"Ameaças ao Al-Andaluz são para ter em conta no jihadismo"

Fernando Reinares é considerado o grande especialista espanhol em terrorismo e profere hoje segunda-feira uma palestra no Instituto de Defesa Nacional, em Lisboa. O tema são os atentados de Paris e a evolução da ameaça terrorista na Europa. Ao DN fala também dos riscos para Portugal

O Estado Islâmico, como antes a Al-Qaeda, fala do Al-Andaluz e promete reconquistá-lo. É algo para levar a sério, do ponto de vista da ameaça terrorista?

Tanto o denominado Estado Islâmico como a Al-Qaeda e as seus ramificações territoriais falam do Al-Andaluz com hostilidade contra Espanha e Portugal. São menções agressivas que há que ter em conta no momento de avaliar em conjunto a ameaça do terrorismo jihadista. Ainda que nos pareçam definições fora da realidade, são manifestações que compete interpretar em termos de segurança porque podem ser reais nas suas consequências. Falar do Al-Andaluz e relacioná-lo com a noção de jihad defensiva, como se grande parte da Península Ibérica se tratasse de um território muçulmano sob ocupação de infiéis, é algo que até há pouco os jihadistas associavam quase exclusivamente com Espanha. Mas a radicalização e o recrutamento, em concreto por parte do Estado Islâmico, de alguns indivíduos de origem portuguesa, está a modificar o discurso dos terroristas neste sentido.

Espanha, depois do terrorismo da ETA e da experiência do 11 de Março, tem condições para ser um dos países europeus mais preparados para contrariar a ameaça jihadista?

Quando se perpetraram os atentados de 11 de março de 2004, Espanha tinha um sistema antiterrorista muito desenvolvido e eficaz, mas para a luta contra a ETA e outras manifestações menores de terrorismo interno. Depois do 11 de Março houve que adaptar as estruturas de segurança interna aos desafios do terrorismo jihadista. Mais extensas capacidades de inteligência, uma maior coordenação policial e a cooperação internacional ampliada fazem que Espanha esteja agora, com efeito, entre as nações europeias mais bem preparadas contra a ameaça jihadista. Contudo, estar mais bem preparado reduz marcadamente a probabilidade de que ocorram incidentes terroristas, mas não os elimina por completo. Trata-se de um risco com o qual as nossas sociedades terão de acostumar-se a viver. Espanha, como o resto das nações europeias, deve progredir na construção de resiliência social e desenvolver programas de prevenção da radicalização onde seja necessário implementá-los. Além disso, tanto Espanha como qualquer outro país da União Europeia beneficiaria muito, em matéria de antiterrorismo, se a habitual cooperação bilateral neste campo fosse complementada e enriquecida fazendo uso dos mecanismos intergovernamentais para a cooperação multilateral que já existem mas estão subutilizados.

Até que ponto o risco vem de elementos radicalizados das comunidades instaladas na Europa mais do que de terroristas vindos de fora?

Isso depende dos países europeus a que nos estejamos a referir. Naqueles, como a França, a Bélgica, o Reino Unido, a Alemanha, a Holanda ou a Dinamarca, por exemplo, em que a população muçulmana é composta principalmente pelas chamadas segundas gerações, o problema tende a ser o jihadismo homegrown ou autóctone. São jovens vulneráveis nascidos e criados nesses países os que se radicalizam e eventualmente acabam por incorporar-se em organizações jihadistas. Noutras nações, como por exemplo a Espanha e a Itália, onde a população muçulmana ainda é composta sobretudo por uma primeira geração de imigrantes provenientes de países do mundo islâmico, entre os jihadistas detidos ou que foram para a Síria e o Iraque desde 2012 há tanto estrangeiros como nacionais. Precisamente nestes últimos três ou quatro anos produziu-se uma grande transformação do fenómeno jihadista em Espanha, com algumas mudanças fundamentais como a eclosão de um jihadismo autóctone que não existia antes.

Atentados de lobos solitários, com uma ou duas vítimas, e atentados organizados como o de Paris em novembro. Quais são mais difíceis de impedir pelas forças de segurança?

O leque de possíveis expressões que pode adotar a ameaça do terrorismo jihadista na Europa Ocidental é amplo. Num extremo do dito leque observamos atentados complexos, planificados centralizadamente desde o diretório das organizações jihadistas e muito letais. No outro polo situam-se os atentados cometidos por jihadistas isolados, que atuam por conta própria, unicamente inspirados pela propaganda terrorista e em regra com resultados menos sangrentos. Diz-se que este último tipo de atentados é mais difícil de impedir, mas o certo é que os jihadistas inovam e outros planos terroristas muito mais sofisticados não resultam necessariamente mais detetáveis. Recordemos que nem os atentados de 11 de março de 2004 em Madrid, nem os de 7 de julho de 2005 em Londres, nem os mais recentes de 13 de novembro em Paris foram antecipados pelas forças de segurança.

Intervenções ocidentais no mundo islâmico explicam a vaga jihadista?

Intervenções como a invasão do Iraque em 2003 favoreceram sem dúvida um aumento global da ameaça terrorista. Mas a intervenção no Afeganistão depois dos atentados de 11 de setembro de 2001 teve um efeito bem diferente. O jihadismo global e a ameaça terrorista que lhe é inerente surgiram há mais de um quarto de século e as suas raízes encontram-se num fundamentalismo islâmico muito implantado em países como a Arábia Saudita ou o Paquistão, que justifica moral e utilitariamente a jihad terrorista. Por outro lado, há que situar o atual auge do terrorismo jihadista, antes de mais, no contexto de instabilidade política, cultura autoritária e conflitos sectários que existem em grande parte do mundo árabe e islâmico. É mais uma expressão de antagonismos internos do próprio mundo islâmico do que de conflito entre civilizações. Só a partir da ilusão pouco fundamentada ou do desconhecimento da realidade dessas sociedades, distorcida através das redes sociais, pode falar-se de Primavera Árabe. Os jihadistas estão a aproveitar-se dos seus efeitos, seja na Síria, na Líbia ou no Iémen.

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