EUA planearam fingir ataque russo para começar guerra na década de 1960

Informação consta num dos documentos tornados públicos sobre o assassínio do presidente J.F. Kennedy. Plano dos EUA era construir réplicas ou comprar aviões soviéticos para atacar alvos norte-americanos

A administração norte-americana considerou planear um falso ataque, utilizando aviões russos, para justificar o início de uma guerra com a URSS ou os seus aliados na década de 1960. A informação consta num documento recentemente tornado público, que faz parte do acervo de ficheiros relativos ao homicídio do presidente John F. Kennedy. São mais de 2800 ficheiros que, nas últimas semanas, têm vindo a ser analisados e escrutinados.

O documento sobre o falso ataque descreve uma reunião que terá tido lugar no dia 22 de março de 1962 e contou com membros do Conselho de Segurança Nacional dos EUA, que discutiram uma sugestão do então procurador-geral norte-americano, Robert Kennedy, irmão do presidente J.F.K.. Robert Kennedy propunha que os EUA adquirissem aviões militares soviéticos ou fabricassem réplicas de Mig-17, Mig-19 ou Ilyushin Il-14. Os custos de tal empreitada chegaram a ser analisados: construir um MIG-19 que os não-especialistas confundissem com um avião russo podia chegar aos 44 milhões de dólares, ao passo que conceber uma réplica de um Ilyushin Il-14 seria "extremamente difícil e moroso", terão concluído os responsáveis.

Perante este cenário, a CIA sugeriu então que fosse adquirido material soviético original, através de pilotos que desertaram ou comprando-o de um país que não fizesse parte do Pacto de Varsóvia. A agência apresentou ainda três cenários em que os aviões poderiam ser utilizados, acrescenta a Newsweek, que analisou o documento, incluindo operações para confundir pilotos inimigos no ar ou atacar instalações de países adversos, e uma "operação de provocação na qual um avião soviético parecesse atacar os EUA ou forças aliadas para oferecer uma desculpa para uma intervenção norte-americana".

Entre os responsáveis que estiveram na reunião relatada no documento agora divulgado contam-se o procurador-geral dos EUA, Robert Kennedy, o diretor da CIA, John McCone, ou o conselheiro para a segurança nacional McGeorge Bundy.

Não é a primeira vez que se ouve falar deste plano para simular um ataque russo: em 2001, o historiador Robert Dallek assinalava esta hipótese num livro - An Unfinished Life: John F. Kennedy, 1917-1963 - atribuindo a ideia ao então diretor da CIA, John McCone.

O documento que prova a veracidade do plano foi revisto pela última vez pela CIA em fevereiro de 1998 e um selo mostra que deixou de ser confidencial em março de 2016. Mas estranhamente, assinala a Newsweek, na capa, no local onde devia estar escrita a data do ficheiro, aparece apenas 00/00/00.

Exclusivos

Premium

Ferreira Fernandes

A angústia de um espanhol no momento do referendo

Fernando Rosales, vou começar a inventá-lo, nasceu em Saucelle, numa margem do rio Douro. Se fosse na outra, seria português. Assim, é espanhol. Prossigo a invenção, verdadeira: era garoto, os seus pais levaram-no de férias a Barcelona. Foram ver um parque. Logo ficou com um daqueles nomes que se transformam no trenó Rosebud das nossas vidas: Parque Güell. Na verdade, saberia só mais tarde, era Barcelona, toda ela.

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

Dos pobres também reza a história

Já era tempo de a humanidade começar a atuar sem ideias preconcebidas sobre como erradicar a pobreza. A atribuição do Prémio Nobel da Economia esta semana a Esther Duflo, ao seu marido Abhijit Vinaayak Banerjee e a Michael Kremer, pela sua abordagem para reduzir a pobreza global, parece indicar que estamos finalmente nesse caminho. Logo à partida, esta escolha reforça a noção de que a pobreza é mesmo um problema global e que deve ser assumido como tal. Em seguida, ilustra a validade do experimentalismo na abordagem que se quer cada vez mais científica às questões económico-sociais. Por último, pela análise que os laureados têm feito de questões específicas e precisas, temos a demonstração da importância das políticas económico-financeiras orientadas para as pessoas.

Premium

Marisa Matias

A invasão ainda não acabou

Há uma semana fomos confrontados com a invasão de territórios curdos no norte da Síria por parte de forças militares turcas. Os Estados Unidos retiraram as suas tropas, na sequência da inenarrável declaração de Trump sobre a falta de apoio dos curdos na Normandia, e as populações de Rojava viram-se, uma vez mais, sob ataque. As tentativas sucessivas de genocídio e de eliminação cultural do povo curdo por parte da Turquia não é, infelizmente, uma novidade, mas não é por repetir-se que se deve naturalizar e abandonar as nossas preocupações.