A campanha para as eleições de 2020 começa hoje

As eleições intercalares dos Estados Unidos deram o tiro de partida para as eleições presidenciais de 2020. Donald Trump, que quis fazer desta eleição um referendo à sua presidência, vai arder em lume brando durante dois anos. Os democratas mudaram, são mais jovens e mais progressistas. Os dados estão lançados.

Estas foram eleições locais, mas os últimos dias confirmaram a tendência assumida pelos dois lados da barricada: as intercalares seriam um referendo à presidência de Donald Trump e os americanos teriam de decidir se queriam manter este presidente com um poder ilimitado. E, mesmo sem os números finais, é fácil chegar a uma conclusão: os eleitores insatisfeitos decidiram dar poder aos democratas na câmara baixa para controlar os impulsos deste Presidente.É de notar que não é a primeira vez que isto acontece: as intercalares da presidência Obama dizimaram o partido Democrata, o que levou ao cenário que se verificava até ontem, com a liderança republicana nas duas câmaras do Congresso. Ainda assim, o dramatismo que rodeia a presidência Trump deu a esta eleição contornos únicos.

E isso explica os resultados surpreendentes de ontem: terão votado cerca de 114 milhões de americanos, um aumento de 30% sobre as últimas eleições intercalares. A mobilização das mulheres, dos jovens e das várias minorias terá tido algum efeito, mas a análise detalhada dos números pode demorar algum tempo. E o voto popular foi avassalador a favor dos democratas e contra os republicanos, mesmo que o sistema eleitoral mitigue estes resultados a nível nacional. Trump terá tido, afinal, o condão de voltar a despertar os americanos - e de levar uma geração mais jovem às urnas.

Outro ponto a destacar: a América continua profundamente dividida entre uma região central economicamente deprimida e geracionalmente envelhecida que se revê no estilo do Presidente, e as duas costas que o abominam. São dois países que cada vez falam menos um com o outro e têm dificuldade em reconhecer-se, o que é uma consequência direta da política identitária perseguida pela presidência Trump.

O homem que diz querer "tornar a América grande outra vez" arrisca-se a parti-la em pedaços e nem os excelentes resultados da economia ajudaram o Presidente. E isto porque os americanos estão mais preocupados com o sistema de saúde e com a emigração do que com os resultados económicos, porque é nesses temas que se tem centrado o debate político.

Uma das particularidades do sistema norte-americano tem a ver com o peso dos governadores em cada Estado - são os líderes do governo estadual e possuem grande poder executivo. E isso tem contornos fundamentais no mandato que agora se inicia, porque em 2020 serão redesenhados os distritos eleitorais em função do censo que se realizará nesse ano.

Com mais democratas a mandar nos estados, esse redesenho poderá reverter as alterações feitas pelos republicanos, que criaram algumas aberrações geográficas de forma a tirar vantagem nos resultados eleitorais. Por isso o quadro final dos governadores, que a esta hora ainda não está fechado, poderá dar mais indicações sobre mudanças estruturais.

Mas agora a bola está do lado democrata, que terá de decidir o que faz com esta minoria na Câmara. Essa decisão exige liderança, que é coisa que o partido da oposição não tem. Para mais, as suas grandes figuras têm todas mais de 70 anos: Bernie Sanders tem 77, Nancy Pelosi 78 e Hillary Clinton 71. Impõe-se uma renovação urgente que abra espaço a um novo discurso capaz de entusiasmar o eleitorado independente, que é onde se verdadeiramente se jogam as eleições nos EUA.


Beto O"Rourke, o candidato que quase causou um choque no Texas, tornou-se uma figura credível a nível nacional e poderá agora ter um papel mais importante no futuro do partido, até porque está sentado em cima de dez milhões de dólares que recolheu e não usou na sua campanha. Ao cuidado da nova liderança democrata está o facto de que os candidatos democratas com discurso mais centrista terem tido melhores resultados do que os que alinham mais à esquerda.

Isso será determinante na escolha da dupla candidata à Presidência, mas também na forma como aproveitar a maioria na Câmara: irão os democratas declarar guerra aberta a Trump, promovendo investigações e recusando todo e qualquer pacote legislativo que venha da Casa Branca? Ou vão negociar e tentar conquistar concessões de uma administração em que não confiam? As respostas começam a chegar em janeiro, quando os novos ocupantes da Câmara dos Representantes chegarem a Washington.

Mas convém ter em conta que o ocupante da Casa Branca é um animal político que só sabe atacar, entende as negociações como um processo em que um ganha e o outro perde e vai estar acossado com a maior probabilidade de um processo de impeachment que ponha em causa o seu mandato. Uma coisa é certa: a política americana começou ontem a mudar.

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