Xi Jinping em Portugal com António Costa

embaixador dos EUA

"Este Xi não é a China com quem portugueses têm comerciado durante 500 anos"

Embaixador americano voltou à carga contra opção pela Huawei para a rede 5G. George Glass advertiu que as relações serão sempre afetadas, mesmo que Portugal e Estados Unidos sejam sólidos aliados.

O alerta americano

"Não, não, Portugal não está a ser naif na relação com a China, mas confia demasiado na sua longa tradição de relação com os chineses", diz o embaixador George Glass, O problema, acrescenta o embaixador americano, é que "este Xi não é a China com quem os portugueses têm comerciado durante 500 anos", referindo-se a uma alteração da estratégia do regime de Pequim desde que Xi Jinping se tornou secretário-geral do Partido Comunista em 2012 e presidente da república logo no ano seguinte. E, claro, a desconfiança americana em relação à Huawei, empresa na calha para instalar o 5G em Portugal, foi o tema central da conversa em Lisboa com um pequeno grupo de jornalistas, numa sala da residência oficial na Lapa com vista para o Tejo. "A relação mudará. Não continuará a mesma", foi a mensagem americana para Portugal se no final do processo - que vai durar anos - optar mesmo pela tecnologia chinesa, que levanta sérias dúvidas aos Estados Unidos em termos de segurança.

"Foi aqui que Frank Carlucci e Mário Soares conversaram muitas vezes", fez questão de sublinhar Glass, banqueiro de investimentos do Oregon escolhido pelo presidente Donald Trump para diplomata-mor em Lisboa. São conhecidos nos tempos do PREC os encontros conspiratórios do então embaixador americano em Lisboa com o político socialista naquela sala no último piso da residência, uma espécie de zimbório. E também é sabido, passadas mais de quatro décadas, como foi essencial a amizade entre Carlucci e o futuro primeiro-ministro e presidente para que Portugal ficasse no campo pró-americano depois das convulsões pós-25 de Abril.

Mas antes de criticar a proximidade à China, Glass tudo fez para destacar a força da relação luso-americana, referindo-se a Portugal como o "nosso segundo aliado mais antigo" e, passando da história para a atualidade, notando que as trocas comerciais cresceram 9% no ano passado, para atingirem 7,2 mil milhões, "o valor mais alto de sempre". Também o investimento continuou, com mais de 540 empresas americanas em Portugal, gerando milhares de empregos. E se em 2018 foram 800 mil os turistas vindos dos Estados Unidos, o embaixador prevê "mais de um milhão este ano", sendo que "o turista americano gasta em média mais do que os turistas de outras nacionalidades". Por fim, também a importância estratégica do porto de Sines foi referida, que tem recebido gás natural (GNL) americano em grandes quantidades, com destino à EDP e à Galp. Com mais investimento na ligação a Espanha, disse ainda, a partir de Sines poderá mais do duplicar-se a quantidade de GNL enviado além dos Pirinéus.

Algumas palavras de elogio à posição de Portugal na Venezuela, reconhecendo o presidente interno Juan Guaidó, e também de denúncia das "atividades malignas da Rússia" das quais Portugal também está consciente, e a seguir fogo cerrado sobre a China, segunda potência económica mundial e cada vez mas um rival global dos Estados Unidos, ainda que tanto em termos de riqueza como de força militar não esteja sequer perto dos americanos (o PIB americano é 50% mais alto do que o chinês e a nível de orçamento de Defesa a relação é de três para um).

