Empresas indianas dão folga às funcionárias no primeiro dia da menstruação

Medida foi descrita como "retrógrada" por uns e aplaudida por outros. Menstruação é motivo de vergonha na Índia

Duas empresas indianas começaram a permitir que as funcionárias faltem ao trabalho no primeiro dia da menstruação, uma medida que tem sido aplaudida por algumas mulheres e criticada por outras. A licença tem como objetivo combater os tabus da menstruação e ajudar as funcionárias que sentem dores e desconforto quando chega o período.

"O primeiro dia do período não é muito confortável para a maioria", disse Devleena S. Majumdar, diretora dos recursos humanos da empresa Culture Machine. "É altura de enfrentarmos a realidade. Isto não é uma vergonha, é parte da vida", continuou.

"Sei que alguns críticos vão dizer que as mulheres vão sentir-se envergonhadas, quando tirarem este dia de folga, por dizerem ao mundo inteiro que o seu período começou", admitiu Majumdar. "Mas quando estão grávidas e pedem licença de maternidade não têm vergonha. Porque é que as mulheres ficariam envergonhadas pela licença da menstruação?", perguntou.

A empresa Culture Machine, com sede em Mumbai, anunciou a medida num vídeo publicado no YouTube. No vídeo, algumas funcionárias da empresa descrevem como se sentem desconfortáveis no primeiro dia do período e ficam muito felizes quando recebem a notícia de que, a partir de agora, poderão ficar em casa neste dia.

"Porque é que as nossas funcionárias deveriam ter estas conversas constrangedoras ou pedir para sair? [Um dia de licença] devia ser algo oferecido e facilmente entendido", disse Ahmed Aftab Naqvi, CEO da Gozoop, a outra empresa de Mumbai a adotar esta medida.

Naqvi, citado pelo The Guardian, defende que na Índia ainda há muitas "sensibilidades culturais" quanto a este assunto.

Já a ginecologista Anita Nayar descreveu a medida como "tonta" e "retrógrada". "Uma política de um dia de licença automático por mês alimenta o síndrome da vergonha e deixa o assunto escondido", disse Nayar. "Preferia que as mulheres pedissem tempo de folga quando os períodos são dolorosos", continuou.

Além disso, a ginecologista diz que a maioria das mulheres não tem dores ou desconforto durante o período e as que têm precisariam de mais de um dia.

Na Índia, estar menstruada pode ser motivo de vergonha, já que muitas pessoas acreditam que as mulheres são impuras quando têm o período e que não devem, por exemplo, entrar em templos nem cozinhar.

Há ainda quem diga que as mulheres menstruadas não podem tocar em certos alimentos - porque eles apodrecem - e que algumas ervas e plantas murcham quando uma mulher menstruada passa por perto.

"Temos de quebrar o silêncio e esta licença é uma maneira de acabarmos com os tabus", disse Aditi Gupta, cofundadora de um site que quer educar e acabar com mitos sobre a menstruação. "As mulheres podem tirar um dia sem terem de explicar e sem serem julgadas ou tidas como menos eficientes", continuou.

Falar sobre os mitos do período ajudaria a acabar com práticas como o chhaupadi, no Nepal, que obriga as mulheres a isolarem-se durante a menstruação e que já provocou a morte de muitas, continuou Gupta.

A Culture Machine defende que esta licença deveria ser aplicada em outras empresas em todo o país.

Algumas províncias na China já permitem que as trabalhadoras que sofram de severas dores menstruais tenham um ou dois dias livres por mês, mediante a apresentação de um atestado médico.

Esta prática acontece também, em moldes semelhantes, no Japão, Coreia do Sul, Taiwan e Indonésia.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG