propaganda que se encontra na internet ao fluxo de movimentos financeiros, a monitorização daquilo a que se convencionou chamar a dark net e toda uma infraestrutura de informação. Após os ataques de novembro de 2015 em Paris, passámos a receber toda uma série de informações das diferentes polícias nacionais que nos possibilitou aumentar a nossa lista de suspeitos terroristas e de indivíduos que foram combater para a Síria e o Iraque. Até aos ataques de Paris havia 18 nomes nessa lista, hoje são cerca de nove mil.

Relativamente aos terroristas, o ataque de Londres veio mostrar algo diferente: terrorista não era um jovem, mas um homem na meia-idade. Podemos estar a assistir a uma mudança no tipo de pessoas dispostas a realizar este tipo de atos?

É difícil dizer. Há situações diferentes. Se olharmos os ataques de Paris vemos uma operação militar, bem organizada, com alvos diferentes, atacantes fortemente armados, mas, por outro lado, se pensarmos em Nice, Berlim e agora Londres, temos casos daquilo a que se costuma chamar operações de lobos solitários. Está por perceber se este vai ser ou não o padrão, com tudo aquilo que implica de imprevisibilidade. Uma outra característica importante: este tipo de ataques pode concretizar-se com meios muito limitados e ainda assim causar um número elevado de vítimas, como sucedeu em Nice. Estamos perante um desafio muito sério para as forças de segurança. É possível investigar uma estrutura organizada, compreender a sua linha de atuação e conseguir neutralizá-la. No que respeita a ataques como Londres ou Nice, é muito, muito mais difícil fazê-lo.

Pode dizer-se que estamos a regressar, digamos, à pré-história do terrorismo, à época do chamado ato exemplar com uma pessoa a assassinar o presidente de França [Sadi Carnot, a 24 de junho de 1894, pelo anarquista Geronimo Caserio] ou a lançar bombas...

Esse é um paralelo histórico interessante. Veja-se o que deu origem à Primeira Guerra Mundial [o assassínio do arquiduque Francisco Fernando a 28 de junho de 1914 em Sarajevo]. Alguém afirmou um dia que a história não se repete, mas rima. Se os motivos dos anarquistas de finais do século XIX, início do século XX eram muito diferentes, há um aspeto em que podemos olhar para a história e aprender algo. É que essas pessoas eram realmente perigosas e causaram muitas vítimas e desencadearam conflitos sangrentos, como a Primeira Guerra. Num período na Europa em que se vão realizar eleições muito importantes...

As presidenciais em França e as legislativas na Alemanha?

Exatamente. Pense-se de que forma um ataque terrorista poderia ter influência no resultado final dessas eleições e que tipo de forças políticas poderia acabar por favorecer.

Como disse, os ataques de Paris de novembro de 2015 foram uma operação sofisticada envolvendo importantes meios e produziram um balanço mortífero. Isto é o limite da capacidade de uma organização terrorista ou podem ir ainda mais longe?

Só é possível especular. Mas nunca se deve pôr de parte a possibilidade de escalada nos meios. Quais os meios, isso só se pode especular...

Falou-se em tempos de "bombas sujas"...

Uma possibilidade entre muitas. Se os islamitas o querem, é uma coisa, se o podem fazer, é outra.

Quando se pensa nos argumentos de terroristas como o Estado Islâmico ou a Al-Qaeda vê-se que estes últimos sempre deram relevo à questão palestiniana, algo ausente na propaganda do primeiro. Estamos perante dois discursos ideológicos distintos ou há uma real diferença de prioridades?

Num certo sentido, estão realmente em diferentes patamares ideológicos.

Todas estas organizações falam do islão, mas de facto estão a falar do islão ou de algo que nada tem a ver com esta religião? Não deveria ser este um aspeto central do combate aos chamados grupos islamitas, diferenciá-los em absoluto do que é o islão?

Sem dúvida, essa diferenciação é parte do combate a estes grupos terroristas. Há aqui uma componente de religião e uma outra ideológica. E a Europol e especialistas de países maioritariamente muçulmanos fazem uma distinção absolutamente clara entre terrorismo islamita e o islão. São duas completamente distintas. O recurso ao terrorismo em nome do islão é uma falsificação desta religião, transformando-a numa ideologia. E é importante que isto fique claro para as comunidades muçulmanas na Europa para não haver dúvidas, entre estas, de que elas são parte da solução no combate ao terrorismo.

O DN viajou a convite do EGIC

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