O desafio chinês

Não admira que, na linha de Trump, a quem com humor chama de "o meu chefe", o embaixador Glass não se deixe impressionar com a ascensão chinesa, nem com projetos como o Uma Faixa, Uma Rota, que está a ser o plano de Xi Jinping para o aprofundamento da globalização, mas com características chinesas. Mas foi depois da visita do presidente chinês a Portugal, em dezembro, e da assinatura de vários protocolos de cooperação, incluindo sobre o 5G, que as campainhas soaram em Washington. Daí a vinda a Lisboa do presidente da Comissão Federal de Comunicações americana, Ajit Pai, que em finais de fevereiro não só esclareceu o governo português sobre os riscos de segurança de confiar na Huawei como, por iniciativa do embaixador, se reuniu com jornalistas e tornou públicas as pressões sobre as autoridades. Tudo isto num ambiente de crescente tensão entre Estados Unidos e China com a Huawei pelo meio, com inclusive a detenção no Canadá em resposta a um mandato de captura americano de um alto dirigente da empresa, a própria filha de Ren Zhengfei, o fundador do gigante de Shenzhen (que se tem multiplicado em garantias de que a segurança dos seus equipamentos é total e que não há controlo de Pequim sobre a Huawei, não só uma empresa privada como cada vez mais uma empresa internacional).

George Glass sabe que a pressão sobre Portugal (e outros países europeus) não pode ser exagerada. Comenta que os Estados Unidos, que têm negócios de muitos milhões com a China, não podem dizer a ninguém que ignore uma economia daquelas. Mas pede cautela, que se esteja alerta, algo que parece começar a acontecer. Diz também que se atração pela Huawei é pelo barato, que isso vai ficar caro no final, pois os chineses "não são bons na inovação" e este é um investimento que vai prender os países durante décadas. "Os países que entrarem por esse caminho vão perder duas décadas de inovação ocidental. Para mim, isso é um crime", acrescenta, dizendo-se um crente na capacidade de inovação americana e europeia, ambas com provas dadas.

Mas Glass salienta também que se a opção recair mesmo sobre a empresa chinesa, cujos telemóveis são um sucesso global exceto na América, então o relacionamento entre Portugal e os Estados Unidos vai ser afetado, vai mudar. "Sim, acho que tem mesmo de mudar. Portugal é o nosso segundo mais antigo aliado e não tem havido brechas entre nós. Parte importante do relacionamento traduz-se na partilha de informação que só podemos ter com um aliado, especialmente com aliados da NATO. Se isso não for seguro, a relação tem de mudar. Temos de pensar numa nova maneira para comunicar esse tipo de informação", adverte o embaixador.

Sobre se a tentação pela Huawei, e em geral pela parceria com empresas chinesas, poderia mudar se em futuras eleições o PSD de Rui Rio substituísse no governo o PS de António Costa, o embaixador americano não tem grandes ilusões, diz perceber que há um grande consenso em Portugal sobre a relação com a China, que toda a gente lhe está sempre a falar dos tais cinco séculos de tradição de comerciar. E a verdade é que a aposta na China vem pelo menos do tempo do anterior governo de coligação PSD-CDS liderado por Passos Coelho, pois foi então que a Three Gorges entrou no capital da EDP e de outras empresas portuguesas.

Choque de dois mundos

Haverá mais episódios deste confronto entre os Estados Unidos e a China, uma relação que nada em que ver com a que havia durante a Guerra Fria entre a América e a União Soviética. A conversão parcial da China comunista ao capitalismo tornou-a parte da globalização a ponto de procurar disputar o comando desta com o tradicional líder, os Estados Unidos. Barack Obama, que coincidiu ainda vários anos com Xi Jinping, era mais conciliador do que Trump na relação com Pequim, mas agora o inquilino da Casa Branca faz questão de mostrar músculo. E se a sua popularidade internacional é débil, os números da economia americana, tanto a nível de crescimento como de desemprego, dão-lhe confiança de que está no caminho certo para "tornar a América grande outra vez", como dizia o slogan de campanha.

Portugal, primeiro país europeu a chegar à China por mar e também pioneiro a reconhecer a independência dos Estados Unidos, está no meio de um choque de mundos, como mostra o interesse do embaixador Glass em dar a conhecer o desagrado americano com a tentação chinesa dos portugueses, que o levou também já a pronunciar-se contra a sinificação do capital da EDP. Um elogio, porém, relevante foi também feito com o Tejo como fundo: "foi muito importante que o presidente Marcelo Rebelo de Sousa tenha feito questão de realçar na recente visita Pequim a importância dos direitos humanos e da liberdade religiosa na China".

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